<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311</id><updated>2011-04-21T23:08:10.087+01:00</updated><title type='text'>Abram os Olhos</title><subtitle type='html'>&lt;i&gt;"The point is that you are facing a true problem. If you go to the root with all you've got, there is no way you won't injure family, friends, and innocent bystanders."&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
Norman Mailer
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
&lt;i&gt;abramosolhos@hotmail.com&lt;/i&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://abramosolhos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>74</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107715068881377306</id><published>2004-02-19T00:31:00.000Z</published><updated>2004-02-19T00:33:24.153Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;THE LAST ONES&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O livro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O romance que escrevi chama-se  “O maior espectáculo do mundo”, publicado pela Oficina do Livro. Vi-o hoje, antes de ir para as livrarias. Já suspeitava que a publicação de um livro seria uma experiência contrária à sua execução. Terminar um livro, acabar o trabalho e publicá-lo é o fim de um processo, é algo que se opõe à luta de pensar, de estruturar, de escrever, de corrigir, de apagar. O objecto com capa, foto, excertos, é outra coisa qualquer, necessária, lógica e inevitável. É certo que quero publicar, que quero que as pessoas leiam, mas sempre que olho para esse objecto apetece-me mudar palavras. Não posso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O romance estava terminado quando, em Agosto de 2003, iniciei estes textos. Comecei a escrever aqui para praticar, para trabalhar e para contornar o tédio que descobri existir nas semanas seguintes à produção de um livro. Em breve começarei a escrever outro. Não terei mais tempo. Fico-me por aqui. Como se faz no teatro, dobro o corpo, agradecendo a todos os que me leram, que me mencionaram, que me escreveram e que quiserem continuar a escrever. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado, senhoras e senhores. E até já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS – É possível que regresse, apenas de vez em quando. Mas em breve mudarei estes textos, e outros que venha a escrever, para uma página pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;The Nearness of you – The movies love affair&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as semanas ele recebe um telefonema. Não conversam muito. No dia seguinte encontram-se, sempre no mesmo lugar, atravessam o parque, conversam numa outra língua, ela é estrangeira, ele já viveu noutro país. São incapazes de permanecer num banco, a conversar, as mãos dadas sobre a madeira. Dirigem-se para o edifício com diversas salas de cinema, comentam a temperatura e alegram-se com as previsões que negam a possibilidade de chuva. Ela contou-lhe que tomava comprimidos. Foi o único pormenor, nunca falaram dos pais, desconhecem a existência de irmãos, nunca mostraram fotografias de quando eram crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entram no cinema durante o dia, saem de noite. Por vezes, ainda na sala, comentam uma cena, aproximam os lábios das orelhas, sorriem, acumulam o desejo sem nunca se tocarem, nenhum dedo a pousar no pulso, nem um braço acomodado sobre os ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminham pelo parque, ele convida-a para sua casa, mesmo que já saiba que será assim, que é para isso que se encontram e que entram num apartamento com paredes brancas e escassa mobília. Na primeira vez ela disse-lhe que não gostava da decoração. Ele percebeu – além dos ténis quase rotos, da ausência de maquilhagem – que essa opinião o impediria de apaixonar-se. O acordo foi estabelecido quando, nessa noite, ela atendeu o telefone, interrompendo uma dança, Sarah Vaugh, piano, contra-baixo, e as mãos dele escorrendo pela cintura, os polegares contornando os ossos das ancas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“The nearness of you” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela desligou o telefone, disse que tinha pouco tempo e que precisava de regressar a casa. Ele nunca faz perguntas sobre o outro homem. E continuam a encontrar-se todas as semanas, entram no cinema, saem para a noite, sentam-se no chão da sala do apartamento, ela bebe cerveja, ele bebe vinho, despindo-a devagar, nomeando os lugares do corpo com palavras do seu idioma, ela acompanhando-o com palavras que ele nunca ouviu. É apenas durante o sexo que utilizam as próprias línguas, que conversam quando pressionam a carne e direccionam a cabeça para os sítios mais vulneráveis ao prazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levanta-se e entra na casa de banho, nunca utiliza produtos para o corpo ou para o cabelo, diz-lhe que, na clandestinidade, se devem evitar os cheiros dos outros, as memórias na pele, um arranhão numa perna, os dentes cravados no pescoço. Ele entrega-lhe uma toalha, prepara comida na cozinha. Quando se escuta o telefone dentro da mala, ela levanta-se, desaparece numa das divisões da casa, regressa, olha para ele que se levanta e que a acompanha até uma paragem de táxis. É sempre ele que diz o nome da rua ao condutor, é sempre ele que escolhe os filmes, riscando no jornal aqueles que ela, ao telefone, afirma ter visto – com outra pessoa. Esta semana ele descobriu que ela era fotógrafa, arranjou-lhe um trabalho, cruzou-se, durante o dia, com ela e com o outro homem. Cumprimentou-os. Falaram do emprego. Ele disse que estava com pressa. Nessa tarde escolheu ir ao cinema sozinho, como fazia antes de a conhecer. Quando saiu da sala tinha uma mensagem no telefone. Não respondeu.   &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107715068881377306?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107715068881377306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107715068881377306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_02_01_archive.html#107715068881377306' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107693149830326687</id><published>2004-02-16T11:38:00.000Z</published><updated>2004-02-16T11:40:10.903Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A normalidade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;Em três dias morreram quinze pessoas. Estavam dentro de carros. Digo-lhe tudo isto sabendo que os números nunca serão um eficiente mecanismo de dissuasão. Explico-lhe ainda que depois de um Martini e de meia garrafa de vinho é perigoso conduzir. Ela responde que está em condições. Esta rapariga não se interessa com a possibilidade de um acidente, com o perigo para as outras pessoas, com a infracção da lei. Ela está segura de que um Martini e meia garrafa de vinho não alteram a sua habilidade ao volante. E é assim que pensam muitos condutores. Essa é a sua normalidade. Ela diz que alguns dos seus amigos morreram na estrada. Ela tem 23 anos e não quer mudar. O meu apelo é visto como um sermão paterno. Ela não precisa de me ouvir. Ela está bem para guiar.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;Um acidente é isso mesmo, um evento raro, ocasional, que não cumpre as regras da normalidade. Mas em Portugal os acidentes, as mortes, os traumatizados são a normalidade. Fazer a A5 para Cascais a 180 km por hora colado à traseira do carro da frente é normal, tal como as bruscas mudanças de direcção, as ultrapassagens pela direita. A auto-estrada é uma pista de corrida. E se peço ao meu amigo para reduzir a velocidade, ele responde que eu não estou habituado e que em Portugal é assim que se conduz, que todas as aquelas manobras são normais, que fazem parte do sistema de sobrevivência. Tento explicar-lhe que em alguns lugares do planeta também é normal a excisão, o apedrejamento, a prostituição infantil. A repetição de um erro, um crime, uma falta, vezes sem conta, não serve de atenuante nem justifica a impunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. &lt;br /&gt;Em Nova Iorque os condutores bêbedos ficam sem o carro que conduzem no momento da infracção. Resultaria em Portugal, país novo rico onde os carros são uma prioridade, um patamar mais elevado na escala social. Se miúdas de 23 anos que bebem antes de entrar num carro não parecem tocadas pelas campanhas de sensibilização, pela imagens diárias nas televisões, pelos amigos que morrem em acidentes, se essa é a sua normalidade, apenas existe uma solução. Punir severamente. Tirar carros, carta, substituir penas suspensas por serviço comunitário – em particular nos hospitais onde se encontram os sinistrados. Os infractores teriam de ajudar na fisioterapia, mudar arrastadeiras, ver a destruição física e o sofrimento cara a cara, fora de um ecrã, com cheiro, com deformação, e conversar com os familiares, perceber-lhes o desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. &lt;br /&gt;Em Portugal é normal beber e conduzir. É normal fazer manobras perigosas, morrer, ficar sem pernas, sem fala, sem um filho. Em Portugal fazem-se perfis em jornais – e na televisão – sobre os homens que bateram os recordes de taxa alcoolémica, mas quase sempre em registo de humor. Em Portugal beber e conduzir é símbolo de masculinidade. Em Portugal as pessoas estão mais preocupadas em evitar a polícia do que com a possibilidade de um acidente. Quando um condutor alcoolizado entra no carro pensa no melhor caminho para não se cruzar com uma operação da Brigada de Trânsito, nunca na eventualidade de um acidente. Porque a lei é que está mal, os médicos e a polícia não sabem nada, e uma rapariga de 23 anos que bebe um Martini e meia garrafa de vinho está bem para conduzir – “Já conduzi muito mais bêbeda”. Procuro ainda explicar-lhe que não quero controlar-lhe os hábitos de bebida, que ela pode embebedar-se, sozinha, com amigos, na rua, em casa, vomitar, desde que não entre num carro, porque nesse momento a bebedeira deixa de afectar apenas o seu cérebro e pode desfazer outras pessoas. Digo-lhe até – se ela não está interessada em que me preocupe com a sua vida – que me entenda como um egoísta que quer viver, que não deseja ser atropelado por um bêbedo. Não é suficiente. E ela abandona a mesa para regressar à sua normalidade.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107693149830326687?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107693149830326687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107693149830326687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_02_01_archive.html#107693149830326687' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107641024272316892</id><published>2004-02-10T10:50:00.000Z</published><updated>2004-02-10T10:52:29.030Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Body Language&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“I’m a fighter because I can’t be a poet. I can’t tell stories.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barry MacGuigan, campeão irlandês de pesos pluma&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se regressamos ao lugares onde fomos felizes é sempre depressa. O ritual começa com o meu irmão no aeroporto, esperando-me, avançando paras as malas, aliviando-me de uma viagem a atravessar o mundo. Dentro do carro, percebo que desapareceram alguns prédios e que há mais sinais de trânsito, mas o calor repete-se, igual, a mesma humidade a escorrer nas pernas das pessoas, desfocando as luzes dos carros depois de um pé no travão, fazendo levitar o asfalto, ondas transparentes que deixam de existir se nos aproximamos para lhes tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de abandonar as malas no quarto de hóspedes, calçamos o ténis e avançamos com o tronco despido pelos passeios, recuperamos as corridas, o corpo resplandecente quando o nosso reflexo cruza uma montra. Fazemos o mesmo trabalho de estrada que nos preparava para os combates, os músculos crescem, forçamos as pernas, desenhamos golpes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bairro desliza pela nossa velocidade, há mulheres que se transformaram em avós e que vigiam as crianças que se matam com bisnagas. Passamos por velhos que levantam os chapéus de palha, as letras vermelhas de uma mercearia acabam de ser pintadas, aparece uma esquina, uma boca de incêndio que lança água, um rádio que explode num carro e que nos estremece os tendões. Os aparelhos de ar condicionado nas janelas substituem as ventoinhas, pingam água para os passeios. Mas esta é ainda a mesma cidade, os corpos embaciados, em câmara lenta, e a nossa rapidez incapaz de destruir a tranquilidade das pessoas que respiram dentro do calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interrompemos o movimento de corrida, dançamos no campo de basquetebol, supondo que as nossas sombras na parede são os adversários, um combate imaginário no chão que transpirou durante todos estes anos e que desbotou as cores para as pessoas que nos contemplam das janelas, miúdos que regressaram da escola e que comem gelados nas escadas de incêndio, luminosos, com roupas que parecem em chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste campo consegui a primeira vitória. Sabia já suficientes letras para cumprir as tarefas impostas pela minha mãe, escritas numa lista de supermercado. Sacos de compras com fruta, uma melancia que morderia durante a tarde, garrafas de refrigerantes tilintando quando um dos rapazes me rasteirou e despedacei o vidro no passeio, lâminas que entraram na carne do antebraço e que rasparam uma veia. O médico contou o pontos à medida que remendava o ferimento, o meu irmão mais velho obrigou-me a procurar os culpados. Eram dois, o agressor e o cúmplice com os ombros mais frágeis, capaz de rir mesmo quando viu o sangue espalhando-se na roupa e nos sacos de plástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltámos do hospital, como todos os outros miúdos do bairro, eles saltavam com uma bola cor de laranja em direcção ao cesto, os músculos definidos pela luz que restava desse dia, gritos e insultos ao mesmo tempo que o cheiro da comida chegava das casas e o som de uma ambulância se aproximava e depois se diluía nos outros barulhos da cidade. O meu irmão interrompeu o jogo e criou um circulo com a audiência. Decretou que eu lutaria com aqueles dois rapazes, um de cada vez, anunciou as regras, golpes com os punhos acima da cintura até que um dos lutadores escolhesse desistir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doía-me o braço e os treinos amadores – saltar à corda no quarto, correr, simular combates com o meu irmão – não impediam o medo da humilhação diante de todos aqueles espectadores, rapazes que abusariam da minha fraqueza caso perdesse, raparigas que sentiriam compaixão apenas no momento em que eu tombasse, mas que recusariam convites para o cinema durante o resto da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No combate com o cúmplice não houve técnica, apenas os meus braços despejando golpes que caíam na cabeça, nos cotovelos, um murro que se encaixou abaixo do esterno, acima do estômago, e que lhe imobilizou o sistema respiratório. O cúmplice enrolou o corpo, a boca procurando oxigénio, o meu irmão a proibir-me de magoá-lo ainda mais.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Quando o agressor entrou para o circulo, para iniciar o segundo combate, mostrava-se preparado para me castigar, orgulhando-se da cicatriz que lhe atravessava o umbigo, cuspindo, utilizando os braços com a graciosidade dos lutadores que sabem magoar. O tronco brilhante rodava sobre a cintura sempre que as mãos disparavam, rasgando a humidade, os músculos aquecendo, antecipando o momento de impacto. Investiguei o meu irmão que anunciava, uma vez mais, as regras. Ele não aceitaria uma derrota. Mais do que um incentivo de coragem, havia nos seus movimentos uma exigência, eu deveria destruir aquele agressor, recuperar a minha dignidade, ou pelo menos deveria lutar até que o coração parasse, os cortes nos olhos me cegassem e a bravura fosse proporcional aos meus danos físicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me recordo de quase nada do combate. Mas havia miúdos que me carregavam às costas e que me aplaudiam. Os pontos tinham-se desfeito por causa dos meus golpes e o corte voltava a jorrar sangue. O derrotado ficou para trás, no campo de basquetebol, preparando-se para a vergonha e para meses a convencer os rapazes que a sua amizade era importante, sabendo que teria ainda de experimentar a humilhação e o isolamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue e as marcas na cara acentuavam o dramatismo da minha vitória. Havia beleza no meu corpo danificado apenas porque eu era o campeão, as raparigas não se assustavam com o tamanho dos meus lábios nem com o osso do nariz, desviado, esperando analgésicos e uma operação cirúrgica. Essa tarde serviu para intimidar inimigos, para impressionar mulheres. Com esse combate construi uma imagem que reforcei em sessões de corda e de corrida, os vizinhos apreciavam a destreza dos meus movimentos e adivinhavam um campeão mundial. Mas nunca me tornei profissional e hoje vivo noutro país, onde faz frio, onde ensino alunos universitários sobre a poesia que outros escreveram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os anos regresso a casa dos meus pais, durante os meses de calor. Corro com o meu irmão pelo bairro. Os que me conhecem acenam, como se ainda revelasse a glória que consegui naquela tarde. Todos os anos, depois de correr, entro com o meu irmão na mercearia, aproximo-me do proprietário, o agressor, e cumprimentamo-nos, mas nunca conversamos, reagimos com a cortesia dos adultos que se julgam civilizados, sem nunca esquecermos o combate. Um destes dias, vou oferecer-lhe uma desforra. Levo a minha mulher, os meus filhos, os meus alunos, o meu irmão, e mostro-lhes o que é, afinal, a poesia em carne viva. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107641024272316892?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107641024272316892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107641024272316892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_02_01_archive.html#107641024272316892' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107591798978525487</id><published>2004-02-04T18:06:00.000Z</published><updated>2004-02-05T12:07:53.093Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Move to the city&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei por onde ir. Mas tenho a certeza que deveria estar longe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontramos a saída do parque de estacionamento depois de eu abandonar o lugar do condutor, de cruzar-me com Jasmine diante do carro e de mudarmos de posição. Ela usa as unhas no volante como se fossem um instrumento adicional na rádio, educa-me sobre o perigo de conduzir quando estamos bêbedos. Mas sou eu quem ordena cuidado. Nunca ninguém encontrou um risco na pintura do meu carro. Este motor deveria ser santificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem terminou. O meu fascínio está nos brilhantes que enfeitam as bochechas de Jasmine. Estico um dedo e um dos brilhantes cola-se na minha pele. O pudor que revelou durante toda a noite intensifica-se e ela encosta-se ao vidro como se esperasse um ataque, um salto por cima do manipulo das mudanças. Eu mantenho-me em sossego, demasiado bêbedo e cansado para inventar qualquer truque de sedução. Jasmine é empregada de mesa num clube de strip-tease. Não dispõe de um corpo para ser bailarina, mas também não encontra virtude para estar casada, com filhos, limpando a casa, cozinhando para a família, reverenciando um marido trabalhador. Jasmine parou a meio caminho de qualquer coisa que nunca chegou a ser, não é nada que se possa caracterizar, é uma mulher inacabada, e talvez seja por isso que ainda está dentro do meu carro, que ainda não me recusou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jasmine diz-me que não posso entrar na caravana. Depois, ao conceder que a sua vergonha encenada não estimulou a minha insistência, aconselha-me a beber café, a lavar a cara, a recuperar a sobriedade, avisando-me, no entanto, que não haverá sexo – a expressão que escolhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É muito cedo para fazermos amor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filho de Jasmine dorme na caravana. Uma mulher – a irmã – aparece à porta e repousa uma mão nas ancas, a outra segurando uma caneca, investigando o perigo. Jasmine acena para a irmã, um gesto que também significa que não demorará dentro deste carro. O beijo de despedida que me oferece, na boca, talvez apresente uma possibilidade, um convite para outro dia, mas os meus músculos estão dormentes e a língua é apenas um pedaço de carne. Jasmine sai do carro e mesmo que se vire para trás e sorria, uma última vez, não haverá continuação para este encontro. O meu corpo magoa-se quando mudo para o lugar do condutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou confortável dentro do meu carro, o ponteiro a rodar para a direita, a velocidade a crescer numa estrada sem carros, apenas alcatrão com uma linha branca que cruzo e uma mancha de árvores velozes roçando na chapa, o pé esmagando o acelerador. Este é o momento de voar, de não ter medo, de rodar o volante, de arrancar a terra no limite do alcatrão, de regressar à linha branca e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o meu corpo acende-se, o coração explode, os fragmentos do susto atingem todo o sistema nervoso porque um animal rebenta contra o pára-choques, sobe pelo vidro, e o meu pé muda para o pedal do travão, borracha, fumo, as minhas mãos a tremer, suspensas sobre o volante, o carro que descansa, imobilizado, depois do confronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As costelas do animal – um cão, uma raposa, um lobo – aparecem entre o pêlo, respiram, por vezes param como se morressem, mas depois insistem em reactivar os pulmões. Procuro levantar-lhe o corpo mas a minha pele mancha-se de sangue e o cheiro afasta-me, não posso salvá-lo, entro no carro, o motor ainda funciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai está atrás do vapor da relva, uma mancha que se eleva da máquina, partículas que brilham à superfície do jardim quando a manhã ainda é fresca. Entro em casa e o meu pai persegue-me, descalça as luvas, procura um ferimento entre o sangue que mostro na roupa. Sintetizo tudo o que aconteceu, antecipando perguntas, recusando a possibilidade de mais esclarecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem – o meu pai conduz – aumento o volume do rádio mas o monólogo continua, por vezes aceno com a cabeça para fingir atenção, não contesto nada, utilizo apenas uma palavra para evitar uma indiferença que o magoe, estou a caminho de outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estas coisas acontecem. Quando tinha a tua idade esmaguei um pássaro com a roda da mota. Não morri por sorte.”&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;“O que interessa é que estás vivo. Estas estradas deviam ter vedações, é um perigo, vou escrever uma carta para os jornais e falar com um amigo conhece pessoas influentes na Polícia, eles têm de tomar precauções. Os animais não são mais importantes que as pessoas.”&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;“Quando chegares a casa comes alguma coisa e vais dormir, eu trato de tudo.”&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou dentro do carro mas o som é nítido, tão seco que estremece as árvores, prolonga-se no ar, arrasta-se, e o doce odor da pólvora entra pelas janelas. O meu pai guarda a espingarda no banco traseiro e, embrulhado num lençol, arruma o animal na bagageira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não existem vestígios de sangue no meu corpo nu. Visto as calças, não uso meias, aperto os cordões dos sapatos, escolho uma t-shirt. O meu pai cozinhou, cortou pão e espremeu laranjas para dentro de um copo com gelo. Observa-me enquanto mastigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vais dormir e eu vou enterrá-lo. Não se volta a falar deste assunto. Quando acordares espreita o jornal. Sublinhei alguns anúncios de emprego que podem interessar. Mas se quiseres, logo à noite, eu levo-te ao escritório da fábrica. Sabes como é difícil encontrar trabalho. Já falei com o meu chefe e ele quer conhecer-te. Não precisas de falar, eu tenho tudo planeado. Vestes aquele casaco que comprei o mês passado, deve servir-te, e levas a gravata dos funerais, escovo-a antes de sairmos. Eu converso com ele. Não tens de preocupar-te. Está tudo arranjado. Só tens de sentar-te e apertar-lhe a mão e dizeres que estás pronto para trabalhar amanhã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai está em pé quando empurro a roupa para dentro das malas. Digo-lhe que não posso ficar mais tempo, que há pessoas que me procuram, que querem fazer-me mal, talvez mesmo matar-me. O meu pai diz que resolve o problema, que tem dinheiro, que pagará para que o meu corpo permaneça sem cicatrizes, que conhece pessoas importantes, um fuzileiro, bancários, políticos que visitaram a fábrica. Tudo isto é mentira, tal como não existem homens à minha procura. Enganamo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me preparo para entrar no carro, percebo que, enquanto tomava banho, o meu pai eliminou o sangue da chapa. Digo-lhe que telefono assim que alcançar a primeira grande cidade. O meu pai entrega-me dinheiro preso num elástico e dá-me as chaves da sua carrinha: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não podes fazer uma viagem nesse carro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparo-me para recusar mas ele abraça-me, aperta-me, quase que me magoa. Depois de rodar a chave da carrinha, escuto outro motor e encontro o meu pai atrás da máquina de relva, o cheiro verde suspenso diante do seu corpo, forrando-lhe a cara e as mãos que se despedem, sem parar, até que eu desapareça na primeira curva. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107591798978525487?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107591798978525487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107591798978525487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_02_01_archive.html#107591798978525487' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107538570034160256</id><published>2004-01-29T14:15:00.000Z</published><updated>2004-01-29T14:16:35.263Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Comer-te viva&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“You’re the real thing, even better than the real thing”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;U2&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Introdução&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-o ainda antes de o conhecer. Primeiro num filme pornográfico, alugado numa loja em East Village, assim que um amigo me falou do projecto televisivo que incluia esse actor. Fiz também parte daqueles que visionaram o programa antes de ser apresentado aos executivos da estação de televisão. Era um diário audiovisual desse mesmo actor, estrela porno, a viver na Califórnia. Decidi agora juntar transcrições de frases e imagens apanhadas pela câmara - que o seguiu durante um mês - e um relato dos dias que passámos juntos em Nova Iorque. A responsabilidade da edição e de algum ajuste na tradução é apenhas minha. O programa nunca chegou a ser transmitido. Nem sequer comprado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 3 &lt;br /&gt;Los Angeles, 10h00, testemunho do actor&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu existo. Provem, mastiguem e engulam. Observem-me nos espelhos da casa e nas fotografias penduradas na parede. Toquem no ecrã da televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lição número um.&lt;br /&gt;O corpo é importante. Vejam o contorno dos bícepes, a pele para lamber, o tamanho do pénis circuncidado mesmo em estado de descanso. Depois de acordar engole-se um batido de banana e esperam-se dez minutos. Ouve-se música ou descobre-se a televisão. Nada de programas para sorrir. Apenas notícias. Passam-se trinta minutos na máquina de corrida. A resistência é uma qualidade. Transpirar limpa a circulação sanguínea e serve de lavagem automática para a pele. Os pulmões têm de ser grandes, aguentar as provas físicas. Quando se passam seis horas a foder respira-se fundo, adia-se o sofrimento e a exaustão. Os braços exercitam-se porque são como alavancas, ou gruas que sustentam todo o meu peso de cada vez que estou em cima de uma actriz, de uma actriz porno, de uma mulher. Os braços não podem falhar, sofrer tremores de cansaço, desistir sempre que alguém espera que continuemos com a actividade de martelar outro corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pernas e as nádegas devem mostrar-se duras e com todos os músculos definidos. De cada vez que estou fora da cama e a mulher, a actriz, a profissional, me recebe como os cães nos ensinaram, contraio as coxas e as nádegas, invento beleza. Outras vezes, quando por um erro da produção existe um desnível entre os corpos, uma cama elevada, uma actriz alta, forço-me a estar em bicos de pés, como os bailarinos, profissão de rápido desgaste. Por tudo isto, o exercício do corpo é importante e obrigatório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos passar pelo corredor, espreitar as duas mulheres, não actrizes, que ainda dormem no meu quarto. Lembrem-me que os lençóis são para a máquina de lavar. E antes de entrarmos na casa de banho, tirem os sapatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Plano de corte, frascos de creme, pasta de dentes, toalhas brancas, pente com dentes em madeira)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lição número dois.&lt;br /&gt;A higiene é uma forma de beleza. O cabelo deve ser curto e sem produtos pegajosos que enfraquecem as raízes e se mostram desgradáveis aos dedos das mulheres, actrizes profissionais ou mesmo as que não fodem apenas por dinheiro e fama. Deve fazer-se a barba minutos antes de entrar em cena mas guardar sempre o tempo necessário para que a pele absorva o creme hidratante e aceite a maquilhagem. Como podem ver, estou nu diante deste espelho de corpo inteiro, como se fosse uma cama. E nenhum pêlo em qualquer lugar da pele. Cada um escolhe a técnica de depilação, mas uma pele lisa e macia é uma exigência. Não só o corpo parece mais limpo e mais acessível, como os músculos se revelam na sua disposição natural. Os pêlos escondem-os. A zona púbica e do anús é difícil, reconheço, mas se rapada mostra a verdadeira dimensão do pénis. Vocês pediram para dizer pénis, por isso digo pénis e não caralho.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para as mulheres, um corpo masculino sem pêlos é mais fácil de aceitar. Quando praticam sexo oral, respiram pelo nariz, por isso, se desimpedirmos a zona púbica, facilitamos o trabalho e aumentamos, por consequência, o prazer, assim como a visibilidade. Afasto-lhes o cabelo, prendo-o nas minhas mãos e observo, guiando o pescoço, forçando-o, por vezes. Venho-me, gozo, ejaculo. Como quiserem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Plano de corte, porta aberta do quarto, corpos escondendo-se nos lençóis, cabelos loiros)	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas mulheres, que não recebem para foder, se esquecermos o dinheiro para o táxi e as garrafas de champanhe que despejaram, fazem parte da ginástica que antecede um dia de filmagens. Não são para comer, mas apenas para admirar, para me fazer crescer,  para que me masturbe. São um isco, obrigam-me a correr sozinho, são parte do plano de treinos. Ficam na cama, lambendo-se, usando os dedos e os vibradores que escolhem no armário, rodeando-se de brinquedos sexuais, coleiras, lubrificantes, pénis que se atam à cintura, capacetes e bastões de polícia, botas de borracha com desenhos de gatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a sessão de ginástica, nesta poltrona insuflável, masturbo-me três vezes, número necessário para a preparação de um dia a foder diante das câmaras. Sou capaz de pensar em muitas coisas quando me masturbo, putas de rua, actrizes, grupos de desconhecidos, trocas de casais, coisas que já fiz, nunca as que ficaram por fazer. E se apertarem a glande do pénis, sim, se apertarem o caralho quando estão quase a vir-se, a gozar, a ejacular, podem começar tudo outra vez. Sem dor, apenas prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 7 &lt;br /&gt;Nova Iorque&lt;br /&gt;Relato de um almoço na Rua 14, Meat Packing District, 13h21&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O actor escolheu uma salada e depois pediu uma banana que descascou e comeu em poucas dentadas. Conversou sobre o consumo de cocaína pelos profissionais do sexo para demonstrar as vantagens da abstinência. Não aceita sequer o fumo dos cigarros das outras mesas e não bebe álcool, apenas água, leite e sumos energéticos. Afirmou que a carne, a sua carne, tem que estar intacta, para ser dura, para funcionar. Contou que se exercita, inventando técnicas de resistência e que, depois de respirar fundo, recupera sempre o controlo, preserva a erecção e evita um orgasmo precoce antes do momento exigido pelo realizador. Tem método, por vezes enfia o pénis dentro de um balde de gelo ou fecha os olhos e diz, numa voz que não se escuta,  a tabuada dos nove e imagina crianças que trabalham em fábricas de fogo de artifício, operações de torax aberto, carneiros degolados, reuniões ou tarefas domésticas por organizar. Sempre que precisa de recomeçar, bebe refrigerantes e come chocolates uma vez que os hidratos de carbono fornecem energia. Depois de ejacular, engole pacotes de açúcar. No tempo da mulher se limpar afirma que está de regresso ao estado sólido.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pedimos a conta, o actor já tinha comentado as características físicas de todas as mulheres do restaurante e iniciado uma conversa com a empregada. Descreveu, com frequência, o que lhes faria se as levasse para a cama. Mas, em diversas ocasiões, escolheu outros lugares para o sexo imaginário, como a casa de banho do restaurante, o corredor do hotel ou um estábulo com cavalos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia anterior tinha participado numa sessão de autógrafos, numa sex shop, aproveitando para promover o último filme que protagonizara. Entre a assistência estava uma mulher, mãe da actriz porno Gigi Star, com quem entrou numa cabine onde se depositam moedas e se descobrem raparigas que se despem, atrás de um vidro, num palco rotativo. Mais tarde, quando nos encontrámos no hotel, contou a tarde de sexo com a mulher de meia idade, as pernas ocupadas em manhãs de ginásio, peito com implantes e lábios apertados em injecções de colagéneo. O problema inicial era o do incesto indirecto, uma vez que contracenara com a filha dessa mulher. Se o beijasse, dizia ela, era como se estivesse a praticar sexo oral com a filha. A imagem apenas aumentou a vontade do actor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante toda uma tarde de compras, no SoHo, analisou partes de corpos, ignorou as mulheres inteiras. Empregadas de balcão, vendedoras de rua, clientes de esplanadas. Disse depois que precisava de sono, porque a noite seria entre bares e mais mulheres desconhecidas. Antes de se despedir disse também que se sentia emocionalmente cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Relato de uma noite no Bar do Hotel TriBeCa Grant, 23h15&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O actor disse-me que as pessoas dançam como fodem, ou pelo menos prometem. A noite não é apenas a conversa com amigos, desconhecidos, parceiros de negócios, ou copos com bebidas alcoólicas de cores diferentes, a agitação nos joelhos, nas coxas, na cintura. As pessoas saem para se comerem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastou-se para a pista de dança e quando regressou apontava para um modelo de boné de basebol e braços musculados que segurava as ancas de uma adolescente loira, conduzindo-lhe o corpo, fingindo uma dança. Mas para o actor, aquilo que interessava ao modelo, aquilo em que ele acreditava nesse momento, era na possibilidade de agarrar a adolescente pelos cabelos enquanto ela, de costas e em pé, se apoiaria na mesa de uma sala num qualquer apartamento com vista para o parque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sobrava da noite foi como um espectáculo de conquista. O actor ordenou que desligassem a câmara e apagassem os holofotes. Começou com uma loira de pernas magras e calças de ganga que revelava o fio das cuecas e com quem dançou, tentando lamber-lhe o pescoço. E depois uma mulher que era apenas lábios onde brilhava uma argola de metal, com cabelos curtos e loiros, dançando no centro de uma agitação de drogas e distância. E uma outra de vestido negro, rodeada de fotógrafos, compondo o penteado loiro de cada vez que os flashes se suspendiam, acompanhada por um atleta, ou um actor, ou um músico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No chão descobriam-se pedaços de copos partidos e beatas e notas e moedas. As opções diminuiam e havia uma nuvenzinha de álcool nos olhos dos que prosseguiam na dança. Durante várias músicas enrolou os braços na cintura de uma mulher que se afastava para sorrir com as amigas e que depois regressava. E no momento de transição de discos, quando o actor nem se movia, foi abraçado por uma outra mulher, com vincos de gordura na barriga, cabelo pintado de loiro e um pescoço transpirado e gordo que o actor beijou antes de lhe chegar à boca.  Ao desaparecer para o elevador, encostou os lábios na minha orelha para dizer que todos os homens são fáceis e que às cinco da manhã já nem querem foder. Apenas se querem vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 19 &lt;br /&gt;Barcelona, 18h54, Festival do Sexo, testemunho do actor&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a viagem de avião, com a câmara desligada, decidi contar as mulhers que comi e as nacionalidades. Dentro e fora dos estúdios, cálculos incertos, talvez sejam umas duas mil, de todos os continentes, mulheres que falavam várias línguas e trabalhavam com essas línguas de maneira desigual.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se me pedem a verdade - digo sempre a verdade - todos os homens querem ser como eu, querem poder andar nos corredores deste festival de sexo e apontar para as actrizes em sessões de autógrafos e dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já fiz aquela, aquela e aquela, aquela fez-me, já fiz aquela e a irmã, e aquela que finge ser do leste europeu mas que pinta o cabelo de loiro”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os homens esconderiam as alianças, inventariam desculpas, alguns telefonariam aos advogados para tratarem do divórcio, porque a tesão seria tão evidente dentro das calças do fato que a mulher, a esposa, a verdadeira, nunca acreditaria num congresso no estrangeiro, numa viagem de negócios, numas férias com os amigos de infância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Plano de corte, um japonês que enrola o peito de uma mulher com cordas, uma televisão com anões que se masturbam, altifalante que anuncia sessões de sexo ao vivo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como podem os homens mentir, como conseguem dizer que não preferem estar aqui,onde as mulheres, actrizes porno, putas dentro das nossas cabeças, se rapam diante do público, onde mostram as mamas e se deixam tocar, oferecendo, em troca da compra de uma cassete de vídeo, uma fotografia polaroide de pernas afastadas e mamilos duros? &lt;br /&gt;A verdade, a verdade está ali, naquele cartaz em espanhol. Encontram naquela frase tudo o que posso dizer sobre os homens e o que experimentam todos os dias, a ambição de se estrearem noutros corpos, frescos, a novidade e a quantidade, apontem a câmara, leiam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fornica bien, no mires a quien.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque as emoções valem no momento, nada se prolonga, todos acabamos por morrer e os sentimentos apodrecem, são um engano que alguns escolhem para esconder a própria natureza, mas, foda-se, não me mintam, não me digam que não somos os animais que depois de foder, de fornicar, de copular, o que quiserem, não descobrem defeitos nos dedos dos pés, nas unhas mal pintadas, no corpo que se levanta e caminha para a casa de banho para se lavar do que acabámos de lhe oferecer. E assim que saímos à rua de manhã, com o cheiro dessa mulher nos dedos e nos lábios e na barba por fazer, já estamos a pensar no que fazer com as mamas gigantes de uma caixa de supermercado que lê um tablóide na carruagem do metro. Acabámos de dormir numa casa que não é a nossa, com uma mulher que conhecemos na noite anterior, e a novidade esgotou-se, queremos outra sessão de caça, outra presa, com outro cheiro, outro formato, outro sabor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Plano de corte, vendedor de bilhetes, cassetes de vídeo com travestis e animais, cadeiras com vibradores)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui a pouco tenho que regressar a um quarto de hotel e filmar duas cenas, uma de dupla penetração anal, com uma mulher espanhola e um actor francês, e outra de sexo em grupo, quatro homens para uma mulher. Tenho uma profissão de risco, trabalho sem preservativo por dedicação à beleza do sexo e do amor, palavras iguais. Sou um cronista do meu tempo, um profeta da felicidade, uma chave para a paz mundial, porque eu faço e espalho amor, eu digo a verdade quando utilizo a expressão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fazer Amor.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amor que produzo e fabrico e que é distribuido em cassetes de vídeo, em revistas, em salas de cinema para adultos de todo o planeta. Eu sou o amor comercializado e empacotado em caixas coloridas, publicitado, com preço, grátis, em promoção, eu sou o amor de agora, o amor biológico dos homens, o mais autêntico, o que todos conhecem mas que poucos aceitam. Represento o prazer das hormonas, a natureza, a minha e a nossa essência. E esta é a nossa inevitabilidade, mas também a nossa única certeza.    &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107538570034160256?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107538570034160256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107538570034160256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107538570034160256' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107481756797956663</id><published>2004-01-23T00:26:00.000Z</published><updated>2004-01-23T00:30:17.793Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Aviso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me agradam as repetições, mas tenho que recuperar este texto, escrito e publicado aqui há alguns meses. O filme estreia agora em Portugal, embora o que tenha escrito seja apenas Nova Iorque, uma maneira de lá estar, ainda que Lost in Translation se passe em Tóquio.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quero ser como tu&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja a qualidade dos protagonistas ou a beleza do enredo, mas o cinema costuma ser mais interessante que uma vida normal. É por isso que hoje – após muitos anos a pensar numa carreira de pugilista, rebelde, justiceiro, solitário, ou chefe do crime organizado – pondero ser apenas um homem que envelhece, estrela de Hollywood, perdido em Tóquio, mas que consegue fazer sorrir uma mulher mais nova. Eu quero ser Bill Murray, em Lost in Translation, o segundo filme de Sofia Coppola.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de anos a imitar personagens musculadas, intelectuais sedutores, ou polícias que acabam suavizados por mulheres bonitas, escolho ser agora um homem cuja cara no espelho começa a pesar, uma cara que é uma coisa qualquer menos a cara que já foi antes. Sou esse homem que não consegue dormir, longe de casa, e que descobre o silêncio insustentável quando é ignorado pelo ruído das ruas de Tóquio. A minha mulher é uma voz no telefone, também distante, que se preocupa com a escolha da alcatifa para uma das divisões da casa. A minha carreira é filmar anúncios de whisky japonês com pessoas que nem sequer falam a minha língua. E, no entanto, enquanto fumo charutos amassados e me embebedo, aparece essa miúda loira, os lábios espessos, os olhos tão tristes. Eu quero estar hoje num elevador, em Tóquio, e ver Scarlett Johansson que me sorri entre japoneses que apenas olham em frente enquanto eu olho para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Sofia Coppola conseguiu fazer foi um filme onde eu quero estar. Como quero estar deitado, sobre a colcha, vestido, conversando com Scarlett Johansson enquanto o sono nos vai comendo as ideias e demorando as palavras. Quero tocar-lhe no pé magoado e apagar a consciência, como apagamos tantas vezes por causa do sono, a meio de uma conversa. O que Sofia Coppola me ofereceu foi um filme que me faz egoísta, que quero apenas para mim, como se fosse a minha vida. Lost in Translation consegue beleza e significado sempre que alguém permanece em silêncio; revela o humor que sempre quisemos mostrar a quem gostamos; é verdadeiro, sincero, e tão bem feito que me esqueci de procurar as costuras do enredo. Cada cena, cada detalhe – assim devem ser os filmes – não são apenas um capricho da realizadora em busca da beleza das imagens, mas um momento decisivo para contar a história que se quer contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou lembrar-me também de uma sala de cinema, em Brooklyn, construída num prédio de habitação onde os estreitos corredores e as portas – antes eram quartos, cozinhas, casas de banho – mostram as estrelas de cinema pintadas pela mão de algum artista amador. Há ainda a fotografia de James Dean, as golas do casaco levantadas e o cigarro na boca apontado à desolação da rua onde, com toda a certeza, vai chover. Gostaria de ter entrado no mesmo cinema e repetir tudo outra vez, pois essa seria a forma mais aproximada de ser eu o protagonista do filme. Nos dias que se seguiram, ainda hoje, quero estar sentado diante de Scarlett Johasson, num restaurante, e ser capaz de a fazer sorrir, saber que sou eu que me esqueço de tudo, longe, em Tóquio, e entregá-la ao quarto de hotel sem ter a certeza se, alguma destas noites, antes de regressar a Los Angeles, vou ter coragem para a beijar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107481756797956663?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107481756797956663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107481756797956663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107481756797956663' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107464424961559099</id><published>2004-01-21T00:17:00.000Z</published><updated>2004-01-21T00:40:07.030Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Verano Azul&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma mala de viagem ocupada por um par de sapatos, algumas roupa e um saco de plástico com dinheiro para sobreviver três meses, Angelina chegou a Madrid na tarde de sete de Julho de mil novecentos e oitenta e seis. A dor estendia-se da zona inferior das costas, acima do rabo, até aos ombros, os músculos duros, como se o banco de autocarro tivesse moldado a carne, a magoasse, servisse como um instrumento de tortura. Angelina caminhou pelas ruas quase sem pessoas, trabalhadores ausentes, em férias no sul, pais estendidos em toalhas, na areia, ou dormindo em apartamentos com ar condicionado depois de almoçarem, crianças que viam televisão e esperavam o momento de regressar à praia. Mas em Madrid não se podia fugir ao calor que subia dos passeios e trepava as fachadas do edifícios, palácios, museus, moradas de escritórios de governantes que escolhiam as leis do país. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As escadas da pensão na rua Hortaleza estavam protegidas por uma carpete vermelha com nódoas. A chave movia-se na mão da proprietária que explicou o funcionamento das torneiras na casa de banho comum e proibiu a visita de homens no quarto número vinte e nove. Em vez de um candeeiro havia uma lâmpada pendurada num fio eléctrico. Os lençóis seriam mudados uma vez por semana. Angelina descalçou-se mas manteve as meias, receando a sujidade infiltrada no chão de tacos de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saiu do quarto havia mais pessoas na cidade. Encontrou visitantes estrangeiros e consumistas da classe média que entravam nas lojas e apareciam com sacos de roupa vendida em época de saldos. Comeu sozinha, numa esplanada, sem olhar para ninguém. Não queria que se pudessem lembrar da sua cara. O anonimato e o silêncio eram parte do sacrifício, ficar dias no quarto, sair apenas quando tivesse fome, não escrever postais à família e nunca telefonar para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor durante o dia sobrepunha-se à ventoinha enfiada no lavatório. Angelina asfixiava e por isso percorria a cidade, sempre pela sombra, nunca a mesma rua, o mesmo bairro, um cinema, os monumentos que comprovavam a grandeza de um império universal. Numa tarde atreveu-se a entrar numa piscina pública e molhou o corpo, apenas as pernas, erguendo os braços e encolhendo a barriga quando provou a água morna, imaginando as crianças gordas cuspindo e mijando, os seus olhos vermelhos pelo cloro, sandes que devoravam de boca aberta antes de se executarem mais um mergulho que fazia explodir a água e atingia os fumadores na borda da piscina. Regressou ao quarto, esfregou o corpo com álcool, procurou apagar-se, dormindo, esperando regressar pelo menos uma vez mais a San Sebastian e às praias onde o único nojo eram as algas que raramente chegavam à areia. Os pais e os irmãos estariam junto da água, conversando, com as ondas a cobrirem os pés e depois a regressarem ao oceano. Mas Angelina acreditava que o sofrimento apresentaria resultados, mesmo que nunca mais regressasse a San Sebastian e que a família apenas recebesse notícias através de um mensageiro que deixaria um papel debaixo da porta de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens que a olhavam, que limpavam a espuma da cerveja do bigode e que comentavam com os amigos as pernas quase adolescentes de Angelina, haveriam de conhecer a culpa, seriam confrontados com os seus actos, com o desconhecimento, com a prepotência. Angelina apenas aguentava o calor, as manchas de suor nas camisas dos homens, o dinheiro que lançavam para cima das mesas, porque a dimensão das faltas desses homens antecipava o prazer do castigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã de dois de Setembro foi perseguida, imaginou uns olhos a rodear-lhe o contorno das mamas, os ombros anteciparam um beijo com cuspo, receou um par de mãos com pêlos a subirem pelas canelas, separando as coxas, forçando os músculos. Angelina percebeu apenas uma palavra num idioma que nunca se ouvia em Madrid mas não se virou, diminui a velocidade, quase sorriu, manteve a cara escondida no cabelo, entrou num café, sentou-se e viu o homem, o seu contacto em Madrid, dirigir-se para a casa de banho com uma mochila. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa tarde, Angelina comprou bilhetes de autocarro para França. Escolheu um cabeleireiro, cortou e tingiu o cabelo, maquilhou-se, trocou os chinelos por uns sapatos e deixou a mochila do homem dentro de um caixote do lixo de um centro comercial. Às dezoito horas e trinta e cinco minutos a bomba matou treze pessoas e feriu vinte sete.  &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107464424961559099?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107464424961559099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107464424961559099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107464424961559099' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107447658144366684</id><published>2004-01-19T01:43:00.000Z</published><updated>2004-01-19T01:44:25.496Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A vida que eu invento para ti&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as manhãs desperto no Barrio Salamanca e, na rua, a respiração aparece diante dos lábios, densa, um cilindro de vapor que se desfaz a cada passo. Depois a temperatura cresce em redor dos corpos e sento-me no sofá de um café onde as janelas são montras para o espectáculo das pessoas nos passeios. Desisto dos juízos e ocupo-me com os pormenores, estudando as mulheres a quem chamaria de velhas não fossem os casacos compridos, as luvas de pele, a segurança sempre que um salto pisa o chão como se apenas actrizes existissem nesta zona da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim do dia regresso ao mesmo café, e agora são os miúdos da escola que aparecem de cigarro na mão, os rapazes imitando os pais, o mesmo cabelo com um penteado definido pelo gel, as camisas com riscas obsoletas, tornozelos descobertos por calças curtas e a sobranceria fornecida por um estatuto social, vozes que soam como metralhadoras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Felipe, joder.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino a adolescência aristocrata de Felipe num barco, em Puerto Banús, nos meses de calor, ou à mesa, numa casa de campo, na Andaluzia, durante a Semana Santa, ou nos lugares de sombra da Praça de Las Ventas admirando o traje de luzes de um matador manchado pelo sangue do animal, o capote movendo-se, os pés rangendo na arena e opondo-se à imobilidade eterna de um toureiro que o meu nariz indagou esta tarde, num quadro; eu parado diante da tinta ao mesmo tempo que os outros visitantes liam folhetos e informações sobre Manet, mas eu ainda imóvel, fascinado com a tranquilidade do toureiro que parecia levitar, eu certo de que Manet se enganara no título do quadro e que afinal o toureiro dormia em vez de estar morto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois cansei-me da arte pendurada nos corredores e regressei às ruas onde ninguém me conhece. É muito melhor assim, deslizar toda a tarde nos passeios escutando os diálogos nas paragens de autocarro sem horário para chegar a qualquer lado, fazer-me passar por um deles, reduzir as palavras para que não se compreenda o sotaque:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Muchas gracías”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou apenas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hola.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E descansar neste café, estudar a aproximação cerimoniosa de Felipe a uma miúda que mostra a barriga e os ossos das ancas entres umas calças e uma t-shirt, sentir-me adulto, ser condescendente quando falam do seu universo de miúdos ricos, as modas, o vocabulário, a presunção, achar-lhes alguma graça quando imitam os pais ou os irmãos mais velhos, e depois regressar a casa onde encontrarei V. conversando ao telefone, com o namorado, em voz baixa, e aproveitar a sua lucidez, agradecer-lhe a amizade, voltar à rua, entrarmos num restaurante sem pensar que um destes dias terei de abandonar Madrid e deixar uma existência em que caminhar pelas ruas onde há trânsito de pessoas é suficiente para que me encontre a sorrir nas vidros que servem de montras às lojas.   &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107447658144366684?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107447658144366684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107447658144366684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107447658144366684' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107395274633209897</id><published>2004-01-13T00:12:00.000Z</published><updated>2004-01-13T00:13:44.890Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Su cuerpo es una maldición, contado por Javier Mendonza no Parque del Retiro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recolhi os restos de uma mulher em minha casa, objectos que se estragariam, revistas com os cantos dobrados e comida fora de prazo no frigorífico. Mesmo antes de sair, guardei os lençóis num saco do lixo, depois lavei as mãos, acendi uma vela para destruir o cheiro de outro corpo no meu quarto e apaguei o número na agenda. Onde antes estava um nome encontram-se agora marcas no papel e restos de uma borracha. Tudo o que é temporário é escrito a lápis. Durante uma semana não atendi o telefone e imaginei mudar-me para um quarto de hotel. Depois de terminar o processo de eliminação teria que substituir essa mulher que que dormiu na minha cama e que sabia que começo a fazer a barba na bochecha esquerda, de cima para baixo, iniciando o movimento junto à patilha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa mesma tarde sentei-me neste banco. O livro que tinha era apenas uma desculpa, um elemento de protecção quando admirava as mulheres que deslizavam sobre patins ou que se estendiam na relva para escurecer a pele com a luz do sol. Costumo ser muito rápido, não hesito, nem sequer penso, e por isso avancei para Maria com um dedo a marcar as páginas do livro, aguardando que me descobrisse quando a minha sombra começasse a arrefecer-lhe a cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho tempo a perder, não estou aqui para enganar ninguém. Esta é uma maneira de filtrar as mulheres que não interessam, aquelas que me fazem esperar, que precisam de sessões de cinema, de conversas sobre a família, de uma mão a segurar-me no pulso quando avanço para um mamilo e forço o tecido de uma camisa. Mas Maria apresentava a disponibilidade das estudantes que escrevem nos diários sobre os homens que conheceram na cama. Tinha as alças do biquini fora do ombros, riu-se, nem sequer sorriu, riu-se, uma gargalhada, porque Maria queria enfeitar os meses de calor com um episódio que a distinguisse das amigas. Perguntou-me por que é que uma pessoa da minha idade tinha uma tatuagem no tornozelo e pediu-me um isqueiro para queimar o haxixe que tirou de uma bolsa com desenhos de ovelhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comemos na rua, sentados numa esplanada, protegidos pela sombra de um toldo às riscas. Maria atirou uma sandália para o passeio e esticou a perna, admirei o joelho, a canela fugindo da sombra, os dedos do pés esticando-se como se quisessem crescer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou a estudar para ser bailarina.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha casa escureci a sala, baixei os estores e ofereci-lhe uma bebida com álcool e gelo. Maria ligou a ventoinha no tecto e começou a dançar sem música, falando das dores no corpo depois de um ensaio, confessando que temia que os pés se deformassem com os exercícios. Mesmo que me esforçasse para seduzi-la, nenhum dos meus movimentos ou perguntas conseguiam parar-lhe os movimentos de dança. Reclamei da temperatura e lancei a camisa para cima da cadeira. Quando me deitava no sofá, Maria aproximou a mão dos meus braços sem lhes tocar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que significam essas tatuagens?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não esperava respostas, continuava ocupada com um monólogo sobre as colegas, elogiava as discotecas da cidade, explicava-me como se embebedava sem nunca pagar uma bebida. Com a cabeça numa almofada, a minha boca estava ao alcance do seu umbigo, os meus lábios beijaram-lhe a barriga, a mão avançou para o fecho do biquini e não houve resistência, todos os meus movimentos eram cuidadosos, receava magoar-lhe o corpo. Quando a penetrei, as pernas de Maria apertaram-me as costelas, os olhos abriram-se muito ao pedir-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero que o faças com força. Quero que sejas bruto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a aparecer em minha casa sem avisar. Nunca me disse onde morava. Por vezes regressava da noite e pressionava o botão da campainha. Eu acordava, abria-lhe a porta e ouvia o mesmo discurso sobre as pessoas que ela conhecera na rua ou as queixas relacionadas com a escassez de dinheiro, a protecção dos pais, o calor que desertificava a cidade. Maria era prosaica mas incapaz de iniciar um gesto que levasse ao sexo, nunca me despiu, aguardava os meus ataques, primeiro com uma suavidade na ponta dos dedos e depois, quando começávamos, rogando-me violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez apareceu com uma amiga, de madrugada, para exibir a minha colecção de discos. Acenderam cigarros de haxixe e beberam vinho pela garrafa. Estiquei-me no chão da sala e adormeci enquanto dançavam. Quando acordei não havia ninguém em casa. Encontrei-a na tarde seguinte, atravessando a Gran Vía, acompanhada por um rapaz que brilhava brincos e espigões de metal em toda a cara, mas escondi-me entre as pessoas e os sacos de compras que traziam pendurados nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As visitas começavam a ser quase diárias. Havia sempre uma desculpa, por vezes uma inundação no quarto, uma consulta num consultório do meu bairro, o calor que se entranhara nas paredes e que a impedia de adormecer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É que tu ao menos tens ventoinhas e um frigorífico.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia cada vez mais roupa nas minhas gavetas, cabelos nas almofadas, o cheiro de perfume no tecido do sofá. Já conhecia o nome de todos os seus familiares e o sexo era um exercício de agressividade que legava marcas no seu corpo tão branco. Mas nunca me abraçava pelas costas quando eu cozinhava. Os beijos tinham pouca língua, os lábios de Maria não apresentavam flexibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa tarde em que as temperaturas nos desaceleravam e quase asfixiava na relva do Parque del Retiro, Maria contou-me como apreciava as unhas das irmãs espremendo borbulhas nas suas costas. Durante a noite, quando procurámos o ar condicionado de uma sala de cinema, descascou uma laranja que esguichou sumo e comeu-a durante as apresentações enquanto se descalçava e estalava os dedos dos pés. Em casa, rasguei-lhe a roupa e, pela primeira vez, castiguei-a com prazer, sabendo que me vingava num corpo que merecia outro proprietário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que lhe pertencia está neste saco de plástico. O única favor que agora te peço é que a procures na escola e que entregues este lixo. Se fizer perguntas, diz-lhe que estou noutro país. Receio encontrá-la e talvez ceder à facilidade de a levar para casa. É que a fidelidade mais eficiente será sempre aquela que cresceu durante o sexo. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107395274633209897?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107395274633209897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107395274633209897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107395274633209897' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107364891415219022</id><published>2004-01-09T11:48:00.000Z</published><updated>2004-01-09T11:49:48.860Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Madrid me salva&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravesso todo este dramatismo como se regressasse a casa. Não estranho a língua ou volume das vozes na rua, um limão espremido para dentro de uma cerveja, os casais de velhos que não receiam a noite e que se passeiam em traje de festa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ando à procura de nada. Passo pelos museus mas desvio-me, abandonei os mapas, evito as excursões em que um microfone grita as características de todos os monumentos. Não faço quase nada. De manhã, escuto a leveza de V. a atravessar a sala onde durmo. Quando percebe que acordei, dá-me instruções sobre a comida no frigorífico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto-me mas demoro-me a sair de casa. Passo o dia a cruzar as ruas reparando nas mulheres que acentuam a beleza com roupas, maquilhagem, sapatos, e a postura assertiva de quem não se assusta com a cobiça dos homens. Observo as pessoas e os edifícios sem fazer inventários. Estou bem aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descanso nos bares, páro nas esquinas, entro nas livrarias mas se abro um livro nem termino um parágrafo. Bebo submerso no barulho dos outros clientes, fumo, procuro cansar-me e dormir durante a tarde para depois voltar às ruas e rasgar, em silêncio, o movimento das pessoas nos passeios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de anoitecer encontrei-me com M. que entra em cena vestida de vermelho, iluminando a obscuridade do bar. Vai ser grande, vai comover audiência e estará em posters nos quartos de rapazes adolescentes. Quero escutá-la, baixar o batimento cardíaco, diminuir o ritmo da respiração, apagar-me para experimentar melhor a cidade onde há muito queria ter regressado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na carruagem de metro, M. despede-se. E eu continuo sem me preocupar se acerto na estação. Por enquanto ficarei por aqui, aproveitando a raridade da minha paz, contemplando as pessoas sem lhes roubar nada, aguardando o momento em que voltarei a viver como se iniciasse um ataque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estação Diego de León. Deve ser aqui. Hasta luego.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107364891415219022?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107364891415219022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107364891415219022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107364891415219022' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107338594637387917</id><published>2004-01-06T10:45:00.000Z</published><updated>2004-01-06T10:46:57.903Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;It’s so fucked up&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;Na noite de dez de agosto, Mr. Richards veste uma camisa sem tomar banho ou lavar os dentes. O tecido cola-se nas costas, uma mancha evolui devagar, o suor passa das golas para a carne mole do pescoço. Depois Mr. Richards desce as escadas e levanta o dedo do meio para a mulher que aparece atrás de uma porta, com o corpo dentro do apartamento e a cabeça no corredor, para reclamar do volume da música. Mr. Richards sai de casa mas nunca desliga a televisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bar repete copos de cerveja, sempre encostado ao balcão. Inicia conversas com estranhos que respondem com simpatia mas que acabam por afastar-se quando Mr. Richards se baba, cospe para o chão, se demora a meio de uma frase, e inicia um processo de acusação que inclui referências à cor de pele, ao emprego ou às escolhas sexuais dos interlocutores. Depois de partir vários cinzeiros e de recusar um copo servido por um empregado hispânico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tocaste com esses dedos porcos no vidro onde eu ponho a boca, filho da puta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os empregados conseguem, com a ajuda de alguns clientes, empurrar Mr. Richards para a rua, e fecham a porta, viram costas ao seu corpo que balança atrás do vidro, pronto a ceder nos joelhos, a cabeça que tomba para um dos lados, o vapor do álcool a libertar-se do estômago, percorrendo o esófago e enchendo a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;Os dedos de Mr. Richards procuram um lenço no bolso das calças, aparecem sem nada e avançam para o cabelo, atravessando o couro cabeludo, recolhendo o suor; atirando-o para a cara do empregado de uma loja de conveniência. Com a outra mão, Mr. Richards lança o dinheiro para o chão e agarra numa lata de cerveja que passa pelo pescoço, bochechas e testa, abrindo-a e despejando-a para dentro da boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na esquina onde um candeeiro público começa a soluçar, a luz aparecendo e desaparecendo, Mr. Richards descobre um homem com um mão no bolso das calças e desconfia de um assalto. O suspeito é baixo, tem bigode, usa chapéu e quando faz uma pergunta nota-se-lhe o sotaque e o idioma insuficiente. Mr.Richards protege-se do perigo, atira-lhe um punho ao nariz, segura-lhe o cabelo, esmaga-lhe a cabeça contra o poste, abre-lhe a boca e empurra-a para a parede onde os dentes estilhaçam. O assaltante está no chão e Mr. Richards escolhe as costelas para pontapear, depois pisa-lhe a cabeça e senta-se sobre o corpo para esmurrar a cara. Quando se levanta, limpa as mãos à camisa e lança-a para um caixote do lixo. Um carro abranda, mas volta a acelerar. Não está ninguém à janela. Sem ferimentos, Mr. Richard caminha para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Às nove horas e vinte minutos, transportando sacos com bebidas e presentes de aniversário,  os convidados chegam à casa de Rudolph Villander, artista plástico, casado com a escritora Olga Alfonso que conversa na sala com Alejandro Alfonso, irmão mais novo, estudante de arquitectura, em visita, com visto no passaporte e data de saída. As pessoas movimentam-se diante dos copos, das garrafas e dos sacos de gelo. Uma actriz questiona Alejandro Alfonso sobre o país onde nasceu, convida-o para dançar, oferece-lhe a bebida que tem na mão e depois volta a recuperá-la, despedaçando cubos de gelo entre os molares. Alejandro Alfonso confessa que apenas viu a cidade na viagem de táxi do aeroporto e a actriz sugere um passeio. Caminham para a porta e, quando descem as escadas, a actriz toca-lhe num ombro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esqueci-me das chaves de minha casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobe alguns de degraus, mas regressa, beija-o na boca e pede-lhe não desaparecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar à rua, Alejandro Alfonso procura os cigarros no bolso e aproxima-se de um homem no passeio enquanto tenta recordar-se das palavras de um idioma que não controla:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem lume?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a actriz abre a porta do prédio e procura Alejandro Alfonso, descobre um homem sem camisa a desaparecer numa esquina e um corpo que parece de plástico, sem ossos, sem expressões, escorrendo sangue e despejado sobre os caixotes do lixo. Há um momento de silêncio, como se os pulmões falhassem, demorassem a reagir, e depois começam os gritos.  &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107338594637387917?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107338594637387917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107338594637387917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107338594637387917' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107326969263891322</id><published>2004-01-05T02:28:00.000Z</published><updated>2004-01-05T02:29:23.060Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;I’m through with love&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo que não vivemos na mesma cidade. Regresso agora porque estou certo que me esperas numa esquina e que empurras as mãos contra as coxas, pestanejando uma inocência que perdeste mas que ainda gostas de fingir. Em casa, noutro país, deixei a minha família. Mordi vários calmantes e telefonei-te do aeroporto. Não reconheceste a minha voz. Procuraste um espelho ou calçaste uns sapatos para melhor interpretar a personagem que protagonizaria a minha ilusão. Disseste que me receberias. Desta vez eu escolhi o lugar. Já não autorizo que comandes os meus movimentos. Quando sorrias eu pensava que gostavas de mim. Mostravas-te triste e eu acreditava que eras misteriosa, um talento, uma estrela de cinema que me salvaria da decadência. Cuidarias de mim, esconderias as garrafas de álcool, eliminarias os cigarros e acordarias de madrugada para me obrigares a compor. Eu haveria de ser um músico reconhecido. Tu agarrar-me-ias o braço sempre que caminhássemos na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E claro que eras bonita, os silêncios que começavam nos olhos azuis e que acabavam num tremor de dedos quando verificavas a segurança de um brinco na orelha, os desenhos nos guardanapos que depois eu guardava, a cicatriz no joelho onde nunca consegui chegar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De cada vez que pedia a uma mulher para sair da minha cama, da minha casa, acreditava que serias a única que poderia ficar, caminhando descalça para a cozinha, reclamando do frio dos azulejos no chão, regressando a mastigar fruta e procurando-me entre os lençóis para aqueceres os pés. Mas era tudo mentira, nunca soubeste sequer onde morava, eu inventava-te, era eu quem agravava a tua beleza apenas porque precisava de acreditar. Sou agora um homem sem fé. Parti ossos, morreram-me pessoas, matei animais por prazer e desfigurei um desconhecido. Casei-me e não tive filhos. Sobra-me um pai que se esquece do meu nome e que me pede cigarros e revistas com fotografias porque os olhos deixaram de identificar as letras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso livrar-me de ti, das tuas mentiras, destruir a insegurança que me paralisava sempre que nos encontrávamos sem que fosse capaz de convencer-te a apaixonares-te por mim. Tu nunca exististe, eras a combinação da minha carência com a tua necessidade de ser admirada por todos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também nunca chegaste a ser uma actriz famosa e contentas-te agora com a lubricidade dos vizinhos que encontras nas escadas e com as erecções rápidas dos viúvos que se arrastam nos passeios. É por isso que te apressaste a aceitar o meu convite. Confesso que gosto do teu insucesso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no quarto de hotel e posso ver a esquina onde me esperas. Não descerei as escadas nem atravessarei a rua para descobrir como se degradou a tua carne, as pálpebras que pesam, as pestanas mais lentas, menos inocentes, as pernas que desistem e afinal sem nenhuma cicatriz no joelho. É quando continuas a esperar por mim que me convenço que não preciso que existas. Nem sequer trouxe malas. Só preciso que desapareças dessa esquina para sair desta cidade seguro de que morreste, convencido de que apenas os poetas e os idiotas ainda acreditam que pessoas como tu conseguem salvar pessoas como eu. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107326969263891322?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107326969263891322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107326969263891322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107326969263891322' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107290084823633342</id><published>2003-12-31T20:00:00.000Z</published><updated>2003-12-31T20:01:54.843Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;New York City Blues&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de abrir a boca e utilizar os dentes, Gary Green admira o reflexo da própria gravata na montra de uma loja. Os dedos seguram um guardanapo que absorve pingos de gordura quando os dentes arrancam um pedaço de pão, salsicha e cebola. Mas Gary Green adia o movimento dos maxilares ao descobrir o fio cinzento que atravessa o céu, formando uma elipse, ganhando velocidade a caminho do passeio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No andar 61 de um edifício em Water Street, o vento levanta os papéis em cima de uma mesa. Há vidros na alcatifa, e a cadeira utilizada para abrir um buraco na janela ainda tem as rodas em movimento. Durante toda a manhã, Patrick Conway apertou o tecido da cadeira, em pé, esperando uma encomenda. Várias vezes pegou no telefone – agora esmagado debaixo de um caixote do lixo – e perguntou pelo candeeiro, recordando a frustração de uma tarde a insistir com o gerente, mesmo quando lhe garantiram que o produto estava esgotado. Patrick Conway queria ser o proprietário imediato do candeeiro que aparecia num catálogo mas que só esta manhã chegou ao escritório. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um par de sapatos sobre a alcatifa, com espigões de metal, próprios para jogar golfe. Numa estante, cobrindo alguns livros, encontra-se a fotografia de uma família, duas crianças com fardas escolares e uma mulher com um nariz concertado por cirurgiões plásticos. Nos lábios há também uma suspeita de colagénio insuflado dentro da carne. Mais ao lado, aparecendo na ombreira da porta, uma mulher levanta as mãos e começa a gritar. Laura Pushkin é a secretária que perseguiu Patrick Conway e que se preparou, durante uma festa, e sobre os joelhos, para lhe desabotoar as calças. Mas o chefe recusou, muito menos por medo da culpa, obedecendo antes às regras que asseguram a imagem da família, ou por causa do bónus de produtividade no fim do ano, das doenças que se propagam pela saliva, da possibilidade de viagens a quartos de motel a meio da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O candeeiro ainda tem plásticos e há uma caixa de papelão no canto do escritório. Laura Pushkin procura evitar os objectos, mantém os dedos apertados contras as palmas, receando impressões digitais e a acusação de um crime. Os trabalhadores aproximam-se, entram no escritório, alguém acende o candeeiro enquanto outros procuram uma justificação, esperando encontrar um bilhete entre os papéis que flutuam e que quase atingem o chão, erguidos depois pelo vento que atravessa a janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na agenda em cima da mesa está anotado o valor da dívida de Patrick Conway a uma associação clandestina. O pagamento deveria ser realizado esta tarde ou o devedor ficaria com a cara sem nariz, as mãos com menos dedos. Mas Patrick Conway não suportaria perder dinheiro, mudar de casa, menos divisões, os filhos em escolas públicas, alugar filmes de vídeo em vez de jantares em restaurantes onde mostraria o cartão de crédito, trabalhar com as mãos, pedir emprestado, atravessar os corredores de supermercado com uma máquina calculadora e escolher produtos em promoção, andar a pé, de comboio, de autocarro, experimentar a inveja ao encontrar homens de fato ou a vergonha diante de mulheres que analisam as mãos, os sapatos, a disponibilidade financeira para oferecer presentes dos homens que se apresentam em festas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os empregados apertam-se na porta, Laura Pushkin senta-se na alcatifa, soluçando, a maquilhagem desfaz-se nos olhos e escorre pela cara, o candeeiro, o telefone, os vidros e a cadeira, o buraco na janela e Patrick Conway atingindo o máximo de velocidade depois de parecer um lençol, uma mala de viagem, um boneco, durante todo o voo, para explodir no chão de Water Street. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os maxilares de Gary Green voltam a accionar-se, vira as costas, um desconforto que demora o tempo de engolir e descolar um fio de cebola das gengivas. Outra vez a gravata reflectida na montra, uma nódoa de molho, o dedo a limpar a gordura. Depois reinicia o caminho, e as sirenes, as portas dos carros, as buzinas, os saltos no passeio, um assobio, o barulho da cidade que regressa de uma só vez.  &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107290084823633342?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107290084823633342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107290084823633342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107290084823633342' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107271320327524775</id><published>2003-12-29T15:53:00.000Z</published><updated>2003-12-29T15:54:26.983Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Sexed up&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é o amor que interessa a B., mas antes a habilidade do outro corpo para o prazer, alguém sem preconceitos, que abocanhe, que que insulte, que grite muito, que goste de dar e receber ordens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse outro corpo adormeceu no lado mais fresco da cama, onde o lençol ainda cobre o colchão. Os pulsos e os músculos de B. continuam a pulsar, os dedos dos pés libertaram uma descarga que começou no sexo e que se alastrou para o estômago e depois por todo sistema nervoso. A carne cresceu e voltou a encolher em redor dos ossos, os pulmões sossegaram, há um risco de sangue no lábio inferior que B. limpa com a língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A roupa e os sapatos são levantados do chão e B. veste-se na cozinha, diminuindo a velocidade dos movimentos para lhes reduzir o som. Limpa o gargalo com a palma da mão, bebe água pela garrafa e certifica-se que recolheu todos os seus vestígios pessoais no apartamento. Sempre que B. encontra um corpo virtuoso guarda uma morada, um número de telefone, qualquer referência de contacto. Mas quando os corpos – como nesta noite – apenas servem de alimento, recusa repeti-los. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, B. senta-se na cama, diante do espelho, e masturba-se, fechando os olhos para recorrer às imagens seleccionadas em outras noites, várias pessoas numa cama, uma praça pública durante a noite, ou uma varanda e crianças que espreitam, às escondidas, na janela do edifício do outro lado da rua. Antes de adormecer, abre um livro erótico, escolhe um capítulo e começa a masturbar-se, procurando sintonizar o orgasmo com o orgasmo da protagonista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, na banheira, com a água a escorrendo na pele, atravessando o sexo, B. já não sente repulsa do corpo que conheceu na noite anterior, e começa, uma vez mais, a escolher imagens, gestos, palmadas, frases, que utiliza quando se manipula à procura de mais prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, no emprego, num supermercado, B. persegue pessoas com quem se quer deitar, ou apenas ficar em pé, ou sobre a bancada de uma casa de banho. É um exercício quase sem interrupções. E mesmo o trabalho serve apenas para conseguir dinheiro e poder, é um instrumento de conquista, uma outra maneira de conhecer pessoas para consumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, entra num lugar onde casais procuram parceiros, e abusa do álcool para eliminar o desconforto de se aproximar de estranhos. Os diálogos perdem a importância, e os jogos verbais de sedução substituem-se por um pormenor, às vezes uns óculos, as mãos, os sapatos, objectos, ou apenas linhas de carne que aparecem entre a roupa. A exigência de corpos sem imperfeições começa a desaparecer. Depois de tantas experiências, sabores e lugares, importa encontrar sempre algo de inédito, porque a repetição destrói a intensidade do prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No carro de um casal, B. despe a mulher e aprecia a atenção do homem que aproveita os semáforos vermelhos para observar o espectáculo do sexo no banco traseiro. Quando tudo termina, ainda antes de chegarem a casa, B. sai do carro e corre pelo passeio sem se justificar. Continua a correr até entrar num táxi, fechar a porta e sentir as marcas da boca e das mãos mulher nas próprias pernas, na cara, espalhando-se na barriga e nos mamilos. Esta é a fuga que executa sempre após a violência, o descontrole, a luta, o triunfo e o temporário estado de graça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observando o taxista no retrovisor, B. puxa uma meia pela superfície da perna até alcançar a carne da coxa. Prende o cabelo e empurra os lábios contra o batôn. Não é amor que procura, uma casa, uma família, alguém que a espere ao anoitecer. Os pedaços dos outros chegam para aliviar a solidão. E enquanto aperta uma tira da cabedal na fivela dos sapatos, B. analisa as pessoas que caminham no passeio, escolhe alguém que consiga cansá-la mas que depois a deixe dormir sem se aproximar do seu corpo durante o sono. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107271320327524775?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107271320327524775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107271320327524775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107271320327524775' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107218689242412525</id><published>2003-12-23T13:41:00.000Z</published><updated>2003-12-23T13:42:30.310Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Em nome do Pai&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rua&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O camião derrapa na curva e arranca um marco de correio que atravessa a montra de uma sapataria, o vidro explode, iniciam-se os gritos e os telefonemas para a Polícia. O camião esventra os carros em cima do passeio e um poste esmaga uma motorizada, arrastando as luzes de Natal suspensas em fios e destruindo o sistema de som que funcionava nas paredes dos prédios. O camião, roubado num estaleiro de obras, avança agora para as portas automáticas de um armazém comercial. Após uma travagem e marcas de borracha no mármore, fumo libertando-se dos pneus, corpos que se colam às paredes para fugirem ao metal, o camião destrói as portas de vidro, rasga os tectos falsos e imobiliza-se ao derrubar uma árvore de Natal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pai abre a porta do camião, salta para cima de alguns embrulhos, bolas e estrelas de papel. Desce a máscara que tem na cabeça para a cara. As pestanas falham os buracos para os olhos. O Pai contempla a água que espirra do sistema anti-incêndios e os clientes que abandonam o edifício sem pagarem as compras. Caminha pelos corredores à procura do Refém. Os funcionários ajoelham-se, juntam as mãos para pedir misericórdia ou começam a correr. A pistola que assusta as testemunhas deste rapto é uma Glock nove milímetros, semi-automática, capacidade para dez balas no carregador e uma bala na câmara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A máscara escorrega-lhe na cara, os sapatos ensopam-se com água, o dedos sentem frio e tremem até que o gatilho cede, a pistola dispara e a bala arranca lascas de tinta de uma parede antes de se alojar no fémur de uma balconista. Os rádios dos seguranças podem ouvir-se, escondidos atrás das mesas, das cadeiras, e dos ramos da árvore de Natal. O Pai continua sem identificar o Refém, movendo o braço da pistola sempre que receia um ataque, disparando tiros contra um caixote do lixo, um cão e as malas de viagem que caem de uma montra.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz que acabou de desligar o motor do camião, levanta os braços para a pistola, tira a máscara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sou eu, Pai. Não dispares. Eu disse-te para não pegares na arma.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz, conhecido em casa como Filho, aponta para um corpo que se esconde dentro de um trenó puxado por renas de plástico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele está ali. Vamos apanhá-lo e desaparecer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os raptores saem do edifício, o Refém está algemado, e o Filho estica o braço da pistola para  afastar as pessoas que aparecem no passeio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não estejam a olhar. Isto não é um assalto. É um rapto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Elevador&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O corpo é enorme, ombros de pugilista que amoleceram, o nariz largo, sem osso. Os dedos procuram tocar o botão que convoca o elevador, movem-se sem acertar no círculo de plástico com uma seta a apontar para cima. O Pai precisa de comprimidos, de injecções, de um Filho que lhe guarde as mãos nos bolsos das calças para aprisionar os tremores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Será que o elevador avariou outra vez?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Refém admira os próprios pés, por vezes estuda os raptores e compreende que nunca serão profissionais do crime. Está agora num prédio onde vivem famílias. Observa os panfletos de publicidade nas caixas de correio, os vasos, as plantas, as luzes que piscam numa árvore de Natal.  &lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;O Pai descansa o corpo contra a parede. Os pulmões demoram a encher, gastaram-se, os braços morrem ao lado do tronco. Começou a combater quando era adolescente, lutas para amadores com todos os bilhetes vendidos. Quando abandonava o ringue, cortava as ligaduras, recebia dinheiro, alinhava as mangas da camisa com as mangas do casaco. Mesmo com cortes por cicatrizar, o Pai era admirado por todas as aspirantes a actrizes, e recebia sexo oral em casas de banho públicas. Semanas mais tarde, os treinadores chupavam cigarros, sopravam o fumo, rondavam o Pai que saltava à corda:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca serás um campeão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os golpes eram pesados, podiam derrubar, mas os braços tardavam, as pernas mantinham-se coladas ao chão. A cabeça encaixava cada vez mais os murros, o pescoço arqueava e a coluna vertebral transformava-se num elástico. O Pai esquecia-se das esquivas, incapaz de antecipar um ataque, e recebia mais golpes, um gancho nas costelas a rachar um osso, um directo no queixo que rebentava com alguns vasos sanguíneos, o cérebro insuflado, os ouvidos derramando sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pai era um adulto que se magoara no avesso do corpo, os ossos, os músculos, o sistema nervoso. E acabara a carreira sem glória. Como só sabia lutar, alistou-se no exército. No quartel, nas semanas de treino, a metralhadora saltava-lhe nas mãos e os outros soldados lançavam-se para trás das árvores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tirem-lhe aquela merda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando regressou a casa, após a recruta, sentava-se numa caixa de madeira, observando os militares de licença e as mulheres que se agarravam aos braços das fardas. Os médicos queriam-no num hospital, o Pai recusou os medicamentos e começou a trabalhar numa fábrica.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como nunca recorda o acidente, há quem fale de uma caixa a cair-lhe sobre as costas, ou uma máquina a descarregar electricidade. Os médicos voltaram a aparecer, assinaram os papéis, garantiram-lhe uma pensão por invalidez, e o advogado assegurou uma indemnização a ser paga todos os meses como um ordenado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pai nunca conseguiu transportar os filhos ao colo. Permanecia no sofá, às escuras, esperando que alguém mudasse uma lâmpada. Olhava a roupa no tambor da máquina mas não podia levantar os braços para o estendal, doía-lhe o cérebro, os dedos largavam as molas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde em que o Filho chegou a casa e lhe mostrou um rasgão no nariz, o Pai perguntou-lhe quem eram os culpados. À porta da escola, protegeu a cara como se participasse num combate. Os agressores riram-se quando o viram de luvas, procurando controlar a tosse e limpando o sangue que escorria do nariz. O Filho segurou-lhe o tremor das mãos e levou-o para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta abre-se. O Refém tenta denunciar o rapto ao Vizinho que aparece no elevador, um homem que deixou de atender os telefonemas do Pai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já lhe disse que os meus cães não incomodam ninguém. Não volte a ligar cá para casa.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem sem altura, que usa saltos, um fio de bigode, laca no cabelo, e que sorri sempre que encontra o Pai a tremer uma chave à frente do prédio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se calhar é melhor ser eu. Ou quer ficar todo o dia na rua?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As portas do elevador vão fechar-se, o Vizinho observa os raptores e o Refém, mas o Filho avança, os músculos do tórax contraem-se, os ombros alargam, e o corpo todo atropela o Vizinho que desliza pelo chão, desloca uma clavícula e abre a cabeça num vaso com plantas.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cozinha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esta é a Mãe e apenas lhe importa a organização dos ingredientes e a certeza de um vestido sem nódoas. O pescoço mantém-se imóvel para que a cabeça conserve a estrutura do penteado e a precisão da maquilhagem. Os anéis encontram-se protegidos pelas luvas de borracha. O rádio em cima do frigorífico produz música e a Mãe bate um dos sapatos nos azulejos, sem descobrir os homens emoldurados na porta, uma pistola, roupa escorrendo água. O Pai prepara uma frase, avançando um passo, mas depois anula o movimento, como se lhe agradasse esperar, observando a mulher que caminhava todos os dias no outro lado da rua e que entrava num autocarro com um  filho preso à mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mãe chegara ao país sem falar a língua, raspava a sujidade das retretes, passava a ferro, executava vénias de obediência a cada ordem da Senhora. Mas sempre que os patrões viajavam, a Mãe convidada homens e apresentava-se como proprietária da casa, nadando na piscina ou comentando o valor das jóias da Senhora nos seus dedos. Um desses homens só a queria na cama, sem roupa, com uma mão a cobrir-lhe os lábios. Os dedos avançaram para o fecho da saia, sentiram a marca do elástico na pele, depois um polegar empurrou as meias a partir das coxas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cala-te e ajuda-me a despir-te.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, sobravam apenas alguns cabelos do homem na almofada. A mãe encontrou no espelho os ombros mordidos, as nádegas com manchas de sangue pisado, a barriga onde adivinhava a certeza de uma gravidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as tardes, depois do trabalho, via a caixa de madeira e o Pai contando os autocarros, os homens que paravam para cumprimentá-lo, mentindo, talvez com pena da imobilidade do pugilista:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ainda és o maior.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a Mãe começou a olhar para o outro lado da rua, um dia apareceu-lhe nas costas, os dedos que costumavam trazer o filho pousaram no ombro do Pai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a tarde visitaram ringues, observaram luvas, o Pai desenrolou cartazes que anunciavam combates. A Mãe pensou que as letras com o nome do Pai eram as letras que se ofereciam às pessoas com sucesso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que não voltas a combater?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes, numa cerimónia em que as testemunhas presenciaram a incapacidade do Pai para segurar numa caneta, a Mãe assinou os papéis do casamento e preencheu os formulários para a legalização no país.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meio do primeiro assalto, o árbitro levantou os olhos do Pai para a luz e mandou-o para canto do ringue. A luva tinha-lhe esmagado o nariz. A força do murro expandiu-se pelos ossos do crânio, a ressonância alastrou para o cérebro e o Pai perdeu a localização do adversário, babando-se, cuspindo a protecção dos dentes, lançando ganchos flácidos num lugar do ringue sem ninguém. A Mãe agarrou na barriga, grávida de gémeos, desviou-se das pernas dos espectadores e abandonou a luta. Nesse momento, o Pai atravessava o ar com um último murro e tombava o corpo sobre as cordas, aterrando a cabeça no chão do ringue. O árbitro abriu os braços e voltou a fechá-los, finalizando assim o regresso do Pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mãe enganara-se porque o marido nunca seria um campeão. Mas conseguira uma nova nacionalidade e não precisava de trabalhar, ocupando-se apenas com a decoração da casa e organizando encontros para as mulheres do seu país. Todas as outras celebrações foram proibidas. Na Noite de Natal, os filhos vestiam o pijama, comiam na cozinha, os pés frios sobre os azulejos, sem doces, música, nem anjos pendurados nas portas. Perguntas sobre presentes resultariam em castigos. O Pai levava-os para a cama, puxava-lhes os cobertores até ao queixo e escondia uma caixa com um laço debaixo de cada almofada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, o Filho colou nas paredes da sala os cartazes em que o Pai ameaçava outros lutadores, luvas à frente da cara, músculos tensos, pernas que anunciavam uma combinação de murros. Na mesma casa, aconteceria nessa tarde uma reunião para os convidados que costumavam parar a chávena a caminho dos lábios para elogiar as carpetes, os cortinados, o tecido dos sofás. Quando a Mãe entrou na sala, rasgou os cartazes, tropeçando nos papéis, equilibrando-se dentro dos sapatos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como é que me podem envergonhar desta maneira?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É apenas depois de fechar o forno que a Mãe repara no Pai, no Filho e no Refém. Verifica a limpeza do vestido, tira as luvas de borracha e caminha com um dedo apontado aos sapatos do Refém:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Diz ao teu amigo para limpar essa lama dos pés antes de entrar na minha sala.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E regressa à receita pendurada na porta do frigorífico, sem dar conta das algemas, do casaco vermelho, do barrete, ou da barba do Refém, afastando as mãos de tudo para evitar qualquer estrago no verniz das unhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A porta está trancada. Ouvem-se os pés da cama que rangem e um barulho de lençóis. O Pai bate na madeira apenas com dois dedos, receando interromper o descanso da Filha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso do telefone.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De joelhos, sobre o corpo do Rapaz, a Filha pára o movimento de cintura, afastando o cabelo dos olhos. No fundo das costas, espalhando-se para as nádegas, o Rapaz observa-lhe a tatuagem e imagina outras mulheres na cama, procurando manter a erecção dentro do preservativo. Mas desconcentra-se quando sorri para o espelho, antecipando a descrição das habilidades da Filha aos amigos e aos colegas de trabalho. É um profissional que não precisa de vestir fatos para ganhar dinheiro. Escolhe mulheres à noite. Utiliza as mesmas frases para iniciar uma conversa, leva as mulheres aos mesmos lugares, repete os presentes, os embrulhos e a cor dos laços. Encontrou uma fórmula de sucesso. Mas a obediência dessas mulheres no sexo é apenas uma satisfação temporária. O desespero que elas revelam depois da separação, apesar de confirmar o génio e justificar a vaidade do Rapaz, é insuficiente, perturba-lhe a rotina. Dentro de alguns dias, quando já conhecer todos os pormenores do corpo da Filha, procurará outra mulher.        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colchão produz o ruído de um corpo que se levanta e que depois muda o peso para o soalho. Em bicos de pés, a Filha ronda o quarto à procura do telefone. Na cómoda, entre um espelho, caixas de jóias e frascos de perfume, esconde-se uma câmara. Os filmes amadores são vendidos a uma empresa de distribuição de conteúdos pornográficos e lançados em diversos países. Os protagonistas masculinos nunca sabem que estão a ser filmados, e por isso aparecem numa fita magnética sem disfarçarem a proeminência da barriga nem as dificuldades respiratórias durante o sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sapato pisado por um calcanhar, a pele de um joelho a rasgar-se na esquina da mesa de cabeceira, roupa lançada para o chão. Depois, a Filha desliza os dedos na parede à procura do interruptor. Quando avança para o telefone, observa um pedaço de borracha amarrotado sobre o ventre do Rapaz, esfrega a pele da cara, abre a porta, mostrando apenas a cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui está.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Filha utilizou um sorriso para substituir um beijo na cara do Pai. Sabe que apenas habitam a mesma casa. Sempre quis existir além da família. Se a Mãe programava uma festa, a Filha ensaiava uma doença para permanecer no quarto. Nunca se incomodou com a extinção do Natal. E a caixa que encontrava debaixo da almofada era apenas uma cedência à dedicação do Pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro lado da porta, o Filho marca vários números no telefone. Sempre que respondem, lê as frases que escreveu no papel, olha para o Refém:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Raptámos um Pai Natal. Temos exigências. Queremos que sejam cumpridas.  Esta é a nossa morada. Esperem-nos na rua.” 	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Casa de Banho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A bateria está no lavatório e o prego é empurrado pelo martelo. As instruções indicam apenas uma suave pressão para fazer sair o ar. O Enteado começa a serrar o plástico e retira o óxido de magnésio com uma colher. A substância deverá secar à luz de uma lâmpada e depois misturar-se-á com água oxigenada. Nesse momento, o Enteado estará no banco traseiro de um carro e terá entre dez e vinte segundos até que a garrafa inicie uma explosão no interior de uma loja que vende doces de Natal. Esta é a sua nova missão, zelar pela saúde pública e proibir as pessoas de aumentarem de peso, controlar-lhes o colesterol, acabar com a obesidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem emprego, o Enteado passa os dias em casa, recebendo os amigos. Não fazem parte de um movimento político, nem sequer de um grupo terrorista. São adultos que inventam causas para resolver a inactividade, o aborrecimento, e que só experimentam emoção nos dias em que os jornais mostram imagens dos atentados.        &lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;A porta abre-se, o Enteado segura o plástico da bateria com luvas. Encontra o Pai Natal através das lentes dos óculos de mergulho. Mas continua a remover o óxido de magnésio com a colher. O Pai Natal acena com a cabeça para pedir desculpa, procura os botões das calças e com um sapato levanta a tampa da retrete:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Se olhar para mim não consigo fazer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último ano, após largar as injecções de heroína, o  Enteado decidiu casar-se, elegendo uma empregada de livraria. Entregou-lhe um anel, caindo sobre os joelhos para receber uma resposta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“És simpático mas não nos conhecemos. Só vens aqui para comprar livros.”	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os psicólogos recearam o regresso aos garrotes, ao líquido morno misturando-se com o sangue, ou mesmo o suicídio. Em casa eliminaram-se os insecticidas e trancou-se a gaveta dos medicamentos. O Enteado copiava poemas para as paredes da livraria e deixava bilhetes em cima do balcão. Após várias queixas na Polícia, os agentes pediram-lhe para manter a distância com algumas bastonadas nas costas e nas nádegas. Mas o Enteado acredita que o amor é perseverança, que magoa, que é preciso abdicar do orgulho e executar números com perigo, como lançar bolas de ténis recheadas com pólvora que arrancam as cabeças de manequins em montras de lojas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando começam os gritos, a porta da casa de banho volta a abrir-se, um pontapé na fechadura, no lado de fora. O Filho aparece com a pistola levantada e encontra o Enteado, com um isqueiro na mão, a empurrar uma bola de ténis para dentro da boca do Pai Natal. O Filho desactiva a patilha de segurança, faz pontaria para um ombro:	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabes que gostaria de magoar-te?”&lt;br /&gt;“Eu estou preparado para sofrer.”&lt;br /&gt;“Vou mostrar-te o que dói levar um tiro na barriga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pai entra na casa de banho, agarra na pistola e depois no isqueiro, encosta a cara na cara do Enteado, os objectos agitam-se entre os seus dedos.:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Enteado reconhece o cheiro da água de colónia, recupera o nojo da barba a roçar-lhe numa bochecha, a mesma repulsa que conheceu depois de se mudar para casa do Pai, afinal um padrasto que queria ser Pai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“És o meu primeiro filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Enteado sabia que não se pareciam no espelho, na cor da pele, nas mãos que o Pai verificava depois de um treino:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vais ser um campeão, filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Enteado chorava antes de ir para o ginásio, queria ficar em casa, esticando o corpo no sofá. Mas o Pai sentava-se nesse mesmo sofá, dono de um controlo remoto que lhe escorregava das mãos, levantando-se apenas para mostrar o saco do equipamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos, campeão?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No interior do carro repetia-se o cheiro de um Pai que era um engano, que nem sequer trabalhava, como os outros pais, os verdadeiros, e que se esforçava por cuidar de uma criança:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui têm meu filho para treinar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Enteado sofria dentro do ginásio com o odor da transpiração no forro das luvas, com o cabedal dos sacos a estalar, com o sangue nas gengivas acumulando-se na protecção para os dentes. Fugia dos adversários, mas a campainha demorava, mais murros, esquivas, outro corte na sobrancelha, um gancho abaixo do externo que o fazia vomitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saem da casa de banho e o Filho volta a activar a patilha de segurança da pistola, a luva do Enteado tenta eliminar o cheiro que se entranhou na pele da cara e reinicia o ofício de construir bombas dentro de garrafas de plástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Varanda&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu sou Eu. Eu sou o Filho e asseguro a narrativa de tudo o que se passou ou poderá acontecer. Imagino as acções dos protagonistas no outro lado da porta. É fácil, sei quem são as pessoas, as rotinas, afinal, tudo aquilo que nunca mudará. E caso suceda um acidente, uma bala disparada por azar, uma sentença de prisão por rapto, teremos sempre as imagens desta câmara para provar que apenas precisamos de ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encosto o cano da pistola à têmpora do Pai Natal. Lá em baixo, as equipas de televisão procuram o criminoso que reivindicou o rapto. Mostro metade do corpo do Pai Natal na varanda, como se ameaçasse empurrá-lo. As câmaras começam a filmar e os jornalistas gritam perguntas, inclinam a cabeça para trás, cuspindo as palavras para cima:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Qual é o valor do resgate?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mãe atravessa o visor da minha câmara com uma caixa de papel. O bolo será um presente para o financiador dos cortinados, do vestido e dos anéis nos dedos. O comprimento do risco dos olhos é verificado no espelho uma última vez. É possível que se imagine descalça, dobrada sobre a cama, o fio de bigode do Vizinho a decretar as regras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“De joelhos se queres uns sapatos.”	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos os anos outro papel de parede, as molduras novas sem fotografias do meu Pai, apenas paisagens, um monumento, ou a minha Mãe no centro de uma praça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“São só dois dias.  É um curso de decoração. Não posso ficar parada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vizinho sempre no outro lado da máquina fotográfica, ou num quarto de hotel, pressionando-lhe os ombros e sorrindo como sorri para o meu Pai:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Quer ajuda a apertar os cordões dos sapatos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas desta vez o Vizinho não abrirá a porta, o bolo começa a desfazer-se dentro da caixa, talvez apareça alguém nas escadas:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Foi numa ambulância, deitava muito sangue da cabeça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a minha Mãe perguntará que hospital, entrará num táxi, passará toda a viagem a arranjar o laço na caixa, temendo um acidente vascular cerebral, um lado da cara congelado, outro homem a precisar de ajuda para correr o fecho das calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As luzes dos carros da Polícia aparecem no parque de estacionamento do prédio. Continuo a segurar na pistola, com a outra mão filmo o meu Pai, e lá atrás, na sala, passa a minha irmã gémea, a Filha, concebida noutro óvulo, os olhos diferentes, outra vontade, sem nunca perceber o silêncio do meu Pai e a língua que quer falar mas que é apenas um músculo danificado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Feliz Natal, Filha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Filha que transporta agora toda a roupa dentro de malas, trocando, finalmente, a família pelos amigos, afastando-se, com pressa, do Pai que sobrevive num sofá, sempre à espera que alguém lhe vista um casaco, retalhando a cara quando se barbeia sozinho.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jornalistas assustam-se com a explosão, ponho mais força na coronha da pistola, obrigo o Pai Natal a gritar:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Estou bem. Não me aconteceu nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filmo a porta da casa de banho, algum fumo, talvez o Enteado sem mãos, cego e com o coração à vista, um cobarde que se escondia nos armários quando lhe propunha uma luta, gritando através dos casacos nos cabides:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Não somos irmãos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se por acaso o Pai pede um copo de água, o Enteado arruma as chaves no bolso, veste o casaco, abre a porta:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Não posso, velho. Tenho de sair.”&lt;br /&gt;Mas eu estou aqui, em nome do meu Pai, em meu nome. Pretendemos apenas celebrar o Natal. Precisamos de ajuda, queremos falar, buscamos companhia. Se nos levarem para a casa de uma família, se nos sentarem à mesa com pessoas que recebam as caixas do meu Pai, prometemos, Eu prometo, que nada acontecerá a este Pai Natal. A pistola nem tem balas no carregador, fiz saltar a bala da câmara, está aqui, podem filmar. Só queremos que nos vejam, que nos levem, que nos mostrem em directo. Depois cedemos os direitos, oferecemos a cassete que roda dentro desta câmara. Podem fazer um programa especial, damos entrevistas, contamos tudo. Mas por favor alertem as famílias, é Natal, e nós só precisamos desta noite, como se fosse um comprimido que acabasse com os tremores, um saco de gelo a reduzir um inchaço, ou pelo menos os aplausos que a audiência oferece no final de cada combate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107218689242412525?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107218689242412525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107218689242412525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107218689242412525' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107183662013780950</id><published>2003-12-19T12:23:00.000Z</published><updated>2003-12-19T12:24:34.280Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A única coisa que se expande tanto como o universo é a estupidez&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já escrevi que fumar não é um crime. As pessoas devem poder fumar em lugares públicos onde se encontram de livre vontade – restaurantes, bares, discotecas – ao contrário, por exemplo, dos edifícios onde trabalham e onde têm de estar de manhã à noite. Mas que fumem com o bom senso de olhar em redor e perceber que os cigarros também incomodam, sem o pedantismo de pensar que podem impor o fumo. Fumar não é um estigma, mas também não é um privilégio. Da mesma maneira que me perturba a perseguição aos fumadores em Nova Iorque ou na Califórnia, incomoda-me arrogância daqueles que julgam que têm o direito de fumar em todo o lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Hospital de Santa Maria vi pessoas a fumar. Pareceu-me estranho. Mais ainda quando caminhei pelos corredores onde os estudantes de Medicina acendiam cigarros depois de uma aula, ou quando uma médica encolheu os ombros à minha reclamação, como se fosse normal acender cigarros num lugar onde há pessoas doentes, algumas em macas, à espera, durante horas, outras chorando com dores, como a mulher que era confortada pela filha enquanto se agarrava à barriga. O hospital de Santa Maria é – se calhar como todos os hospitais – um espectáculo da fragilidade e da miséria humana. Magoa ver a solidão daqueles que aparecem sem acompanhantes, assusta o desespero dos velhos nas cadeiras de rodas que quase morrem ao suspender a respiração, os braços mordidos por agulhas e tubos, metades de corpos paralisadas depois de uma veia que explodiu na cabeça.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a mulher que acabava de fumar apagou o cigarro no chão, no corredor onde os doentes aguardavam uma consulta, compreendi que o egoísmo, a soberba, a indiferença, são muito mais fortes que o respeito. E apeteceu-me dar-lhe um estalo. É por isso que me custa-me escrever tudo isto, por ser um lugar comum, algo tão evidente, claro, fácil de saber e, no entanto, ainda haver tanta gente a escolher a estupidez.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107183662013780950?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107183662013780950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107183662013780950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107183662013780950' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107167177726644555</id><published>2003-12-17T14:36:00.000Z</published><updated>2003-12-17T14:37:09.340Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;You’ve been hit by a smooth criminal&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mr. Ayala acorda antes do despertador e procura recordar-se do nome da pessoa que vai matar esta manhã. Desliza um polegar no lençol e sai da cama, sem o ruído da roupa ou do colchão, caminhando em bicos de pés depois de tirar a pistola debaixo da almofada e de a prender entre a base das costas e o elástico das calças do pijama. Evita ainda o som do metal sobre o mármore quando aterra a pistola na bancada da casa de banho. Prepara a água quente, a lâmina e a espuma de barbear, entra na banheira, esfrega a cara e o corpo com um esfoliante, utiliza amaciador no cabelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato está pendurado na porta da casa de banho. Consegue o nó da gravata à primeira tentativa, deixa cair um produto fixante nas mãos que pressiona sobre o couro cabeludo, veste o casaco e confere a posição dos botões de punho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os sapatos na mão, passa pela cama, beijando os dedos e depois levando-os à cara da mulher que ainda dorme. No outro quarto, acorda os filhos soprando-lhes ao ouvido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O papá vai fazer o pequeno-almoço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhe a roupa dos filhos no armário, lava-lhes a cara e aperta-lhes os cordões dos sapatos. Na cozinha enfia-lhes guardanapos de pano nas camisas do uniforme escolar e fica a observá-los, corrigindo por vezes uma boca aberta ou os dedos que se enganam ao agarrar numa colher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No carro escolhe a estação de rádio que emite música para crianças. Canta com os filhos e, quando os deixa à porta da escola, lambe um polegar e limpa-lhes o que resta de comida e pasta de dentes nos cantos dos lábios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto de um apartamento, o lenço de pano é empurrado para dentro da boca, imobilizando a língua e impossibilitando qualquer pedido de ajuda. Os pulsos estão amarrados com um fio de nylon e começam a sangrar. O silenciador foi enroscado no cano da pistola que se encontra agora em cima da mesa. Mr. Ayala conversa ao telefone diante da vítima, questionando as ordens que exigiam tiros nas rótulas para obter informações:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O homem não tem pernas, está numa cadeira de rodas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mr. Ayala decide improvisar. Depois de transportar a vítima para a banheira e de forrar o chão com folhas de jornal, fecha a cortina e aponta o silenciador para os cotovelos. O sangue espirra para os azulejos brancos e para Mr. Ayala que tem uma máscara de cirurgião e veste um fato amarelo para a chuva. A vítima fornece as informações necessárias e em seguida é executada. Mr. Ayala corta o corpo com uma serra e guarda-o num saco de plástico e numa mala de viagem que atira para um contentor de lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, debaixo do chuveiro, Mr. Ayala elimina as pintas de sangue na pele e passa uma escova nas unhas. Veste a mesma roupa, mudando apenas de cuecas e de meias. Passa o resto do dia a executar tarefas domésticas, corta a relva, muda uma lâmpada, tempera os alimentos que cozinhará antes de anoitecer. A mulher chega a casa com os filhos. Comem, vêem televisão e Mr. Ayala certifica-se que as crianças estão bem protegidas pela roupa de cama. Um dos filhos aponta para os sapatos do pai que apaga a luz e responde:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é nada, filho. Agora dorme.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mr. Ayala tira os sapatos e caminha para a garagem onde, com uma faca e uma esponja, limpa o sangue coagulado nas solas, rapidamente, porque quer entrar na cama e a colar-se ao corpo da mulher que abandonará um livro e o beijará na boca.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107167177726644555?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107167177726644555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107167177726644555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107167177726644555' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107152962743002884</id><published>2003-12-15T23:07:00.000Z</published><updated>2003-12-15T23:07:58.246Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Retrato de Rapariga&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MacKayla inclinou o corpo sobre a mesa que nos separava, apertou-me a mão e depois despiu-se e agarrou nas mamas como se eu lhe apontasse uma câmara fotográfica. Esperei que se sentasse, baixei a cabeça, mas espreitei as televisões que mostravam os filmes protagonizados por MacKayla, encontrando-a cercada por homens que a estimulavam com palmadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A actriz porno voltou a apertar os mamilos, procurando um sorriso na minha cara, como se não acreditasse que eu conseguiria resistir à sua nudez, beleza, ou – ainda mais difícil – à devassidão do seu outro corpo nos ecrãs. MacKayla desiludiu-se quando descobriu que eu apenas estava equipado com um caderno e uma caneta. Porque em vez do registo acelerado das suas respostas em folhas de papel, queria flashes, câmaras, holofotes, algo que iluminasse ainda mais o seu brilhantismo sexual. Sem espectáculo, vestiu uma camisola, aterrou a cara na palma de uma mão e pediu comida a uma assistente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estive a gravar toda a manhã, num quarto de hotel, e ainda não comi nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de relatar a normalidade da infância e da adolescência, MacKayla assegurou-me que gostava muito de sexo e que nunca se sentira explorada. Era actriz porno porque a indústria enriquecia os melhores profissionais, tornava-os famosos, susceptíveis de serem amados por estranhos. Quando regressei às perguntas sobre a família, distraíu-se outra vez, observando o verniz nas unhas ou mastigando a sandes que a assistente pousara na mesa. MacKayla aborrecia-se com a minha seriedade, com o meu esforço para evitar as imagens nas televisões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando nos despedíamos, pediu-me para a acompanhar à rua. Tive de esperar, observando uma audiência de homens que se sentavam num sofá, suportando o corpo de MacKayla nas pernas, encaixando-lhe os dedos em concha nas mamas e esperando uma polaroide que depois compravam à assistente. No final, perguntou-me se também queria uma recordação fotográfica, abrindo as pernas, mostrando-me o sexo e deslizando as mãos no corpo como costumava fazer nos filmes. Sorri, encolhendo os ombros, como se lhe confessasse que gostaria mas que obedecia a um código de conduta. Queria ser subtil, revelar controlo, profissionalismo, mostrar-lhe que ainda existiam pessoas que podiam resistir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajudei-a a vestir um casaco de peles. Por baixo havia apenas uma saia. Carreguei-lhe a mochila pelos corredores do Festival de Sexo e esperei quando os fotógrafos pediram para que abrisse o casaco. Depois deu-me o braço e anunciou à assistência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Este é o meu novo namorado, vai fazer-me famosa na Europa.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MacKayla tinha 21 anos, eu era pouco mais velho, e sentia-me importante. Imaginei-me a escrever poemas, na sua própria pele, nalguma pensão, escutando bêbedos e sirenes de ambulância, cedendo ao fascínio das mulheres bonitas que parecem querer estar sempre nuas. Nesse momento, acreditava que a insolência criativa seria viver com uma rapariga que encontrava estilo na decadência, inspiração no deboche e fama na utilização virtuosa do corpo. Mas MacKayla vivia em Los Angeles, estava de partida, e eu era um rigoroso cumpridor das regras profissionais que desconfiava já do deslumbramento com as estrelas da pornografia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhei-a pelo passeio, chamei um táxi, trocámos beijos nas bochechas e abri-lhe a porta, esperando um convite que deveria recusar. Ela apenas sorriu e fechou a porta, condescendendo a minha inocência – que era também a sua inocência, agora que estava num espaço sem público ou câmaras ou realizadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo os cartazes dos filmes de McKayla que encontrei entre papéis, numa caixa, numa arrecadação. As carreiras das actrizes pornográficas costumam ser breves, mas MacKayla é quase tão famosa como ambicionou. Será hoje outra pessoa, e apesar do corpo ainda duro, da tatuagem colorida que lhe aperta o umbigo, haverá um desgaste que não se mede na carne. Eu também mudei, estando mais preocupado com as pessoas do que com as regras profissionais. E certo de que já não preciso de esperar por um convite sempre que quero entrar num táxi.        &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107152962743002884?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107152962743002884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107152962743002884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107152962743002884' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107122783202893213</id><published>2003-12-12T11:17:00.000Z</published><updated>2003-12-12T11:17:59.263Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;One is the loneliest number&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“I have been drawn to a certain character: a person, usually a male, who drifts on the edge of urban society, always peeping, looking into the lives of others. He’d like to have a life of his own but doesn’t know how to get one.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paul Schrader&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É aqui que os observo, enquanto atiram a pressa de perna para perna, preparando-se para  regressar a casa. Os semáforos mudam de cor e as pessoas iniciam a corrida, roçam os casacos nos casacos daqueles com quem se cruzam na passadeira. As duas partes encaixam-se, depois atravessam-se e dispersam quando atingem o outro lado da rua. No meio de todo este movimento eu mantenho-me quieto, uma mão no bolso, a outro aproximando as duas partes do casaco de porteiro de hotel. Estou com os calcanhares no passeio, as pontas dos sapatos sem apoio, e balanço o corpo, como se também quisesse chegar a casa. Mas finjo, porque nunca avanço, admiro apenas as pessoas que esperam para atravessar e os condutores dentro dos carros, ajustando o volume do rádio, movendo os dedos sobre o volante, trabalhando a impaciência com um pé a carregar no acelerador e a cabeça inclinada para os semáforos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um desses condutores investiga-me, abre a janela e procura a minha cara, depois percebe a farda do hotel, lê o meu nome na placa cravada no tecido do casaco:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Desculpe, pensei que fosse outra pessoa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esquece-me, preocupando-se com o semáforo, espreitando os jornais em cima do banco e as pessoas que se movimentam diante do carro. Eu mantenho o sorriso, como se aguardasse uma fotografia, e tenho a mão levantada, para dizer-lhe adeus. Talvez ele ainda me reconheça, despedindo-se antes de engrenar uma mudança, levantar o pé da embraiagem e pressionar o acelerador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de um vidro há fruta preparando-se para apodrecer. O empregado tira uma laranja que coloca num prato e que entrega na mesa de um cliente. Uma faca crava-se na casca e há um explosão de sumo. Mas mais ninguém repara. Neste lugar é de noite. Encontro homens sem companhia admirando a televisão que os ilumina e os ajuda a respirar como um ventilador nos cuidados intensivos. São poucos homens, alguns sentados, outros inclinando-se sobre o balcão, com os pés colados num soalho de nódoas. Ninguém se fala, apenas fumam cigarros. Compro comida, mando embrulhar, e caminho para o emprego. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho de sorrir sempre que abro a porta do hotel. Os hóspedes regressam. Os homens protegem as mulheres, ofereceram-lhes os casacos, tremem de frio mas revelam um rubor de álcool nas bochechas, os olhos com finas redes de sangue, a boca cuspindo gargalhadas antes de entrarem no elevador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que ela elimine um ruga na saia e que avance para a porta, o pescoço enfiado num casaco de peles, sem malas, a maquilhagem a garantir-me que é uma mulher adulta:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Não quero incomodá-la. Mas, lembra-se de mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ela demora-se diante da minha cara, esperando um esclarecimento, depois desinteressa-se, olha em redor, procura alguém. Digo-lhe que estudámos na mesma escola. Sem se lembrar, admira o relógio várias vezes, ensaiando uma desculpa. Está atrasada, mas concede-me um encontro no dia seguinte, logo de manhã, antes da sessão de ginástica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo cedo e tonifico os músculos com água fria. Utilizo mesmo maquilhagem para atenuar os riscos escuros debaixo dos olhos. Esfrego os pulsos com perfume, cuspo na biqueira de um sapato em que esfrego um pano. Compro flores e começa a chover. Na paragem de autocarros, as pessoas empurram-se, protestam contra os atrasos. Tenho frio nos pés ensopados, o cabelo escorre água e colou-se à testa. Os ponteiros do meu relógio escondem-se debaixo do vapor do vidro, mas pararam, o mecanismo está inundado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chego ao hotel, rodo a cabeça, procurando-a entre os turistas e os carrinhos com malas. Avanço para o piso do ginásio e encosto-me ao vidro. Ela corre em cima de um tapete rolante, com auscultadores nos ouvidos. Continuo à espera, até que ela enrola uma toalha à volta do pescoço e passa por mim, sem perceber que sou eu:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Desculpe, atrasei-me por causa da chuva.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pressiona o botão do elevador, muitas vezes, como se pudesse acelerar o mecanismo, e quando me aproximo e lhe entrego as flores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não me lembro de si, deve estar enganado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa decido telefonar-lhe para o quarto. Identifico-me, claro que ela se lembra de mim, e as flores, comprei-lhe mais flores, combinávamos amanhã, outra oportunidade, eu prometo que não me atraso, apanho um táxi, levanto-me mais cedo. Mas ela não responde. Na minha casa, uma divisão, ouve-se apenas uma torneira deficiente, pingando no lavatório. Olho o colchão, sem cama, onde gostaria de a deitar. Imagino-a a sair da casa de banho, desviando-se do sofá e atirando-se para os lençóis, o cão do vizinho sem ladrar, os relógios numa gaveta, o telefone desligado, longe da minha orelha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está a incomodar a minha mulher. Ela já disse que não o conhece. Não volte a ligar.”        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No armário encontro o bastão, serro-o ao meio e escondo-o dentro do casaco. Vou castigar o homem que a impede de falar comigo, o homem que me quer roubar, o homem a quem esmagarei o crânio. Continua a chover, dias e dias a chover assim, e desta vez avanço na passadeira, misturo-me com as pessoas que querem chegar a casa. Alguém me empurra, mas nem me olha, continuando, sem me pedir desculpa, como se eu não tivesse carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me aproximo do hotel, encontro -a, o homem agarra-a, obriga-a a entrar no táxi, talvez pressione uma pistola contra as suas costelas, a ameace de violação, lhe assegure um castigo. Vou magoá-lo como ele me quer magoar, com este bastão que afinal deixo ficar no casaco, porque os pés agora sem se moverem, outra vez os calcanhares sobre o passeio, as pontas dos sapatos sem apoio, balanço o corpo quando o táxi arranca, ela encosta a cabeça ao vidro, mas nem se despede. E por isso continuo aqui, observando as pessoas que atravessam a rua,  analisando os condutores, batendo no vidro de um carro que acaba de obedecer à cor do semáforo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não quero incomodá-la. Mas, lembra-se de mim?”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107122783202893213?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107122783202893213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107122783202893213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107122783202893213' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107093100978580862</id><published>2003-12-09T00:50:00.000Z</published><updated>2003-12-09T00:51:33.140Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Come fly with me&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de vestir as calças, Kalashnikov percorre o apartamento descalço, atravessa a família na cozinha – um pai que mastiga, os irmãos calados, a mãe levantando-se para servir mais um prato – e abre a porta do frigorífico para beber leite pelo pacote. Regressa ao quarto, sem olhar para as pessoas que se sentam à mesa, distante da pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Não vens almoçar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua acende um cigarro e enfia um boné. Kalashnikov tem nome de metralhadora porque dispara palavras, como se falasse sozinho, e gosta de magoar. Os rapazes saltam do muro para cumprimentá-lo. Encaixam as mãos, tocam os ombros, passam os cigarros de erva. Quase todos têm uma película de pele sobre a pele, cicatrizes de balas ou facas, elevações sobre um osso, mesmo ao lado de um órgão vital. Permanecem na sombra do muro, sem camisas, regando-se com garrafas de água. O carro da Polícia passa devagar, cada vez mais devagar, cruzando o calor que se pode ver à superfície do alcatrão, ligando a sirene e depois desligando-a, para assustar os adolescentes que seguram o sexo por cima das calças e que lançam o fumo dos cigarros para a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kalashnikov manobra uma faca, treina-se para um combate. Há um mês que deixou de estudar, conseguindo dinheiro através dos roubos. Levanta-se com a faca na mão, ao lado do corpo, e observa os namorados de fim-de-semana, as famílias que saem das lojas com sacos de comida. Toda a tranquilidade feliz o incomoda. No outro lado da rua aparece o Arquitecto, um casaco, camisa e gravata, meias dentro dos sapatos, como se o seu corpo conseguisse suportar ao calor. Kalashnikov sempre odiou o Arquitecto, gostaria de castigá-lo por aparecer com mulheres que depois abandonam apartamento a meio da noite, ou de magoá-lo por nunca se assustar com os insultos dos adolescentes no muro, nem com o lixo acumulado nas sarjetas, nem com as pedras que rebentam com os vidros dos carros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kalashnikov atravessa a estrada e ataca o Arquitecto pela costas, um murro que atinge o pescoço e a faca que atravessa a carne entre duas costelas, lascando o osso sem atingir os pulmões. O Arquitecto está agora sentado, encostado à parede, e Kalashnikov põe-lhe um pé no ombro, procurando esmagar-lhe uma clavícula:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“És tão bonito não és?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros adolescentes atacam os bolsos do Arquitecto, procuram uma carteira, arrancam–lhe o relógio. Depois começam a correr, empurrando as pessoas nos passeios, atingindo-os nas costas, derrubando aqueles que não se desviam. Outros adolescentes juntam-se ao grupo em cada esquina, gritam para anunciar a passagem, sentem-se cada vez mais poderosos, seguindo a liderança de Kalashnikov que abre o peito como se corresse para um adversário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No supermercado derrubam prateleiras, lançam carne aos clientes, latas de conservas, roubam tudo aquilo de que não precisam. Quando um segurança agarra um dos adolescentes pelos cabelos e o imobiliza com um joelho nas costas, Kalashnikov pontapeia-lhe a boca e ri-se ao ver o sangue escorrendo nas gengivas, continuando depois com os pontapés, repetindo o som dos sapatos contra a caixa torácica, como se o corpo fosse apenas uma mala de viagem, sem reacção, sem se ouvir uma fractura. E embora o segurança já nem apare os golpes com os braços, Kalashnikov continua a procurar partes do corpo para destruir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os adolescentes dispersam, dividem-se, saltam muros quando os carros da Polícia aceleram e ligam as sirenes, insistindo no ruído para assustar os criminosos. Kalashnikov corre, os músculos das pernas queimam, sente as virilhas encharcadas, os pés a escorregar dentro dos ténis:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Anda cá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma rapariga, no outro lado da rua, Betsy, que se sentava atrás de Kalashnikov no autocarro para a escola:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Eu ajudo-te.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sobem as escadas, entram no apartamento, onde fitas de papel vibram atadas às ventoinhas. Betsy entrega-lhe uma toalha e um copo com água e gelo. Ficam sentados na bancada da cozinha, o rádio emite música desde o quarto. Conversam sobre os outros adolescentes, as pessoas que conhecem, aquilo que gostariam de ser. Kalashnikov mente muitas vezes, cria uma personagem, acrescenta riqueza e crueldade a todos os crimes que protagonizou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começa a anoitecer, mas o calor ainda se sente nas paredes da casa, no sons abafados que se ouvem na rua, tubos de escape, chinelos no passeio, mães que chamam as crianças para casa, e no cheiro da gasolina, da comida, das pessoas que chegam da praia. Betsy desaperta o botão das calças de Kalashnikov, empurra a palma de uma mão contra os abdominais, sobe para o pescoço e agarra-lhe os cabelos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Já beijaste alguma rapariga?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo de Kalashnikov recua, as mãos apoiadas na bancada, a cara que se afasta, olhando para a janela, denunciando a mentira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Claro que sim. Pensas que sou um miúdo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Betsy sorri, afunda os dedos dentro das calças de Kalashnikov, beija-o, lambe-lhe os lábios, agarra-lhe numa mão e pousa-a sobre uma mama, depois movimenta-lhe os dedos sobre o mamilo, empurrando o ventre contra a coxa de Kalashnikov, roçando o sexo no tecido das calças, para cima, para baixo, até que as pernas cedem e Betsy suspende a respiração, geme quase nada, crava-lhe as unhas num ombro, depois volta a respirar, ainda de olhos fechados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Obrigada. Mas agora tens de ir embora. Os meus pais estão a chegar.”&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Kalashnikov olha para o próprio corpo, estranho, diferente, o sexo duro, inacabado, uma dor que descobre quando sai do prédio, como se tivesse que tocar-se, aliviar o sofrimento. Quando chega a casa, a família continua à mesa. A mãe oferece-lhe melancia, um copo de sumo, fatias de pão, mas Kalashnikov apaga a luz do corredor, entra no quarto sem responder, liga uma ventoinha e abre uma caixa de madeira de onde tira um saco. Em cima uma revista corta a erva com uma tesoura, mistura tabaco que despeja para uma mortalha. Enrola, fuma e, com as calças pelos joelhos, começa a masturbar-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas distrai-se, ouvindo as vozes da família, uma televisão, pneus que sobem o passeio para estacionar um carro, uma sequência de sons cada vez mais limpos por causa da erva. Ou as ideias que se demoram pouco tempo. Esquece-se daquilo que estava a pensar, projectos de assaltos, as mamas de Betsy, brancas, com sardas, a crescerem, e o sexo empurrado contra as suas calças, alastrando uma mancha de humidade no tecido. Kalashnikov está nu, o corpo sobre a cama, as imagens agradam-lhe, o calor adormece-o ainda mais, mas sabe que a erva lhe come as memórias e por isso interrompe a masturbação para escrever num papel:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	Começar um diário&lt;br /&gt;	Assaltar um banco&lt;br /&gt;	Roubar um descapotável&lt;br /&gt;	Fugir com a Betsy &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107093100978580862?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107093100978580862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107093100978580862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107093100978580862' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107049722533569530</id><published>2003-12-04T00:20:00.000Z</published><updated>2003-12-04T00:21:04.263Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O Messias, finalmente&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora as pessoas amam-me. Neste quarto há uma mulher de joelhos para me apertar os sapatos. Outra mulher cuida de pentear-me. Com as calças nos tornozelos apareço na janela e a multidão começa a gritar, oferecendo-se para me servir. Todos querem estar junto de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é lindo. Não. Eu explico melhor. O meu mundo é lindo. O outro é uma merda, uma vez que as pessoas disparam à queima-roupa, os doentes morrem sozinhos e os carros saltam da estrada e eliminam famílias dentro da chapa. Nesse outro mundo há enterros sem audiência, depressões a pedir comprimidos e a certeza de que as pessoas são muito piores que os animais que comem as próprias crias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o meu mundo é lindo. Imaginem tudo o que já foi inventado, todos os filmes, livros, músicas, todas as imagens de felicidade alguma vez produzidas. Esse é o meu mundo, e milhares de pessoas que esperam que eu desça sobre um palco, através de uma corda pendurada num helicóptero. Quando a luzes me mostrarem, e a minha voz se ouvir no sistema de som, aquelas pessoas tornar-se-ão personagens do meu mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brinco com eles, como se fossem bonecos, como se fossem crianças que acreditam que a obediência os recompensará. Levanto a mão e eles imitam-me, cantam as palavras que inventei, choram, esmagando-se uns contra os outros, procurando estar mais próximos do palco. Os seguranças estão instruídos para me trazerem um casal de namorados entre a sétima e a oitava canção. Aparecem, quase adolescentes, e ele queria ser como eu, e ela queria casar-se comigo. Começo a despi-los, digo para ficarem nus, os corpos encontram-se ampliados nos ecrãs gigantes, prontos para aceitar as minhas ordens. Os bailarinos apertam o rapaz, lambem-lhe os ombros, sobem-lhe os dedos pelas pernas, e a rapariga procura beijar-me, treme as mãos quando me abraça e eu lhe ocupo a boca com a minha língua. Depois envio-os de volta para a multidão, com a minha assinatura numa omoplata e num pulso, sem roupa, mas outra vez anónimos, inúteis, desempregados, potenciais assassinos, embora seguros de que mudaram para sempre porque me conheceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O guitarrista inicia um solo para que eu possa regressar ao meu camarim. Os convidados recebem-me com um aplauso, levantam as cabeças das travessas com cocaína ou tiram da boca o gargalo de uma garrafa. Procedem ao ritual da felicidade, dançam em cima da mobília e comportam-se como aprenderam em todas as revistas, filmes ou programas de televisão. O meu mundo, mesmo sendo um cópia, é o melhor mundo. Encontro a mulher que ateou fogo à cortina da casa de banho do meu quarto de hotel. Nessa mesma noite, atacou a empregada que queria fazer as camas, marcou-lhe as bochechas com os anéis e mostrou-me os cabelos da empregada presos nas suas unhas com verniz. Mas a agressão – inspirada numa reportagem sobre os elementos de uma banda que morreram de overdose – não me provocou qualquer entusiasmo. Decido oferecer-lhe o peixe cru que está a ser preparado por um cozinheiro oriental. Ela informa-me que é alérgica, que a pele muda de cor e que pode iniciar um processo de asfixia. Seguro numa colher que encho com peixe cru e peço-lhe para abrir a boca. Ela mastiga como se me quisesse provar que está inocente, que me obedece e que lhe agradam os sacrifícios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não autorizo que as mulheres que desconheço aproximem a boca da minha cara. Conseguiram entrar neste avião privado depois de passarem pelos seguranças que só oferecem passes a quem os chupa nas casa de banho de plástico dos concertos. Outras mulheres leram sobre o meu fascínio por espartilhos e aparecem com o tronco apertado, a circulação falha nos vasos sanguíneos da cara, partem uma costela, quase deixam de respirar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um elemento de outra banda, convidado para viajar comigo, cospe whisky e acusa-me de plagiar uma música. Em pé, em cima do banco, desrespeita o sinal que nos obriga a apertar os cintos. Os motores do avião trabalham depressa, lá fora a pista parece mais rápida nas janelas, a fuselagem inclina-se, levantamos do chão quando uma garrafa atravessa os bancos e me acerta num joelho. Os outros convidados avançam para participar em mais uma cena de violência, começam a arrancar os bancos, a chicotear as assistentes de bordo, a morder as mãos de quem procura responder às agressões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sozinho, num banco de madeira, num mundo que já não é meu. Desagrada-me estar aqui. Os pilotos alertaram as autoridades e quando aterrámos esperavam-me umas algemas e fotos de frente, de lado, e outra vez de lado. Tenho o indicador da mão direita manchado com tinta. Espero que me venham buscar, porque eu não preciso de um castigo ou de uma morte para ser um mártir. Sou adorado. Há muitas pessoas que dependem de mim, daquilo que eu tenho para lhes dizer ou ensinar. Por minha causa, há paraplégicos que voltaram a andar, crianças com cancro que abandonaram camas de hospital, adolescentes que cancelaram um suicídio. Eu sou a salvação, a prova de que existe um mundo alternativo, só precisam de me seguir, de me obedeceder. Vocês são os meus filhos, as minhas cópias, seres infelizes que apenas conseguem fugir do mundo estragado onde vivem quando me ouvem cantar. Vocês precisam de mim para sobreviver. De outra maneira, matavam-se, ainda mais, todos os dias, com violência, até desaparecerem.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107049722533569530?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107049722533569530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107049722533569530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107049722533569530' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107041627247271611</id><published>2003-12-03T01:51:00.000Z</published><updated>2003-12-03T02:28:13.200Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;# 48, Wickoff Street, Apt 25, Brooklyn, New York &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;‘No hay dolor en la voz. Aquí solo existe la tierra.&lt;br /&gt;La tierra con sus puertas de siempre’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panorama Ciego de Nueva York, Federico García Lorca&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes que vivo sempre à frente, que subo todas as escadas a correr e que me imagino já a caminho de outro lugar. Para isso é preciso pouca bagagem, não olhar muitas vezes para trás, esquecer o valor dos objectos. Mas há imagens que transporto, que carrego, um peso nos pulmões, bocados no avesso da carne que às vezes me dificultam as palavras. Como quando desligámos o telefone, eu aqui, tu noutro continente. Começaste por falar da luz, dos teus alunos, e depois entrámos na inevitabilidade de estarmos longe. Somos pessoas que escolhem magoar-se em vez de viver enganadas. Não mentimos. E por isso cancelas a viagem a Lisboa, dizes que não poderias visitar-me, dormir comigo, para depois, uma semana depois, regressares a casa. Somos pragmáticos, dizemos, como se a palavra fosse um analgésico, ou uma absolvição. Ou continuamos: “É melhor assim”, ou, “Não vamos deixar de falar”, ou ainda, “Sabes que és muito importante”. E mesmo que tudo isto seja verdade pareço agora um insecto em redor de uma lâmpada, incapaz de fugir das imagens de antes, dos lugares comuns, às vezes ridículos, que afinal têm  todas as pessoas que fodem, ou que fazem amor, ou que dormem procurando a proximidade da pele do outro corpo na cama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que regresso ao teu apartamento. Cuidavas de mim, os copos de vinho, o queijo deixado sobre a língua, as pernas a abraçarem-me o corpo todo, uma tempestade sempre que estávamos na cama, o colchão em vez de lençóis, a mobília que mudava de lugar. Ou a tranquilidade da manhã – cuidavas sempre de mim– quando esperavas que acordasse, um jornal, o leite, o pão, o doce, os passeios nas ruas de Brooklyn, em cima do rio, quando sabia já que me ia custar tanto abandonar Manhattan. Pensei escrever sobre isto muito vezes, sobre o livro que me compraste no Upper West Side, o passeio por TriBeCa, observando as pessoas que trabalham nos escritórios até de madrugada. Mas sabes que prefiro carregar as imagens sem dizer nada.	&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque eu não quero escrever sobre mim, sobre o teu corpo cobrindo a cama, ou num jardim onde os cães saltavam para morder a água que saía de uma boca de incêndio, ou na ombreira da porta, admirando-me o sono:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“For my darling who is never at rest.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não és apenas tu, sou eu, o meu corpo todo à espera de outra coisa qualquer, menos isto, uma espécie de morte na rua, no outro lado da janela, pessoas que não sorriem, que viram a cara, esta cidade submersa, em câmara ardente, tudo aquilo que me prova que não quero viver aqui. Sinto-me um estrangeiro, mesmo que se fale a minha língua, aborreço-me, desagradam-me os costumes. Talvez eu seja um equívoco, um erro demográfico, e é por isso que me preparo para sair, levando um livro de Al Berto onde encontro:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Nasci neste país de água por engano.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque quando estou mal ando para a frente, não me enterro, não me mato, paro de me queixar e proíbo-me de escrever à volta do umbigo. Desculpa a enumeração das imagens, uma vez mais. Mas agora, para substituir tudo o que me incomoda – sei que é o antídoto mais fácil – quero apenas as tuas sandálias, os livros que espiava quando saías para comprar comida, o apartamento sem antena de televisão, a viagem de metro do Upper East Side até Brooklyn. Ou pelo menos a travessia que o meu corpo, com as mãos nos bolsos e as golas levantadas, fazia pela cidade, sozinho, à procura, à caça, encontrando sempre algo de improvável. Sei que amanhã estará tudo bem – cuidavas de mim – que vamos falar pelo telefone cada vez menos, e que escolherei outra cidade. Não te preocupes comigo. Lembra-te apenas de quando adormecíamos, com os músculos magoados, depois do sexo, e a cama, a ventoinha, as paredes, a humidade, o calor em Brooklyn, tudo tão branco. Era Agosto em Nova Iorque e a mesma música na sala. Disse-te que apenas ficava triste uma vez por ano. É verdade. E nem sequer é hoje.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107041627247271611?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107041627247271611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107041627247271611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_12_01_archive.html#107041627247271611' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-107000645090513974</id><published>2003-11-28T08:00:00.000Z</published><updated>2003-11-28T10:29:11.466Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Bang, Bang, My Baby Shot Me Down&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai era outro pai antes da Guerra. Garantiram-me que acordava cedo e que nunca começava uma refeição sem baixar a cabeça para o prato, fechar os olhos, e agradecer a Deus. Nas fotografias aparece sempre com um fato a apertar-lhe os ombros, talvez sem cor nos cotovelos, o avesso de um bolso por coser, um botão pendurado apenas por uma linha. O meu pai procurava a dignidade dos homens que pagam as contas antes do último dia do prazo, cuidava dos familiares doentes, abria a porta aos desconhecidos, dizia-me antes de me adormecer:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“És a filha mais bonita de sempre.”&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na Guerra descobriu um talento. Os médicos contaram trinta e duas pulsações a cada minuto e sabiam que o dedo nunca lhe tremeria no momento de disparar. Os oficiais confirmaram o génio de um soldado que acertava nos alvos que ninguém alcançava sequer com os olhos. O meu pai era um grande atirador, talvez o melhor, segundo os companheiros que continuam a escrever cartas, lembrando episódios onde deveriam ter morrido, oferecendo tanta gratidão que parecem estar de joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que o meu pai nunca fale do primeiro morto, os outros soldados recordam o milagre de clemência. O sargento H. estava no outro lado do rio, capturado por guerrilheiros que usaram uma faca para lhe cortar as orelhas. Cuspiam-lhe para a boca, riam-se, pediam-lhe a língua para limpar a sola das botas. Os dedos do sargento H. eram mostrados numa baioneta quando o meu pai encostou uma bochecha à espingarda, esvaziou os pulmões, escolheu o coração, e estreou-se na carreira de atirador profissional com uma morte por piedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cima de uma árvore, o meu pai nunca mais precisaria de uma família ou de um fato que se desintegrava nas mangas. Mantinha a cara manchada de lama e sabia-lhe bem esperar, confirmar a suspeita de alguém a aparecer entre a folhagem. Nunca errava uma morte, embora por vezes escolhesse uma perna e aguardasse o resgate do soldado ferido, acumulando vítimas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai descobrira a admiração dos outros sem qualquer penitência. Era tudo tão normal, ninguém rezava, nem havia contas para pagar. O respeito dos outros deixara de ser uma  consequência do cumprimento das regras. Quando regressava ao quartel, ofereciam-lhe álcool e prostitutas adolescentes que se despiam com a velocidade das mulheres. Os oficiais gostavam de encontrar heróis; esgotaram as medalhas com o meu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, apesar de repetir comissões durante anos, alguém acabou com a Guerra. O meu pai regressou a casa e lembro-me dos lençóis vomitados, de um canto do quarto que cheirava a urina, da minha mãe, segurando-lhe a cabeça que desaparecia na retrete, sem perceber que o meu pai só queria uma espingarda, um ramo de árvore. Nunca mais vestiu o fato, e passava as tardes a beber de garrafas que fazia explodir nas paredes da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes encontrávamo-nos ao amanhecer, quando me preparava para apanhar o autocarro. Eu lavava os dentes, e ele voltava a casa, reiniciando o ritual dos vómitos, com a minha mãe a amparar-lhe os desmaios e a esfregar alcatifa com um escova mergulhada num balde de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai precisava dos seus mortos, da espera, e por isso, nesse dia, encontrava-se no alpendre da casa, como se estivesse num ramo de árvore. O colega da minha mãe estacionou o carro e ajudou-a a transportar o sacos para casa. O meu pai atacou-lhe a traqueia. Depois enrolou os cabelos da minha mãe à volta dos dedos, arrastou-a até ao quarto e empurrou-lhe o céu da boca com o cano de uma pistola sem balas no carregador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai embebeda-se para ouvir os elogios dos outros soldados, ensina-me a manobrar armas, continua à procura de vítimas para prolongar a glória. E dorme com uma prostituta que esmaga a barriga numa cinta e que imita a voz de uma adolescente sempre que se deita de costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta estava aberta, e eu fiquei na ombreira, observando um bicho, o meu pai. Olhou-me mas continuou a apertar-lhe as mamas e a beber de uma lata de cerveja onde apagou um cigarro. Minutos mais tarde, entrou no meu quarto, nu, o corpo escorrendo suor, e atirou-me para a parede:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Andas a espiar-me sua putinha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai continua à procura de um morto, e é por isso que o corpo da minha mãe produz o som dos ossos quando se partem sempre que é lançada contra um móvel. Todos os dias acontece um ataque com as mãos. Mas hoje há uma arma, o meu pai em cima de uma cadeira, trinta e duas pulsações por minuto, o dedo sem estremecer sobre o gatilho, a mira a apontar para coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai ensinou-me a esperar antes de um disparo, a verificar o perímetro à nossa volta, a ter a certeza do órgão que queremos atingir. O meu pai era um grande atirador, talvez o melhor, mas agora esqueceu-se de olhar para trás, onde eu estou, uma bochecha encostada à espingarda, esvaziando os pulmões, com o coração a bater cento e vinte vezes por minuto:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Bang.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-107000645090513974?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107000645090513974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/107000645090513974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#107000645090513974' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106937652750510364</id><published>2003-11-21T01:02:00.000Z</published><updated>2003-11-21T01:08:08.250Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O meu gigante&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem vale a pena continuar a escrever, tudo isto é mentira, não existe, embora o telefone pressione uma orelha e o cabelo esteja preso entre a testa e o vidro da janela, árvores lá fora, neons com letras apagadas, os carros que abrandam para que as prostitutas imitem vírgulas de carne quando se debruçam sobre os clientes:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Carro ou pensão?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada disto é verdade, alguém inventou esta casa, a janela, todas as árvores lá fora, o telefone que insiste em aparecer nos meus dedos, ou mesmo a notícia de um joelho preguiçoso numa radiografia, sangue em tubos, em lapelas, em microscópios, a voz do telefone que ronda a superfície do medo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O médico disse-nos que é possível que ele tenha um cancro nos ossos.”&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Recuso-me a escrever, chega de inventar, mentir, não estás doente, não fizeste análises, não estiveste sentado numa marquesa, em cuecas, os ombros a cair para a frente, o joelho coxo a esconder a dor, como se fosses um miúdo que se levanta após uma rasteira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou bem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como não há dor, também não há consultório, nem as radiografias levantadas na direcção de uma lâmpada, ou sequer o médico com a sinceridade que os doentes pedem mas depois recusam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isto está muito feio. Vamos ver, mas talvez tenhamos que amputar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teu corpo cessou de ser enorme, encolheu junto dos objectos de metal que apenas servem para agravar a solidão dos consultórios. As tuas mãos – desde criança que conheci o teus dedos grossos – apertaram o pano que cobria a marquesa, começaste a chorar, embora eu não acredite, tu não choras, porque tu és velho e forte e homem, e conseguias levantar-me no ar para que eu alcançasse o estuque que me fazia cócegas na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os teus ossos eram imensos e sabíamos quando subias a escada, os passos  no mármore dos degraus, um assobio que se alastrava por todas as paredes do prédio e que  nos puxava para o corredor à espera da chave na porta. Entravas em casa, tiravas o chapéu, sentavas-te à mesa – nessa altura havia uma mesa para os adultos e uma mesa para as crianças – e eras grande, desculpa, continuas a ser grande. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois deixou de haver essa casa, ou os motores das ventoinhas na sonolência dos quartos, ou a família na varanda à meia-noite quando a meia-noite me parecia uma hora para adultos. Eu cresci, tu envelheceste, e só agora começo a compreender que os corpos se estragam e que nos comem por dentro, que as pessoas de quem gostamos se queixam de dores, que têm o nosso tamanho, que se esquecem, que choram, mas que não choram como as crianças; choram o desespero sem remédio de serem agora outra coisa qualquer, de serem menos, de serem bocados que se descolam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma destas manhãs, está combinado pela família, vou buscar-te a casa e vamos entrar no consultório. Há mais exames, máquinas, seringas – eu sei que nunca tiveste medo de agulhas. Se o joelho doer podes fazer de mim uma muleta, caso o médico insista na mentira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A amputação é uma possibilidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaremos os dois, de mão dada, comigo a falar-te outra vez da casa, da chave na porta, da sala onde encontravas as crianças que apareciam com as bocas preparadas para atacar-te as bochechas. Caminharemos na rua e podes chorar à vontade, segurar o meu braço se encontrarmos um degrau, dizer-me que estás cansado, que precisas de uma cadeira. Porque serás sempre maior, mais alto, o homem que sabe assobiar. Serás sempre o gigante para quem olhávamos desde o chão na esperança que nos pegasses ao colo e nos atirasses para o tecto do mundo. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106937652750510364?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106937652750510364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106937652750510364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106937652750510364' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106920176464687677</id><published>2003-11-19T00:29:00.000Z</published><updated>2003-11-19T10:30:04.420Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;And now for something completely different&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aterrou com as malas, um visto de trabalho e uma mulher grávida. Abandonara o Médio Oriente e um país onde as fronteiras mudavam todos os meses nos mapas revelados pelos satélites no espaço. A filha nasceu com o nome das mulheres altas e loiras e de olhos azuis. O documento que provava a existência de Helen garantia-lhe também a nacionalidade. Helen era uma criança a viver no mundo civilizado onde há assistentes sociais, luz eléctrica e casas com telhados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em família falava-se a antiga língua, mas havia a televisão onde se aprendiam palavras do novo idioma e a dedicação de Helen, depois da escola, na mesa da cozinha a ensinar os pais. Houve um quarto com casa de banho, depois um apartamento, e quando Helen e os irmãos estavam no liceu mudaram-se para uma casa com garagem, baloiços de ferro, um relvado onde havia abundância de bicicletas e brinquedos de plástico com autocolantes a confirmar a obediência às regras de segurança.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os colegas de Helen nunca a deixaram sozinha no recreio por causa das roupas tradicionais ou da comida que trazia de casa, os estranhos condimentos, cores a contrastar na palidez dos pratos. Os olhos escuros, negros, acentuados pela espessura das pestanas, eram elogiados pelas outras raparigas e os rapazes gostariam de experimentar-lhe o sabor da língua. Os pais eram respeitados na cidade. Proprietários de lojas, ofereciam comida aos mendigos, faziam trabalho voluntário nos hospitais, ajudavam a montar as iluminações de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helen estudou na universidade, conheceu um homem loiro com quem casou, teve filhos de olhos azuis e cabelo escuro. O marido representava uma organização que lançava caixas de comida em países com genocídios étnicos e crianças com fome que revelavam barrigas emergindo do corpo onde a pele se esticava nos ossos das costelas. Helen ofereceu parte da medula a uma prima doente. Trabalhava com advogados que defendiam pessoas sem dinheiro, visitava os pais todas as semanas e ajudava os filhos a prepararem-se para os exames. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Uma vez por ano, no aniversário do casamento com o homem loiro, reuniam a família, fechavam-se da crueldade do mundo nos jornais, rádio e televisão, corriam as cortinas e esqueciam os empregos, os doentes a suspirar dentro das máscaras de oxigénio, os livros descolados que se enviam para a escolas construídas na selva. Conversavam em duas línguas, misturavam hábitos alimentares, rezavam a todos os Deuses, recordavam apenas episódios que incentivassem o riso. E acabavam na sala, folheando o álbum de fotografias do dia do casamento, uma mulher escura e um homem loiro, mãos a brilhar anéis e bocas que seguravam palavras de eternidade. Estas pessoas eram saudáveis, tinham todos os dentes, acreditavam na inevitabilidade do amor e, claro, quando respondiam a questionários, afirmavam-se muito felizes.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106920176464687677?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106920176464687677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106920176464687677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106920176464687677' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106912535749959331</id><published>2003-11-18T03:15:00.000Z</published><updated>2003-11-18T11:20:15.466Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Um mapa do avesso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para o João Tordo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telefonam-me para dizer que ele regressou a Nova Iorque. Atiro um cigarro para os lábios, organizo os alimentos na bancada da cozinha. Quando partilhávamos esta casa não existia comida. Bebíamos durante toda a noite e o tabaco inibia a fome. Passávamos os dias a ver televisão. Quando se está numa cidade onde não se conhece ninguém, agarramo-nos às pessoas que se dedicam aos mesmos vícios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio de casa. Na estação ainda existe o telefone público onde nos encostávamos a beber, mesmo que fosse proibido. Na noite em que um polícia se aproximou, ele disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está muito calor, o senhor devia compreender.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o polícia nos pediu os documentos, esperámos o som que anuncia o perigo das portas que se fecham e corremos para a carruagem. Encostámos a cara e os dedos no vidro. Levantámos as garrafas como se quisessémos brindar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuto as ruas outra vez. Na esquina da Spring com a Elizabeth Street admiro as pessoas numa esplanada. Naquelas mesas descalçávamos os sapatos e espreguiçávamos a coluna vertebral, intercalando as bebidas com as mulheres que passeavam as pernas e com os projectos que não cumpríamos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alugamos um carro amanhã. Tenho a certeza que conhecemos alguém com uma casa na praia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas acabávamos por ficar colados à cidade, copiando as noites e conhecendo raparigas sem dinheiro que dormiam em colchões sem lençóis. Num bar da Greene com a Houston chegávamos de madrugada. Transformou-se numa lavandaria. Encosto os olhos às montras. Onde as máquinas fazem tremer agora pares de calças costumávamos fascinar pós-adolescentes com relatos de viagens à volta do planeta, a utilização do corpo, a contestação à ordem. Mas quando faltavam as mulheres e apenas havia bêbedos entornando-se nas mesas, deixávamos de conversar. Podíamos ficar calados. Não precisávamos de explicar nada um ao outro. De manhã entrávamos em casa, trazíamos comida da rua e adormecíamos no sofá com os olhos a arder do fumo e das imagens que se acendiam no ecrã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois apareceu uma mulher, com nome, profissão e mesmo algum dinheiro. Os planos mudaram. Ele começou a falhar-me quando era necessário insistir no álcool diante de uma mesa com copos vazios – sozinho, é mais difícil beber ou convencer raparigas quando nem conseguimos tirar as chaves do bolso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo os cães e os donos em Washigton Square. Alguns devem ter morrido, mas outros continuam a correr, derrapando na areia. Os traficantes oferecem erva aos turistas que arrancam fotografias no momento em que um esquilo reduz a velocidade e olha para a máquina. Nessa tarde deixámos de pontapear pombos ou engolir vodka e sumo de tomate depois de acordar. Ele anunciou-me a desistência do álcool e o rigor das manhãs de ginástica. Essa mulher queria que encontrasse uma carreira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se pode viver assim para sempre, temos que construir alguma coisa:”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recusei convencê-lo. Os amigos não fazem chantagem. Mas também não se despedem. O pudor que nos amordaçava as emoções era a derradeira prova da nossa amizade. Por isso calámo-nos. Ele começou a retirar a roupa do apartamento. Ficou apenas um casaco na cadeira. Ainda saímos algumas vezes com as amigas dessa mulher, mas apodrecíamos, inventávamos conversas para agradar a audiência. Sempre acreditei que ela conhecia demasiadas pessoas para se dedicar a um homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareci no apartamento da Horatio com a Greenwich Street. O porteiro anunciou-me pelo telefone. Quando a porta recuou sabia que tudo seria fácil porque ela nunca se apaixonaria. Disse-lhe que estava ali para entregar um casaco. Às vezes o sexo é tão fácil. Recebi na mão uma bebida, observei os livros, ouvi-a no banho, encontrei-lhe um mamilo que escapava à protecção da toalha enrolada no corpo. Bastou um golpe de dedos para que ficasse nua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo dia, encontrei-me com ele, Grant e West Broadway. Cuspiu-me na cara, atirou-me gelo, depois um copo, rasgou-me uma sobrancelha. Agarrou-me no pescoço e esmagou-me a cabeça contra a mesa. Nunca levantei as mãos. Os outros clientes ergueram-se mas regressaram às cadeiras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os amigos não fazem isso aos amigos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixámos de falar. Para sempre. O silêncio que era companhia tornou-se distância. Imaginei um período de luto. Depois regressei aos amigos, casei-me, escolhi ter filhos. Mas custa-me confiar nas pessoas, saber que se podem destruir. As minhas amizades são agora celebradas em encontros com adultos que comentam livros, mobiliário e que nunca procurariam pontapear pombos em Washington Square, passar dias a gastar garrafas ou a elevar o volume do riso quando todas as outras pessoas se calam.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao telefone, garantiram-me que, depois de anos na Europa, ele se mudou para o prédio onde habitámos um terraço, com bailarinas da Broadway, durante vinte dias de Agosto. Dormíamos em colchões insufláveis, ouvíamos rádio e regávamos o calor com uma mangueira. Esta tarde vou esperar nos degraus. Trouxe cigarros. E mesmo que todos os vizinhos me digam que é proibido, começo a abrir as garrafas, porque, apesar da idade, ainda me custa beber sozinho. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106912535749959331?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106912535749959331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106912535749959331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106912535749959331' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106877293146233344</id><published>2003-11-14T01:22:00.000Z</published><updated>2003-11-14T01:32:13.936Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Três retratos de amor temporário em Nova Iorque&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. &lt;br /&gt;Não me lembro como nos conhecemos mas dançaste com o meu amigo durante  toda a noite. Eu deixo sempre as certezas para o final, e por isso aparecia apenas para acender um cigarro ou intensificar a bebedeira. Acabámos a falar outro idioma porque viveste em Buenos Aires. Atravessámos TriBeCa quando ainda era de noite e os táxis riscavam a tranquilidade dos prédios onde dormiam pessoas. Não me apetecia falar porque a língua demorava a mover-se e havia espaços em branco a substituir as palavras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo que amanheceu encontrei uns óculos escuros e seguraste o meu braço como fazem as mulheres que se querem casar. Entrámos num supermercado onde observei as tuas pernas quando esticavas o corpo para alcançar uma caixa nas prateleiras. Não conseguiste o que procuravas e pediste-me ajuda. Gostei tanto de saber que precisavas de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã cedo o sol parecia fresco. Na rua, entre tantos prédios, podia ver-se o Empire State e a luz que reflectia para toda a cidade. Dançámos na estrada até que parasse um táxi. Mesmo antes de entrarmos subi-te a saia, mas não nos beijámos. Eras tu que tinhas os óculos escuros. Podias estar a caminho de uma sessão fotográfica, ou ser famosa, ou apenas mitómana. Depositaste as botas sobre as minhas pernas. Disseste que estavas segura que eu gostava de mulheres que fodiam quando chegavam a casa de manhã. E não me deixaste dormir no teu apartamento. No dia seguinte pediste-me que te levasse comida. Estavas sozinha e tinhas medo de morrer com uma constipação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive ciúmes, mas irritou-me o número de músicas em que simulaste prazer quando dançavas para o homem de óculos. Levantei-me e os meus amigos observaram-me. Agarrei-te na mão e perguntei se gostavas de mulheres. Contaste-me que tinhas uma namorada. Queria acreditar em tudo o que dizias e por isso ordenei-te que escolhesses outra bailarina e que dançassem para mim, tocando-se, como se fosse verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acabaste a dança ficámos a conversar. Vivias no Canadá e estavas a caminho de Los Angeles. Tinhas sardas no peito e os dedos sobre as minhas calças. Sempre que me aproximava, para que a minha voz cobrisse o ruído da música, podia cheirar-te os ombros. Gostava de levar-te para casa, nessa noite, e nunca pediria para deixares de dançar por dinheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começaste por executar o número tradicional que engana os clientes, acariciando-me as mãos, produzindo elogios que deveriam funcionar com homens velhos, sozinhos, ou apenas idiotas. Respondi-te que sabia o que valiam os meus olhos e que conhecia o exacto tamanho do meu sexo. Não era segurança que procurava. Quando regressaste ao trabalho, estavas em pé, os joelhos encostados ao sofá, como se aguardasses uma pergunta. Ensaiavas a postura das pessoas que procuram autorização para aquilo que lhes foi proibido. Não disse nada e voltaste a dançar com o homem de óculos. Quando acabei a bebida e cortaram a música disseram-me que já tinhas apanhado um táxi para casa. Agora estou certo que querias que perguntasse o teu nome. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Gostavas de fumar erva antes de abrires os braços na cama, o que apenas acentuava a cor da tua pele, o ventre depilado, a suavidade da carne. Parecias uma mulher adulta sempre que me chamavas para a cama. Mas assim que desprendíamos os corpos rolavas para junto da parede e explicavas que não estavas acostumada a dormir com outra pessoa. Não sabias sequer partilhar o lençóis ou as almofadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã acordavas cedo. Limpavas a casa mas sem me despertar. Não havia quase nada para conversarmos – eu achava-te uma criança, tu dizias que eu não me dava a ninguém. Mas quando nos encontrávamos à noite apetecia-nos beijos, os cotovelos a esfolarem-se nos lençóis, os músculos cansados. Depois acendias outro cigarro de erva e ouvia-te respirar. Fazia muito calor, cada corpo ocupava uma parte da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era quase impossível encontrarmo-nos durante o dia. Acordava e dizia-te que tomaria banho quando chegasse a minha casa. Vivias longe de Manhattan. Eu avançava dentro de um comboio onde as pessoas se preparavam para trabalhar. Doíam-me os braços e precisava de dormir. Não queria ver-te. Mas à noite telefonava-te para provar – para não perder o teu corpo – que queria saber o que fazias durante o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um momento em que poderia ter-me apaixonado por ti. Estávamos em Union Square e ainda havia luz. Compraste uma garrafa de sumo. Depois contaste-me que no teu país – onde faz muito frio – nunca oferecem palhinhas quando se compra um sumo. Se alguma vez deixasses Nova Iorque e regressasses à tua cidade gostarias de explicar às pessoas a necessidade das palhinhas. Quando anoiteceu apenas pensei na tua boca. Era demasiado ridículo enternecer-me, outra vez, com a intensidade que dedicavas às palhinhas. Escreveste-me esta semana, estás no teu país. Às vezes ainda penso em visitar-te. Mas reconheço que apenas conseguriamos existir à noite, no banco de trás de um táxi, ou num apartamento, onde o teu corpo se tornava intermitente com as luzes do néon publicitário no outro lado da rua. Seremos sempre as pessoas que se mordiam, na cama, numa cidade onde as sirenes das ambulâncias furavam o calor para encherem todas as paredes de um quarto. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106877293146233344?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106877293146233344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106877293146233344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106877293146233344' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106859690221657671</id><published>2003-11-12T00:28:00.000Z</published><updated>2003-11-12T00:28:19.646Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Revolución = Muerte&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é uma evidência todos deveriam compreender. Cuba é uma ditadura, liderada por um assassino, onde as relações humanas foram desvirtuadas. Tudo isto é claro, simples, sem contestação. É por isso que me surpreendo diante das confissões de figuras públicas que ainda se fascinam com a imagem de um ditador, apresentando-o como um combatente e uma vítima, quando Fidel Castro não passa de um criminoso.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prová-lo está o homem que me espera nos sofás de um hotel com nome propagandístico, embora seja um nome que mente – Hotel Habana Libre. Tem um livro na mão, ‘Perversiones en el Prado’, um dos romances que escreveu e que se alegra de estar traduzido e publicado em vários países da Europa. É um livro pequeno, com uma capa feia que o faz parecer velho. Mas é o seu romance. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel Mejides é especial, diferente dos cubanos normais. Publica livros e continua a ser apresentado ao mundo, pelo regime, como prova da liberdade de expressão que existe em Cuba. Tem uma casa equipada com ar condicionado, oferecem-lhe dinheiro para as viagens de promoção, é proprietário de um computador e de um endereço de e-mail. Mas aquilo que é um privilégio para o escritor, em Cuba, deveria ser normal, nunca uma excepção, nem sequer um prémio por obediência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos e a cabeça do escritor move-se a indagar potenciais ouvintes. Mesmo que esteja autorizado a entrar num hotel de turistas – a maioria dos cubanos não pode sequer aproximar-se da entrada – mostra-se desconfortável. Conversa na sua língua diante de funcionários que serão sempre possíveis delatores. Tentamos o francês, mas tropeço nas palavras. Decidimos, por isso, atravessar o calor das ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cortamos a densidade do ar de Havana com os corpos. O cheiro da gasolina entranha-se na roupa e mistura-se com a humidade que empasta os cabelos. Miguel Mejides anda devagar, sabe o caminho, nunca se perde. Espanta-me o seu conhecimento da literatura portuguesa, as impressões cinemáticas de Lisboa, os comentários que comparam e diferenciam escritores – os cubanos, ao contrário de Miguel Mejides, não sabem quase nada do mundo, imploram aos turistas revistas estrangeiras, mesmo em línguas que desconhecem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamo-nos para comer, beber cerveja, repetir cigarros sem filtro que magoam os pulmões. Por alguns momentos rodeamos os temas que o podem comprometer. Falamos de mulheres e do ofício da escrita. Miguel Mejides vive na desorganização de Havana mas adora a ordem de Viena. Depois acabamos por saltar para a Revolução. Mas nunca ataca o regime, faz algumas correcções, sempre com o mesma complacência que um filho desculparia os erros de um pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho o jornal oficial sobre a cama. Estou num quarto de hotel. As crianças – los pioneros – discursam na televisão com o mesmo ritmo do líder, as suas cabeças construídas pela propaganda. Conheci famílias que comiam à vez porque não havia pratos para todos. Caminhei em passeios onde adolescentes magras se ofereceriam na rua quando me mostravam a língua. Os seus irmãos procuravam vender-me todos as mulheres da vizinhança. Recordo ainda a amiga que fui visitar, espanhola, branca, uma mulher adulta que tinha que fazer entrar o namorado, cubano, preto, pela janela do quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Fidel Castro conseguiu foi destruir pessoas em nome de ideias. Em Cuba vive-se com medo. A confiança deixou de existir. Uma mãe pode denunciar um filho. O que era anormal tornou-se normal. A prostituição é um meio válido para a ganhar dinheiro porque não existem alternativas. Um indivíduo não pode abrir um negócio, sair do país, arrendar um apartamento. O engano, a ilegalidade, a mentira, passaram a ser mecanismos comuns para garantir a sobrevivência. Descobri que ninguém – caso vivesse em Cuba – poderia afirmar-se acima desta inevitabilidade. Qualquer um de nós se transformaria numa puta ou num informador do regime. É por isso que desisto de fazer juízos sobre as escolhas de Miguel Mejides.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuso qualquer argumento que defenda Fidel Castro. A revolução de  1959 – que livrou Cuba de um homem corrupto e tirano – nunca será suficiente para justificar os fuzilamentos, os campos de trabalho, a perseguição aos homossexuais, aos escritores, aos que gostam de pensar sem a doutrinação de um Estado. Fidel Castro é um criminoso que privou os cubanos dos seus direitos naturais, e perante esse impedimento de nada lhes vale o alto nível de educação, o acesso à saúde, a gloriosa resistência ao capitalismo. A origem da dignidade e da liberdade humana foi destruída. Sem os direitos naturais qualquer conforto é enganoso, qualquer conhecimento é inconsequente. Não foi o embargo – imbecil e anacrónico – que transformou Cuba num lugar parado no tempo e isolado do mundo. A culpa é de Fidel Castro. A perseverança, a resistência, o carisma, a imagem de um rebelde a descer a Sierra Maestra para libertar o povo não me me convencem. Até porque sempre houve assassinos que foram confundidos com heróis.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106859690221657671?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106859690221657671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106859690221657671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106859690221657671' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106851056074352278</id><published>2003-11-11T00:29:00.000Z</published><updated>2003-11-11T00:46:00.536Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Por minha culpa, minha tão grande culpa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;O polegar da minha mãe procura saliva na língua e depois avança para a minha boca. Limpa-me os cantos dos lábios, enquadra-me o queixo entre os dedos, paralisa-me a cara  de forma a procurar algum erro que possa corrigir. Hesita um instante antes de prosseguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tu não puseste baton pois não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O procedimento repete-se com a minha irmã mais nova. Há um risco a destoar no brilho dos sapatos e a minha mãe gostaria de magoar-lhe a cartilagem da orelha. Mas os outros convidados para a ceia do Senhor cumprimentam a família e elogiam-nos a altura, a beleza e as roupas. O meu pai espera-nos mais adiante, pronto a intervir caso as filhas se demorem a cumprir as ordens da mãe. Avançamos, sempre com a obrigação de caminharmos como se levitássemos. Na casa do Senhor os sapatos não têm solas. Os meus pais gostariam que fossemos anjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e a minha irmã sabemos mover a boca como se cantássemos mas sem dizermos uma palavra. Toda a congregação entoa os pecados dos homens e o castigo do Senhor. Este é o nosso terrorismo, abrir a boca sem cantar, viciar a obediência, afinal, tudo aquilo que o Senhor e os meus pais odeiam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso-me. O padre é a escuridão na forma de um homem atrás das grades de madeira. Quase não se ouve. Estou de joelhos e tenho que aceitar-lhe a autoridade que punirá as minhas omissões. Invento pecados que confirmem a minha condição de ser insuficiente. Mas nunca aqueles que me garantam uma penitência onde esteja de joelhos, por muito tempo, rezando ao Senhor diante dos convidados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após cumprir a pena, espero atrás dos outros, até chegar à mão do padre, oferecendo a língua e aceitando o corpo do Senhor – sem sal, mole, seco – que colo ao céu da boca. Regresso aos bancos onde o meu pai é o único elemento da família que não reza sobre os joelhos. Os homens têm outra dignidade diante do Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;O almoço é um ritual de guardanapos sobre as pernas e conversas em que raras vezes contribuímos com uma frase. O meu irmão chega atrasado e o meu pai não responde ao beijo, continuando a levar a colher da sopa à boca como se o lugar da mesa que restava ocupar ainda estivesse vazio. O meu irmão nunca acabou a licenciatura e vive numa outra casa com uma mulher divorciada. A minha mãe levanta-se e deixa escapar a ternura que a distância fez crescer, abraça-o, mas depois exige-lhe que se sente à mesa e que comece a comer. Grita com a empregada em vez de gritar com o filho. Há copos em falta e um garfo com um dente sujo. Há ainda os filhos da amante do meu irmão, crianças que nunca serão da nossa família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou estudar para casa de uma amiga. Tenho tudo o que preciso dentro de uma mochila. Posso chegar a casa mais tarde. Estou a preparar-me para os exames. Os meus pais falaram com a mãe da minha amiga. E o meu pai leva-me, autorizando-me a viajar no banco da frente. Além de duas perguntas sobre a matéria que vamos estudar, não conversamos durante todo o percurso. Não temos nada para dizer um ao outro. O meu pai vê-me a tocar à campainha, espera que o portão da casa se abra. Depois certifica-se que entro no jardim e volta a ligar o carro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Em vez de um dedo molhado com saliva, tenho um guardanapo de papel a eliminar o excesso de baton nos cantos dos lábios. A irmã mais velha da minha amiga ocupa-se da maquilhagem e empresta-nos alguns acessórios. Dias antes, ao telefone, imitou a voz da mãe – de férias – quando garantiu aos meus pais uma tarde de estudo. Tenho uma t-shirt que mostra o umbigo e umas cuecas que se revelam acima da cintura das calças. Vejo-me ao espelho e encontro um piercing falso no nariz. Vou dançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pó branco está dentro de uma bolsa de plástico. É entornado sobre a capa de um livro. Estamos num carro, faz sol e alguém ordena:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Faz agora que não está ninguém a olhar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como me ensinaram, aperto uma narina com um dedo e aspiro – através de uma palhinha às riscas – o pó branco pela outra narina. Depois mudo de lado. Mas no intervalo há lágrimas nos olhos porque parece que me estão a queimar o interior da cara. Saímos do carro e acendo um cigarro. Apetece-me beber e conversar. Ouvimos já a música da festa. É preciso ter o nome na lista. Estamos com a irmã da minha amiga. Vamos entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Domingo à tarde e as pessoas devem estar em casa, ou em parques, ou a prepararem-se para os exames. Mas aqui todos se viram para o DJ, reconhecendo-lhe o talento através de assobios, levantando os braços, saltando de olhos fechados. A minha amiga leva-me à casa de banho. Não há trinco. Encostamo-nos à porta e ela despeja mais pó no espaço de carne que fica entre o polegar e o indicador. Depois cheiramos e lambemos o que sobra colado à pele. Quando fumo outro cigarro tenho a boca dormente. Sempre que levo um copo à boca julgo que os dentes incisivos vão cair. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criámos uma rotina. Depois do pó na casa de banho, corremos para o bar, pedimos uma bebida, acendemos um cigarro e mudamos para a pista. A minha amiga ordena-me que não toque no nariz e pergunta-me – pergunta-me vezes sem conta – se tem restos de pó nas narinas. Dançamos e há homens e mulheres que me olham e que se colam ao meu corpo quando querem chegar ao outro lado da pista de dança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após algumas viagens à casa de banho deixamos de ver a irmã da minha amiga. Estava sentada num sofá, fumando cigarros de erva e encostando a cabeça a uma almofada enquanto um rapaz lhe lambia o pescoço. Ela desapareceu mas não tenho medo. De cada vez que cheiro o pó branco sinto-me melhor. Só existe a pista de dança onde as outras pessoas não deixam de reparar no meu corpo. Tocam-me, riem, oferecem-se. Nada de mal me poderá acontecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;Não temos mais pó branco, algumas pessoas começam a abandonar a festa e o carro da irmã da minha amiga não está no parque de estacionamento. Não sei o que fazer mas incomodam-me as conversas dos outros. A minha amiga quer regressar à pista de dança. Já não preciso de companhia. Começo a andar até que apanho um táxi. Abro a janela, fecho os olhos, não consigo controlar os maxilares. Mordo-me. Há uma ansiedade que cresce na barriga e que se expande pelo peito. Consigo provar o pó branco na garganta. Apetecia-me estar em todo o lado, sem falar com ninguém. Os meus olhos no retrovisor crescem sempre que me procuro no espelho. Empurro os dentes contra os dentes, cada vez com mais força. Isto nunca vai acabar. Pago, fecho a porta, caminho depressa, tão depressa que posso escutar a minha pulsação cardíaca dentro da cabeça. Entro em casa e as luzes estão apagadas. No meu quarto esfrego a maquilhagem na roupa que cheira a fumo e escondo tudo num saco de plástico. Sinto muito frio. Não me atrevo a lavar os dentes. Ardem-me os olhos e começo a ficar muito triste. Tenho medo. Cubro a cabeça com o lençol e cobertores. Não consigo dormir. Escuto um colchão e pés sobre o soalho. Depois um autoclismo e uma torneira. Procuro fechar os olhos – ardem-me ainda mais – mas tudo se mantém luminoso. A porta abre-se, alguém espreita e regressa ao corredor. Estou certa de que não conseguirei dormir até de manhã. Posso mesmo mastigar a angústia dentro da boca manchada pelo álcool, cigarros e restos de pó branco esfregados nas gengivas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a minha culpa, como se passasse os dias a mover os lábios, fingindo, desobedecendo, em vez cantar palavras de louvor. Ensinaram-me a temer o Senhor e este é o começo do meu castigo.  Porque o Senhor está em todo o lado. Os meu pais estão em todo o lado. Glória a Vós Senhores.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106851056074352278?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106851056074352278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106851056074352278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106851056074352278' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106816559546842535</id><published>2003-11-07T00:39:00.000Z</published><updated>2003-11-07T00:39:53.323Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;I’m too sexy for my shirt&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois há um instante em que suspendo a respiração, silenciosa, no centro da casa, esmagando o estojo de maquilhagem entre os dedos. Se corresse o fecho, fosse rápida, acertasse no risco do olhos, talvez conseguisse aparecer na janela do prédio. O meu corpo estaria escondido, sem que fosse visível qualquer prega de gordura a transbordar do elástico da cinta. Lá em baixo, no momento de abrir a porta do carro, ele olharia para a janela. E eu seria apenas cara, sem borbulhas, com os lábios insuflados pelo baton, escondendo nos bolsos as mãos redondas de carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada acontece, escuto a porta do carro e o motor vai desmaiando com a distância. Custa-me mover o corpo. Talvez tenha algumas costelas partidas. Sempre que os meus pulmões crescem há um ruído de loiça a estalar. Fico assim durante algum tempo, observando as luzes do carros a evoluir no tecto da sala até que desaparecem e não se escuta mais nada, talvez apenas um cão e os ramos das árvores com o vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estou não consigo ver o espelho mas imagino o meu corpo ainda maior. Sempre a aumentar. Olho as minhas mamas moles e com grandes círculos castanhos. A linha que limita os mamilos é rugosa. O meu umbigo é saliente. Um semi-círculo de pele a sobressair no centro da barriga. Agarro uma das almofadas do sofá e limpo o suor do saco de gordura que liga o queixo ao pescoço. Dói-me cada vez mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso em telefonar a alguém mas é muito tarde, talvez ao rapaz que, ao passar pela minha secretária, repete todas as manhãs a certeza de existirem semelhanças entre mim e uma actriz de cinema. Tenho a fotografia dela numa moldura, um rectângulo de papel que recortei de uma revista. E claro que até somos parecidas, qualquer coisa nos olhos, ainda mais agora que usamos o mesmo lápis. Cada dia que passa o rapaz garante-me que estou mais próxima da actriz, são os sapatos que me cortam os calcanhares e incham as veias das pernas. Ou os soutiens que me magoam nas costas. Dispo-me à noite e a roupa interior está marcada na gordura branca do meu corpo. Comprei comprimidos para eliminar as borbulhas, arranjo os pés, deixei de comer antes de ir para a cama, sou proprietária de uma máquina de ginástica. E cada vez com mais frequência o rapaz afirma que me pareço com a actriz. Esta semana mostrei uma revista à minha cabeleireira, apontei para a fotografia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero o corte de cabelo dela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto falava para a minha imagem no espelho, manobrando uma tesoura, a cabeleireira confessou-me que o meu cabelo era mais lustroso do que o cabelo da actriz. Por isso comprei um anel que me aperta o dedo e que tive de lamber – depois entornei sabão líquido na prata – para que deslizasse sobre as falanges e me deixasse de magoar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje o telefone tocou tarde, estava na cama, as unhas dos pés brilhando verniz e separadas por bolas de algodão, caminhei sobre o calcanhares até ao aparelho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas é muito tarde amanhã tenho que trabalhar cedo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse-me que isso não interessava nada, que os amigos tinham ido para casa e que precisava de companhia. Mesmo que o soubesse bêbedo – sempre que bebe tem vontade de me agarrar e de fazer amor sem protecção – disse-lhe para aparecer mas que descalçasse os sapatos antes de subir as escadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei que poderia experimentar a roupa nova, a mesma que a actriz vestia esta semana quando falava na televisão. E ele, ao ver-me, apagaria um cigarro para me dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estás linda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao abrir-lhe a porta agarrou-me no pescoço, não me beijou, a língua entrava-me na boca e sabia a álcool, marcou-me as nádegas com os dedos, desapertou as calças e mostrou-me o sexo, puxou-me os cabelos até que me ajoelhasse e empurrou-me a cabeça, ocupou-me a boca, não conseguia respirar, sentia-me a asfixiar, quase vomitei. Depois rasgou-me a camisa, mandou-me virar de costas, não me despiu, afastou a saia, as cuecas, continuou a controlar-me pelos cabelos, esbofeteou-me e mordeu-me a cara, bateu-me nas costas e quando ejaculou abriu-me golpes nas coxas com o tamanho das unhas. Levantou-se e parecia recuperar a sobriedade, vestiu as calças, lavou a boca, ainda circulou pela sala como se andasse à procura de alguma coisa que tivesse medo de esquecer, mas evitava olhar para o meu corpo na carpete, como se tivesse nojo, como se depois do desejo me tivesse transformado numa outra mulher. Saiu sem dizer nada. E agora estou no chão, a minha pele com sangue pisado e o meu sexo sujo. Ainda tenho um sapato calçado, a maquilhagem deve ter desaparecido, misturada com saliva, dói-me muito, custa-me trazer ar aos pulmões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do carro, o motor, um cão, os ramos das árvores. Mas se conseguisse levantar-me, abrir o estojo de maquilhagem, ver-me ao espelho, esconder o tamanho do corpo, mostrar apenas a cara na janela, talvez ele desse a volta e, com os sapatos na mão, me pedisse para lhe abrir a porta. Talvez ele compreendesse, como o rapaz do escritório, que eu me pareço mesmo muito com a actriz da fotografia na moldura.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106816559546842535?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106816559546842535'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106816559546842535'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106816559546842535' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106799094073091134</id><published>2003-11-05T00:09:00.000Z</published><updated>2003-11-05T22:44:28.143Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Desculpem, senhoras e senhores, mas é verdade &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses – em particular os que vivem nos centros urbanos – são mal formados. Aquilo que sempre desconfiei é agora uma certeza. E nem o risco de produzir uma generalização me impede de afirmar que os portugueses sofrem de falta de educação, civismo e simpatia. Confundem arrogância com boas maneiras, julgando que tratar mal os estranhos lhes garante uma superioridade social que nunca poderei aceitar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canso-me da antipatia das pessoas nas ruas e de todos aqueles que não sabem agradecer sempre que lhes abro uma porta. Incomodam-me as pessoas que maltratam os empregados e os empregados que julgam estar a fazer um favor aos clientes. Assusto-me com o número de condutores bêbedos, aceleras, e com as mortes que provocam na estrada. Evito perguntas a estranhos porque quase sempre suspeitam da abordagem, como se fosse um crime falar com quem não se conhece. São episódios idênticos que se repetem todos os dias. A má formação é uma certeza que já ninguém contesta. Tornou-se normal, faz parte da casa, como se apenas nos restasse aceitar o que está errado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses – salvo algumas excepções – andaram de cabeça baixa durante meio século de ditadura, sempre conformistas e pouco dados a revoluções sociais, políticas ou económicas. Viviam bem com um ditador provinciano, isolados do resto do mundo, dependentes do Estado. A prová-lo está fraca história de oposição – se não contarmos com as acções do Partido Comunista não houve quase ninguém para contestar o regime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas em menos de 20 anos, após a Revolução, viram-se a conduzir bons carros em auto-estradas, descobriram as maravilhas dos electrodomésticos, começaram a viajar para destinos tropicais com pulseiras coloridas que lhes garantem consumo sem limites em hotéis à beira da praia. Acontece que a estrutura mental, essa, quase não mudou. Portugal continua longe do resto do mundo civilizado – embora não acredite. Temos alguns dos meios mas não temos a formação. E o resultado vê-se nas pessoas que ensaiam uma pose para compensar a ausência de conteúdo, como se uma casa com três assoalhadas lhes escondesse as insuficiências no comportamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses continuam também a ser pessoas com baixa auto-estima – em parte porque são maus naquilo que fazem – temos a mais baixa produtividade da UE – e para esconder essa pobre auto-estima protegem-se com o que têm para mostrar. Começa aqui o novo riquismo que tem como sintomas a prepotência, a ostentação e uma aridez de ideias, princípios e senso comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a má educação dos portugueses tem alvos  preferenciais – todos os desconhecidos ou aqueles que estão abaixo na hierarquia social, financeira, ou profissional. Porque diante de figuras públicas rendem-se, esticam as mãos para cumprimentos, fazem vénias aos senhores doutores e chamam Senhor Presidente aos dirigentes dos clubes de futebol. Os que assobiaram o primeiro-ministro no Estádio da Luz fizeram-no porque eram parte anónima de uma multidão. Aposto que se Durão Barroso lhes aparecesse em casa, com a sua comitiva, abririam a porta, sorrindo, para depois convidá-lo a entrar. A subserviência com os mais poderosos revela apenas a fraca capacidade contestatária e de iniciativa individual dos portugueses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é mais grave nas classes altas e piora com os seus imitadores – as cópias serão sempre mais medíocres que os originais. Sendo as classes altas conservadoras por natureza, escolhem a sobranceria e a má educação para criar distância quando confrontadas com pessoas desconhecidas ou outros estilos de vida. Querem preservar um universo que, apesar de limitado, lhes parece a melhor maneira de existir. Tudo o resto não presta. Estas são pessoas com dinheiro e com acesso à educação que poderiam viajar ou estudar no estrangeiro mas que preferem fazer o circuito estival de Vila Nova de Mil Fontes/ Quinta do Lago/ São Martinho. São pessoas que se parecem demasiado com os pais e com os avós e que não autorizam qualquer espécie de progresso. Sofrem de um autismo profundo. Recusam que há diferentes, e se calhar melhores, maneiras de viver. São pessoas que julgam que o dinheiro – visitem Nova Iorque, Saint Tropez, Londres, para verem o que é realmente dinheiro – ou a antiguidade lhes permitem maltratar todos os que não existem segundo as suas regras. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um amigo que chegou de Cannes falava-me sobre as mulheres que conhecera e concluiu o relato com um raciocínio comparativo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As mulheres em Cannes têm o dobro da qualidade e metade da arrogância das mulheres portuguesas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O raciocínio embora pareça prosaico serve de exemplo. Porque enquanto continuarmos a ter a pior das enfermidades – a auto-indulgência – não mudaremos. É preciso identificar o que está errado em vez de acreditarmos que estamos no caminho certo – porque não estamos. É  necessário evitar as desculpas com o passado ou com o atavismo cultural, porque há coisas que são universais – a boa educação é uma delas. O desenvolvimento, o civismo ou a qualidade de vida não deveriam depender apenas da cultura de uma nação. E nem valerá a pena dizerem-me que em determinado país é pior – eu, pelo menos, gosto de comparar-me com os melhores. É por isso que não aceito a auto-indulgência. Não aceito que me digam que não faz mal fugir aos impostos ou chegar atrasado a um encontro uma vez que em Portugal é assim. Em Portugal – como nunca ninguém paga pelos erros – o “é assim” serve de argumento para todas as falhas. Mas como não me satisfaço com justificações que apenas incluam: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É assim.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuarei a escrever, a falar, a questionar, com a boa educação que julgo ser normal na convivência entre pessoas, mesmo entre pessoas que nunca se conheceram e que nunca mais se voltarão a encontrar. Bom dia e muito obrigado.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106799094073091134?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106799094073091134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106799094073091134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106799094073091134' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106790564869114139</id><published>2003-11-04T00:27:00.000Z</published><updated>2003-11-04T00:37:37.300Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Your name is not Lolita&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não existem muitas pessoas como eu. Pessoas que procurem outras pessoas em lugares tão improváveis como livrarias. As minhas tardes são agora vigílias passadas entre corredores de livros. Por vezes ocupo-me com uma capa, a biografia do autor, ou mesmo algumas páginas. Todos os dias procuro a mulher que aparece agora pela primeira vez, depois de várias semanas, segurando uma caixa cor-de-rosa e acompanhada pelas amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecemo-nos numa festa onde havia gansos de gelo e pessoas que se fascinam com animais esculpidos em água. São pessoas que se repetem na roupa, nas pausas, nos nomes, gente que se gasta mesmo antes de chegarmos ao fundo do copo. Nessas festas vou muitas vezes buscar mais uma bebida ou levanto a cabeça como se procurasse alguém que deveria estar ao meu lado. Finjo encontrar um amigo na varanda apenas para não estar imóvel. Demoro-me junto das garrafas, avaliando os rótulos, como se não soubesse o que quero beber. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, procurava alcançar a área mais escura da sala quando encontrei uma mulher que fazia o percurso inverso, no outro lado dos sofás, e que continuou a olhar-me, sem o receio de bater com um joelho numa cadeira enquanto caminhava. É fácil iniciar uma conversa numa casa quase sem luz. Falámos de aeroportos, restaurantes e destinos de férias. Iniciámos a fase em que se destroem os outros convidados, comentámos sapatos e desvios sexuais, revelámos episódios que ridicularizavam cada uma daquelas pessoas. E quando um de nós viajava para a casa de banho, o outro, o que permanecia na sala, ponderava uma alternativa, identificando e escolhendo aqueles que possivelmente estariam sozinhos ao fim da noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei que os convidados se afundassem no chão e nos sofás, ou que se drogassem com mais frequência, primeiro na casa de banho, depois em cima de uma mesa de vidro, no centro da casa, assim que a gula e a euforia acabassem com a vergonha social. O apodrecimento da atenção dos outros tornava-nos menos visíveis. Senti-lhe as mamas ainda antes de beijá-la. Ela abriu e boca e ordenou:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Quero a tua língua.”  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estivemos num canto da casa, roçando pernas contra pernas e movendo os dedos debaixo do tecido. Sempre de olhos fechados, até que perdi a localização do meu próprio corpo e não poderia dizer onde se encontrava a porta de saída. Peguei-lhe na mão para lhe dizer que íamos abandonar aquela casa. Ela avisou-me que acordava sempre cedo e que não deveríamos gastar tempo de sono. Entrámos num dos quartos, não trancámos a porta. Ouviam-se outras vozes e o ranger de vários corpos na casa de banho. Perguntei-lhe a profissão. Ela não conseguia responder, concentrada no fecho das botas que não deslizava. Eu sentei-me no soalho e descalcei-a, vi-lhe os joelhos arranhados, toquei-lhe a carne branca e os riscos vermelhos onde o sangue solidificara. Pareciam as pernas de uma criança que cai da bicicleta sempre que tenta subir um passeio. Ela retomou o diálogo com a rapidez dos que se julgam mentirosos competentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Trabalho numa livraria.”&lt;br /&gt;“Algum autor preferido?”&lt;br /&gt;“Nabokov.”&lt;br /&gt;“Como te chamas?”&lt;br /&gt;“Lolita.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho passado as últimas semanas nas livrarias de Nova Iorque embora saiba que ela nunca trabalharia atrás de um balcão. Ninguém a conhecia na festa. O número de telefone que escrevera num guardanapo levou-me a ligar para uma loja onde conversei com estrangeiros que vendiam imitações de relógios, malas e óculos escuros. Revelaram-me que não era a primeira pessoa enganada. Mas imaginei que gostasse de livros e comecei a visitar todas as livrarias da cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora está diante de mim, sem me ver, conversando com as amigas que analisam a caixa cor-de-rosa que me parece um jogo. Os sapatos são escuros, as meias sobem pelas canelas e a saia mostra uma linha de pele acima dos joelhos. Está vestida com um uniforme de escola. Antes de entrar na casa de banho pede às amigas:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Desejem-me boa sorte.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendo que estas são as meninas adolescentes que procuram viver à frente do seu tempo. Estão em todas as festas de homens ricos em Nova Iorque, mesmo que não tenham idade oficial para beber ou para oferecer sexo com a boca. Fala-se delas mas nunca ninguém as consegue identificar. Gostam do dinheiro dos outros e da impunidade conseguida pela inocência das caras ainda sem quaisquer marcas. Adoram viajar de helicóptero com celebridades. Durante a noite parecem mulheres adultas, despem-se depressa e usam maquilhagem. Mas frequentam escolas onde se reza pela manhã. Têm tudo aquilo que querem. Estão protegidas contra quase todos os crimes. E nunca sofrem castigos. Não acredito que algum vez se desiludam com a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sai da casa de banho sem a caixa cor-de-rosa e anuncia às amigas que não está grávida. São apenas adolescentes que celebram. Não me olham, não escolhem livros nas estantes, regressam a casa para estudarem equações com duas incógnitas ou experimentarem baton enquanto conversam ao telefone. Uma destas noites vão regressar ao ofício do engano, usando os falsos corpos sem mácula e algumas frases escolhidas de filmes – ela nunca leu Nabokov – para entregarem esperança a homens que, como eu, já não acreditam nas pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não me reconhecerá numa livraria, não procurará encontrar-me nas festas onde talvez nos cruzemos, mas ofereceu-me a carne, o delírio dos tontos, a língua dentro da sua boca e um parágrafo que me desperta a pulsação cardíaca, nem tanto pelas palavras, antes pela recordação do meu corpo a crescer. Abro a página, tudo começa: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106790564869114139?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106790564869114139'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106790564869114139'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106790564869114139' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106756561386207478</id><published>2003-10-31T02:00:00.000Z</published><updated>2003-11-04T00:38:16.630Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O que eu quero ser agora&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em todas as outras manhãs, a minha mãe pergunta-me se estou feliz. Eu respondo-lhe que sou demasiado precoce para acreditar na felicidade que ela imagina para os filhos. Os meus irmãos penteiam-se durante todo o pequeno almoço. Estão a preparar-se para o evento que – mesmo sem saberem – vai mudar as suas vidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais novo sempre impressionou os pediatras, coisas relacionadas com as capacidades cognitivas. Aprendeu a ler quando os outro miúdos ainda nem sabiam esticar a mão para anunciarem a vontade de se sentarem numa retrete. O mais velho vai agora estudar para a universidade. Quer ser médico e ajudar as pessoas pobres e as outras que morrem à fome em África. Recebeu imensos prémios, inventou um instrumento que é hoje utilizado por cirurgiões, saltava muito alto e incentivava o trabalho junto de velhos a quem é preciso mudar as fraldas. Os meus pais vão oferecer-lhe uma viagem à Europa para ver cidades onde eu poderia caminhar sem mapa. É que já li muitos livros. Já viajei muito, sou a pessoa mais brilhante desta família de pessoas brilhantes. Mas não sou uma redundância dos meus familiares, nem sequer uma versão melhorada. Sou algo diferente, algo que nunca se viu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que estão todos a olhar para mim. Escolheram sapatos por estrear e andam de um lado para o outro tocando nos objectos sem lhes dar uso, como fazem todas as pessoas que não conseguem esperar. Eu digo-lhes que é apenas o meu aniversário e que 15 anos na vida de um génio não representam ainda uma mudança na História do Mundo. Mas minto-lhes. Esta é uma das minhas capacidades, a ilusão, os gestos de mãos sem um tremor sequer, as palavras a acertarem no lugar certo das frases. Eu existo para vencer. Basta entrar numa sala e as pessoas sabem que algo se alterou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eles só têm que me deixar sozinho. Digo ao meu pai para me entregar a chave de um dos carros e, devido às minhas capacidades, ele autoriza-me a conduzir. Garanto-lhes que estarei em casa às cinco da tarde quando começará uma festa com professores, cientistas, políticas e jornalistas de televisão. Este ano o bolo será tão grandioso que ficará no jardim da casa.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou ao volante, atravessando a cidade, controlando o carro com uma precisão que apenas os condutores profissionais da velocidade poderiam copiar. Paro nos semáforos e pondero se as crianças que atravessam a rua deveriam ser personagens a incluir no meu projecto. Todas, umas atrás das outras, as mão dadas, caminham sobre o alcatrão, sem saberem que eu as poderia tornar em pessoas que seriam recordadas em monumentos de pedra. As crianças serão sempre necessárias em redor dos génios, porque lhe providenciam uma inocência que eles não possuem mas de que necessitam para conviverem com os outros homens. Abro a porta e agarro numa criança. Sento-a no banco de trás e ponho-lhe o cinto. Ela gosta da música que se ouve na rádio. Conversamos como se ela fosse um adulto. Vai ser a primeira testemunha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a andar queria ser um super-herói, mas nunca lhes compreendi as máscaras, o altruísmo anónimo, como se a fama fosse possível sem reconhecimento do público. Depois, quando comecei a descobrir as incapacidades dos outros, desejei ser General, conquistar-lhes as casas, lançá-los em campos de concentração. Com a descoberta da masturbação e das mulheres ambicionei a veneração que os ignorantes – e os frustrados sem criatividade – oferecem aos artistas. Sempre fui o melhor em tudo o que decidi fazer. Sou alto, bonito, as raparigas gostam de mim, os rapazes querem ser meus amigos e correr tão depressa como eu corro nas aulas de ginástica. Mas tudo isto é insuficiente, não me serve, cresço demasiado depressa para que estas pessoas entendam a minha importância nas suas vidas, tudo aquilo que lhes poderei fazer, o que mudarei para sempre. É por isso que os actos que se vão seguir não poderão ser entendidos. Eles – vocês – existem numa outra fase da evolução, um dia haverá quadros nas paredes das escolas onde a vossa imagem de Homens precederá a Minha Imagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jornais falarão do que está a acontecer – tiro a criança do carro e a caixa da bagageira. Vai haver mulheres maquilhadas a falar em directo diante de câmaras como se estivessem a chorar – abro a caixa, escuto o estalar metálico dos fechos. Os vizinhos vão querer contar as vezes que me empurraram nos baloiços -  começo a encaixar as peças, quando está montada, elevo-a diante da luz. E aparecerão especialistas, professores, a família, todos a procurar protagonismo por algo que nunca inventaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo agora a escolher os convidados para o evento que mudará a História da Humanidade – abro as pernas, estou em pé, não preciso sequer de me apoiar, não se ouve o meu coração, a minha pulsação cardíaca é tão baixa que posso parecer morto, esvazio os pulmões, é como se voasse, a mão molda-se ao aço, o ombro está imóvel, o dedo aproxima-se do gatilho da espingarda de precisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança olha uma última vez para a arma antes que dispare. E como a beleza e a juventude sempre foram condições necessárias para a mudança, vou iniciar a Nova História do Mundo quando apertar o gatilho e uma bala rebentar a cabeça da rapariga mais bonita da escola. &lt;br /&gt;Já está. E ainda me resta uma caixa de munições.&lt;br /&gt;Este é o começo de uma nova época. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106756561386207478?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106756561386207478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106756561386207478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106756561386207478' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106730491237707704</id><published>2003-10-28T01:35:00.000Z</published><updated>2003-10-28T01:37:21.246Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Aquilo que nunca me sairá do sangue&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está tudo tão arrumado nesta casa, os aquecimentos a funcionar, os livros ordenados no quarto e, no entanto, continuo a não conseguir lançar as palavras até onde elas deveriam chegar. Logo agora que o conforto é diário, que não uso relógio no pulso, que encontro tempo para pensar enquanto levito nas ruas da cidade. Hoje até comprei a farinha que misturavas no leite porque quis andar para trás. Como se procurasse regressar à cozinha onde me aproximavas a colher da boca, elogiando-me os olhos, enquanto me observavas com a mesma cara das fotografias – desculpa, mas apenas me lembro da tua cara nas fotografias, deixaste de ter carne, espessura e muito menos cheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou seguro que recordas a minha inquietação física e que sabes que nenhum conforto me consegue sossegar. Garanto-te que estou igual, como se ficar no mesmo sítio – uma cidade, um texto, uma pessoa – fosse uma sentença de eternidade para o meu aborrecimento. Já não ando de patins no terraço, é verdade, mas continuo a andar de um lado para o outro, mesmo que seja dentro da cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o planeta e começo a contar o número de mortos nas notícias. São números, não perturbam ninguém, impressionam-me muito mais as pessoas, como uma cara sem expressão que aparece no canto do ecrã. Escuto que atacaram a sede de uma organização humanitária, morreram pessoas que apenas queriam ajudar. E penso como as ideias políticas – seja qual for o lado da guerra – são tantas vezes o melhor instrumento para iniciar o nossa natureza assassina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, de repente, quando caminho da sala para a cozinha, tenho outra vez a boca cheia de um nome que me inquietou tantas vezes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Valmeri Camejo”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança que vi nos braços de um médico, emergindo dos escombros, enquanto a mãe parecia desfazer-se a cada soluço de choro. Estava na Venezuela e parei na estrada para dar água a pessoas que levavam a vida à costas depois das inundações – um frigorífico, um filho, às vezes apenas um saco com alguma roupa. Era a primeira vez que compreendia o sofrimento dos outros e, no regresso a casa, procurei relativizar as comichões no ego que designava por angustias. Havia pessoas com feridas sem solução. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não está mais ninguém nesta casa, mas penso muito em outras pessoas, algumas que receio que me faltem, outras que me magoam pela sua ausência. Como  o amigo que encontrei deitado numa cama  – não pode ser ele, parece-se com uma pessoa doente – apenas porque se distraiu numa curva. E está ali, sem falar, está ali e é tão absurdo, não há qualquer lógica ou sequer justiça de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, porque chove, ou porque sou incapaz de encaixar o que sinto naquilo que escrevo – não fiques preocupada, é uma patologia de quem escreve, ficar sempre aquém, ser insuficiente – hoje, dizia-te, estou com muito mais frio do que é costume. Mas não pode ser tristeza, deixei de chorar e talvez sejas a culpada, desaprendi, já não sei como se faz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de Stephen King que chorou depois de ver um mau filme, confessando que, após ter sido atropelado, perdera a capacidade para gerir as emoções. Hoje vejo-me assim, como se a cabeça estivesse danificada. Mas é apenas a chuva, sabes como me incomoda o mau tempo. Daqui a nada as nuvens desaparecem e prometo que vou levantar-me, escrever e sair de casa. E mesmo que apareças no corredor – sei que não podes aparecer –, mesmo que grites quando ouvires bater a porta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde vais a esta hora? Vem imediatamente para a mesa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais ter que me ir procurar a outro lugar, onde estarei a escrever uma obra prima e onde me encontrarás de guarda levantada, pronto a viver com aqueles que são muito melhores pessoas do que alguma vez eu serei, aqueles que morrem com bombas, em acidentes e terramotos – afinal, tudo aquilo a que se poderia chamar uma falha humana provocada por Deus. Vais ter que me procurar, porque são raras as pessoas – tu eras uma delas – que me conseguem fazer ficar quieto, sem vontade de partir outra vez.  &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106730491237707704?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106730491237707704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106730491237707704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106730491237707704' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106721514100613140</id><published>2003-10-27T00:39:00.000Z</published><updated>2003-10-27T00:39:00.256Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Um dia como outro qualquer&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Manhã&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Porque não sabe escrever, Mandrake Maneta gosta de falar. Enquanto Dona Lulu caminha para a paragem de ônibus, o filho conta-lhe o que ouviu às mulheres dos outros barracos. Coisas sobre homens que chegam a casa com o cheiro da cachaça ou uma camisa que roubaram do estendal. O discurso pára quando se ouve o motor do ônibus, e a cabeça forrada a carapinha de Mandrake é agarrada pelas têmporas. A mãe pousa-lhe os lábios nos caracóis que nunca se desfazem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Um dia cê vai sê como o senhô da TV. Vai morá lá no Rio. Deus te abençoe.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandrake Maneta entra nas ruas onde inicia o trabalho do engano e o consequente número que o faz desaparecer. Desde criança que pratica truques com cartas e a velocidade nas curvas. Não há ninguém que o apanhe. Com sete anos já distribuía maconha para o Telinha, criminoso que aprende tudo através da televisão, sem sair de casa, viciando-se em documentários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia em que informaram Telinha da visita dos polícias, encontraram Mandrake no chão, os olhos brancos e a língua imobilizada pelos vapores da cola que ainda estava dentro do saco de plástico. Carregaram o corpo para a casa de Telinha que depressa finalizou o interrogatório:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Cê contou alguma coisa prá eles? Se não fala é porque é culpado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como acabara de assistir a um documentário sobre os castigos praticados na Idade Média, Telinha pediu um machado e cortou-lhe uma das mãos:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Não trabalha mais prá mim não, filho dá putá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandrake transformou-se em Mandrake Maneta. Nunca mais cheirou cola e começou uma actividade de profissional sem patrão, roubando carteiras no ônibus ou vendendo maconha a adolescentes de colégio privado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tarde&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A boca de uma mulher acorda Ramilson Marmelo. A saliva aquece-lhe o sexo. Mas o sono impede o resto do corpo de responder. Está nu sobre o colchão. Tem a pistola debaixo da almofada. Mantém os olhos fechados e procura conciliar o prazer da sonolência com os movimentos da boca da mulher. Ela aumenta a velocidade quando suspeita que Ramilson vai ejacular. E, depois, continua, mesmo que comece já a sentir a carne a amolecer dentro da boca. Até que Ramilson contrai os músculos e se desvia, protege-se,  como se o sexo fosse um dente vulnerável a um cubo de gelo. Ela quer beijá-lo nos lábios e com língua, ele desvia a cara e levanta-se, procura a pistola, caminha para a casa de banho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vem com essa boca prá cima de mim não vagabunda que eu meto bala em tu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até sair do quarto, Ramilson Marmelo, sargento condecorado da Polícia Militar, não se aproxima da mulher. Veste a roupa, e verifica a cara no espelho quando passa pela casa de banho, procurando alguma marca de dentes na pele. Antes de fechar a porta olha para o relógio:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Puta merda tou atrasado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na recepção descobre um homem que o olha, de cima para baixo, parando na pistola que se encontra presa entre as calças e a barriga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cê tá olhando o quê ó pálhaço? Vai trabalhá. Esse mundo tá cheio de merdas que não faiz nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro da Polícia Militar está estacionado diante da pensão. Todos os sábados, durante a noite, Ramilson percorre as ruas da cidade à procura de uma prostituta. Gosta de mulheres com mamas grandes. Pára o carro e abre o vidro. Elas assustam-se e ensaiam uma normalidade falsa, como se fosse possível ocultar os sapatos, o perfume, ou a forma como as nádegas se movimentam assim que se caminham para a janela de um carro. O medo da polícia permite a Ramilson noites de sexo sem pagar. Mas regressa sempre a casa, todos os domingos, para almoçar com a família.  	 &lt;br /&gt;	 &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Noite&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Depois de engomar camisas e de lavar retretes no apartamento do Doutor, Dona Lulu atravessa a cidade, mudando várias vezes de ônibus. Carrega os sacos do supermercado sozinha. O marido viajou para a Europa para trabalhar mas nunca escreveu. O filho mais velho substituiu a mão de Mandrake Maneta na organização de Telinha. A mãe implorou-lhe que continuasse a vender isqueiros nas ruas do centro da cidade. Mas Telinha acabara de ver um documentário sobre criminosos que se tornavam missionários e decidiu contratar o irmão de Mandrake. O dinheiro e o respeito de trabalhar para Telinha seriam restituídos à casa de Dona Lulu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe desce do ônibus e encontra Mandrake a fumar numa esquina. Os outros miúdos - não estudam mas assaltam à porta das escolas – mostram um rádio roubado. O irmão de Mandrake aparece na outra esquina, o corpo derrapando quando faz a curva, a boca a gritar palavras que não se compreendem mas que denunciam medo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao volante vai Ramilson Marmelo. Os outros homens são colegas da Polícia Militar. Tal como o corpo do irmão de Mandrake, na curva, as rodas da carrinha perdem a aderência, a traseira roça um muro. Os homens assustam-se, mas sabem que têm armas nas mãos e que a velocidade faz parte da caça aos bandidos que vivem sem castigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Lulu mantém-se no passeio, os sacos prolongando o tamanho dos braços. Os filhos estão juntos, na rua, fugindo na mesma direcção. Os homens saem da carrinha, as caras cobertas por capuzes, e disparam. Algumas crianças morrem, outras escondem-se e agarram em pistolas. Dona Lulu sente um músculo a arder. Depois a perna deixa de existir, sem força, a carne cede à bala e o corpo da mulher cai sobre o alcatrão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sabe que não vai morrer. Mas assusta-se com os filhos, protegidos por uma vedação, aparecendo apenas para disparar sobre os homens que os atacam, os purificadores que querem enterrar o lixo humano. O tiroteio continua, mas Dona Lulu fecha os olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramilson Marmelo é interrogado na dia seguinte. A mulher e os filhos garantem que nunca saiu de casa. O irmão mais velho de Mandrake Maneta ficou sem maxilar e língua. Mas continua a entregar sacos de droga. Dona Lulu está em casa, sentada numa cadeira, diante de uma televisão oferecida por Telinha, um sábio dos processos de redenção. No funeral de Mandrake Maneta não apareceu ninguém. Os vizinhos não choraram. E a mãe acreditou que era apenas mais um truque de mágico. Talvez o corpo com a cara desfeita pelos tiros não fosse o filho. Ele apareceria a qualquer momento para a mãe aplaudir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telinha vestiu-se de negro. Pôs uma gravata. Abandonou a televisão. Chegou tarde ao cemitério mas leu um texto da Bíblia para Dona Lulu. E depois acrescentou com a certeza de um profeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A vida aqui não vale nada mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106721514100613140?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106721514100613140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106721514100613140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106721514100613140' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106695047902683007</id><published>2003-10-24T00:07:00.000+01:00</published><updated>2003-10-24T02:25:04.680+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Vai devagar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para o Ricardo e Teresinha &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando falhaste a curva ias sozinho. Nunca mais nos voltámos a ver. Mas não quero encontrar-te assim, os pulsos mais magros, sentado numa cadeira, a língua imóvel dentro da boca, sem seres capaz de receber-me com a violência dos abraços que nós, os homens, nunca poderíamos abandonar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guiavas sempre depressa. Assustava-me a dedicação que entregavas aos carros e à velocidade. Chegavas mesmo a acompanhar as corridas dos profissionais da condução, na beira da estrada, para admirar os automóveis que levantavam as rodas e que lançavam poeira para os olhos dos espectadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã do acidente – apenas me telefonaram à tarde, já estavas no hospital – talvez quisesses ser como eles. Mas não acertaste. E é por isso que ainda hoje me recuso a assumir que já não apareces na praia, o teu corpo enorme, para recordares episódios do colégio ou suspenderes o discurso quando encontravas as pernas de alguma mulher que fugia à rebentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contigo nunca conversei sobre motores, pneus, ou velocímetros. Como sabes, sempre achei que os carros são instrumentos utilitários. Não lhes reconheço beleza e raramente me oferecem prazer. Mas compreendia a tua vontade de seres veloz, afinal, o mesmo fascínio que outros experimentam com vícios, pessoas ou objectos. Eu dava-te tudo isso de graça. Até ao dia em que fugiste à trajectória e deixaste de me visitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é apenas pelo que aconteceu contigo, mas sucede tornar-me violento quando descubro que há criminosos a organizar corridas sobre pontes e auto-estradas, os carros com os faróis desligados, a vertigem de poderem acabar numa cama, mudos, com o sistema nervoso às escuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gosto do risco. Mas o que estes criminosos de corrida não compreendem – como é que não compreendem? – é que a fragilidade da vida se acentua ainda mais sempre que carregam no pedal do acelerador. Se querem emoção, saltem de pára-quedas. Se errarem, estão sozinhos, não levam ninguém que deslize, sem culpa, na outra faixa da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que haverá sempre a possibilidade de um desconhecido agarrar numa pistola, sair para a rua, e disparar ao acaso depois de enlouquecer. Talvez uma das balas atravesse uma janela, rebente um vidro, terminando na jugular de alguém que se transportava da sala à cozinha. A polícia aparecerá depois de tudo. E dir-se-á que ninguém poderia prever a loucura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sabendo como se morre na estrada, os criminosos usam um carro como quem dispara uma pistola ao acaso. Mas o que estes corredores fazem não é resultado de uma loucura que não se pode evitar. É apenas o mais perigoso género de estupidez – a  voluntária, a assassina, que mata não apenas os protagonistas, mas os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canso-me da alarvidade humana. E, quando reajo, começo também a transformar-me num animal doente. Às vezes gostava que as rotas de emigração incluissem outros planetas, lugares onde o absurdo do teu silêncio não fosse autorizado. Depois sossego, escuto as novidades, vejo os gestos do teu irmão – alarga os braços diante da cara e executa um círculo como se quisesse devorar o mundo – e recebo o relato sobre o nascimento da Teresinha. Diz-me que ela é linda. Eu acredito e recupero-te, estando já certo de que vou entrar no teu quarto e que me vais reconhecer. Claro que me vais reconhecer. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106695047902683007?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106695047902683007'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106695047902683007'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106695047902683007' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106686547014013360</id><published>2003-10-23T00:31:00.000+01:00</published><updated>2003-10-23T22:03:39.863+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O preço do amor, na voz de Clemente Honório&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deveria ser o meu pai a entrar no quarto, para abrir as persianas, ao mesmo tempo que tosse o fumo de um cigarro em jejum sobre roupa do dia. Mas as comissões militares habituaram-no a manter-se vigilante até de madrugada. Acorda-me como se eu fosse um soldado que acabou de chegar ao mato. Enquanto mantém a postura dos veteranos que andam a matar inimigos há décadas. Quando não atiro as pernas para fora da cama, vejo-lhe as falanges amarelas puxarem os cobertores para entregarem o meu corpo à casa sem aquecimento. É apenas quando saio para trabalhar que ele consegue dormir. E se me esquecer de dinheiro ou de algum documento não volto atrás. Não tenho chave e ele nunca me abriria a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A urgência do meu pai obriga-me a esperar no passeio pelo autocarro. Por vezes, falha as horas e fico aqui sentado, enterrando o gorro na cabeça,  multiplicando os ordenados para saber daqui a quantos anos levarei Júlia a visitar as praias do México onde conhecerá a metade hispânica da minha família. Após o divórcio, a minha mãe regressou à vila onde os turistas se embebedam e onde um vizinho guarda um crocodilo num poço porque não há recolha de lixo. O animal consegue destruir garrafas de plástico e cadeiras coxas que já não sentam ninguém. Ela diz-me que é fácil viver no México com o dinheiro que o meu pai lhe envia. Resta-me convencer Júlia de que conseguirei abrir um hotel onde os turistas possam dormir depois de vomitarem a bebedeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro no autocarro e avanço para o mesmo lugar de sempre, o último do corredor. Cumprimento os outros empregados e sento-me junto de Gino, ele do lado da janela, eu do lado de fora. Mesmo que lhe veja a indiferença e os vasos sanguíneos nos olhos, porque acabou de fumar erva, pergunto-lhe se o autocarro parou na casa de Júlia. Gino descola a cara do vidro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esquece essa puta. Tu queres é uma mãe de família. Não um cu que se oferece a qualquer preto com um carro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como Gino é meu amigo, mais velho, divorciado duas vezes, e é o chefe da secção de carnes do supermercado, mantenho-me mudo, sabendo, no entanto, que Júlia é uma mulher que quer casar, ter filhos e que talvez nem se importe de cozinhar num establecimento turístico na Península de Yúcatan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta manhã sou responsável por mudar os preços no corredor da Higiene Pessoal. No intervalo procuro visitar Gino. Dizem-me que está no frigorífico. Alguém acrescenta que levou uma das raparigas da limpeza. Gino encosta-as aos lombos de vaca e impede-lhes a fuga. Conta-me que as mulheres gostam de ser fodidas contra a carne. E que o cheiro lhes acelera os orgasmos. É por isso que muitas das empregadas do supermercado arrastam constipações durante meses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regresso aos preços e às clientes que procuram desodorizantes, lâminas e anti-sépticos. Não se demoram comigo, e preferem os empregados brancos sempre que apresentam dúvidas. Ao fundo do corredor encontro a caixa 23, onde deveria estar Júlia, mas onde vejo uma gorda, pálida, com olhos azuis. Gosto das mulheres escuras, com a pele grossa nas mãos e nos cotovelos. O meu pai, branco, ordena-me que evite mulheres de outras raças. Ele casou com uma latina e depressa percebeu que não lhe suportava os cozinhados ou o cheiro dos produtos que despejava no cabelo. O meu pai costuma caminhar na sala, com as calças de camuflado, sem camisa, as chapas de identificação balançando no pescoço:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Nem pretas, nem latinas, nem chinas.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o meu pai esquece-se que eu tenho braços curtos e um pescoço que se enterra entre os ombros. Na escola todos esperavam que eu abrisse a boca para falar com sotaque. Os estrangeiros ilegais aproximam-se nas paragens de autocarro para me pedirem informações. Eu não quero – nem posso – lançar-me às mulheres brancas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única vez que conversei com Júlia estávamos a morder hamburguers. Era o aniversário de uma das empregadas que Gino empurrava entre as carcaças dos porcos. Ficámos sentados no mesmo lado da mesa. Júlia tocou-me no pulso e, quando encontrou gelo no fundo do copo, pediu para beber o meu refrigerante. Vi como pousava os lábios na palhinha, sem nojo, como se fossemos namorados. Perguntou-me ainda os preços das viagens para o México, porque estava a pensar fazer férias na praia. Depois, nunca mais conversámos. Mas ela sorri-me sempre que atravesso o corredor do autocarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite, mais uma vez, o meu pai serve rações de combate ao jantar. É sexta-feira e lembro-me que tenho que sair de casa. Estes são os serões em que o meu pai recebe as mulheres – brancas – que conhece através de anúncios no jornal. Gino vem-me buscar de carro. E sou cúmplice na actividade de tráfico de droga. No fim-de-semana, Gino distribui e fuma erva com clientes. Hoje faz apenas duas entregas. Depois ficamos num parque de estacionamento, diante das salas de cinema, a beber cervejas. Gino fala-me das mulheres que vai levar para o frigorífico:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Aquela puta porto-riquenha não me vai fugir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gino explica-me ainda que as asiáticas são o limite. Nunca comeu uma preta e não compreende a minha paixão por Júlia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Tu és quase branco, foda-se.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas saem da última sessão e aproximam-se dos carros. Vejo um preto enorme, com o tamanho de um lutador, a cabeça rapada e um comando que destranca as portas de um carro desportivo. Traz Júlia pela mão. Ela vê-me e sorri. Mas não falamos. Entram no carro e beijam-se. Vejo também as pernas de Júlia levantarem-se e os saltos dos sapatos quase que racham os vidros. Peço a Gino, que entorna erva numa mortalha, para sairmos do parque de estacionamento. Ele demora-se e depois grito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Liga-me esta merda de carro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gino lambe a mortalha, e antes de arrancar diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Eu não te disse que ela era uma puta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem papel, caneta, ou máquina calculadora, passo todo o caminho de regresso a casa a contabilizar os preços que colarei em embalagens até me tornar proprietário de um negócio no México. Quando Gino estaciona junto do passeio, imagino ainda o número de vezes que vou entrar no autocarro que demora 32 minutos a chegar ao supermercado, e continuo a esperar que os lábios gordos de Júlia se aproximem da minha orelha para confessarem que estão certos do meu sucesso.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106686547014013360?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106686547014013360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106686547014013360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106686547014013360' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106669454113661835</id><published>2003-10-21T01:02:00.000+01:00</published><updated>2003-10-21T01:02:21.250+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A queda do Império&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressar é também agarrar-me para não cair. E, por isso, equilibrava-me nas curvas ao mesmo tempo que estudava a reacção da minha amiga americana – pela primeira vez em Lisboa – esforçando-me por conseguir mostrar-lhe a cidade na ausência de vidros das janelas da carreira 28. Como Rebecca apenas consegue dizer, na minha língua:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Obrigada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se demorou nas palavras – quase gritos – da mulher de óculos escuros, uns bancos mais à frente, que parecia procurar uma audiência que apoiasse a sua condição de vítima:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Isto é só estrangeirada. Qualquer dia mandam em nós.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros passageiros acenavam com a cabeça com a indulgência dos indecisos, sem saber se haviam de concordar ou de contestar as afirmações da mulher de óculos escuros:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Qualquer dia cagam-nos em cima. Portugal anda a dormir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto Rebecca apreciava a cidade que passava diante da janela, imaginei-a na rua, sozinha, com um mapa na mão, caminhando com a elegância dos seus sapatos altos e com a delicadeza das meninas nascidas em Boston, aproximando-se da mulher de óculos escuros para lhe pedir informações. Estou seguro que, para a mulher de óculos escuros, Rebecca não faria parte dos estrangeiros que destroem os país. Porque Rebecca é americana, turista, está de passagem, e não trabalha nas obras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal julga ser um país tolerante, uma potência colonial mais suave, avessa à violência dos espanhóis ou à arrogância dos ingleses. Mas a verdade é que Portugal nunca foi um campeão da tolerância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como apenas tivemos que lidar com outras gentes em lugares distantes – África, América do Sul, Ásia – julgámos ser sempre o exemplo da integração social, os inventores da beleza das mulatas, até porque Marquês de Pombal oferecia terras, no Brasil, aos portugueses que se casassem com nativas. Mas vale a pena reforçar a ideia de que sermos melhores que os outros colonizadores, não faz de nós excelentes pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, depois da descolonização e, pela primeira vez, os portugueses tiveram que conviver com pessoas estranhas – que até falavam a mesma língua -, inventaram uma palavra::&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Retornado”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ainda hoje representa o mesmo nojo que se oferece aos aleijados, um olhar para o lado, ou uma revolta diante daqueles que nos procuravam roubar sem que pudéssemos apresentar resistência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com um império, não nos acostumámos às pessoas diferentes. E diante de qualquer adversidade ou insegurança, utilizamos a nacionalidade, a origem, ou raça dos outros para atacar. É muito mais fácil gritar, pela janela do carro:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Preto dum cabrão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“O senhor fez uma manobra perigosa e vou chamar a polícia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal nunca foi um país europeu – e não serão os telemóveis, os carros ou os centros comerciais que o aproximarão da Europa. Portugal nunca foi a cara da Europa, mas antes a cauda. E se as auto-estradas e os fundos comunitários não foram condições suficientes, saberemos agora – quase à força – o que é sermos europeus, partilhando, no mesmo espaço, diferentes culturas, línguas e cores de pele. São pessoas como a mulher de óculos escuros que ficarão para trás, porque o isolacionismo mental que nos caracteriza só tem remédio quando iluminado e alargado por outros estilos de vida, outras maneiras de encarar o mundo. Um remédio que só nos poderá fazer bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O isolamento não se prolongará. Com a chegada dos novos países à União Europeia, ou abrimos a cabeça ou ficaremos de braços cruzados, batendo com o pé no chão, esperando a solidariedade do Estado. Porque desta vez não nos valerá de nada comentar o descaramento dos estrangeiros que, de acordo com a mulher de óculos escuros:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Vêm para cá roubar-nos o trabalho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o provincianismo e a diversidade, entre a má língua da mulher de óculos escuros e a competência de qualquer estrangeiro, um empresário saberá por onde escolher – eu, pelo menos, saberia. Mesmo com contestação nos transportes públicos, não haverá outra alternativa. E talvez um dia a senhora de óculos escuros concorde com o comentário de um velho que se cansou de lhe ouvir os lamentos:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Minha senhora, gente má existe em todo lado.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106669454113661835?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106669454113661835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106669454113661835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106669454113661835' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106660760816588467</id><published>2003-10-20T00:53:00.000+01:00</published><updated>2003-10-20T00:53:27.603+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;The sweet smell of success&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais de Daniel Lee sempre cumpriram a regra de – como todas as famílias – encontrarem no filho um génio em desenvolvimento. A precocidade da criança não se revelava na escrita, na criação de fórmulas matemáticas, ou na destreza física de saltos mortais para a piscina. Daniel Lee mostrou, numa apresentação, com apenas quatro anos, que seria uma celebridade de palco. Nessa noite, entrou na sala, com pés que procuravam segurar os sapatos da mãe, e dançou como se fosse uma mulher adulta, abanou leques, movimentou os lábios para acompanhar a música das colunas, acabando o espectáculo a fazer um vénia sem que a peruca lhe caísse da cabeça. No final, todos identificaram o filme, a cena, e a actriz que a criança imitara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No anos de liceu, Daniel Lee transformou-se num activista que queria acordar as consciências através da arte produzida por outros. E mais uma vez os pais – também os professores – julgaram ser testemunhas do processo de construção de uma estrela. Numa conversa entre a mãe de Daniel Lee e uma professora, comentaram-se futuros prémios por interpretação dramática ou mesmo condecorações oficiais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O momento em que todos tiveram a certeza que aquele rapaz regressaria para inaugurar uma sala de espectáculos com o seu nome, aconteceu no ginásio da escola, na tarde em que Daniel Lee intrepretou, sozinho, várias personagens de diversos sucessos musicais da Broadway. O texto, a iluminação, a música e os cenários eram resultado do seu talento para copiar. As mulheres choraram e os homens apertaram os braços das cadeiras, confundidos, e envergonhados, com a sensibilidade que não queriam revelar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Daniel Lee partiu para Nova Iorque, a família, amigos e admiradores, esperaram vê-lo nos cartazes da cidade. E viver longe, partilhar um apartamento com outras pessoas, alongar os dias em audições onde dançava, cantava e exprimia o sofrimento do mundo através da expressão corporal, era apenas um processo exigido a todos os génios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos estavam certos que não demoraria até que Daniel Lee deixasse de ser apenas um candidato e começasse a ser protagonista. Porque nas audições a sua voz colava-se à voz de outras celebridades, algumas já mortas, outras que emergiam muito mais depressa que Daniel Lee. As suas prestações eram idênticas aos originais. Restava apenas esperar. Até porque o trabalho e o sacrífico – ele apenas tinha dinheiro para uma refeição por dia – seriam elementos essenciais a introduzir numa autobiografia. O sucesso era inevitável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o cansaço e a perda de peso prolongaram-se durante alguns anos sem que aparecesse um papel de protagonista. Os amigos de Daniel Lee casaram e mostravam empenho na decoração das casas que pagariam até ao fim da vida. Os irmãos ofereceram sobrinhos à família. E em Nova Iorque não havia ninguém que lhe projectasse o talento numa tela de cinema. A ambição artística transformou-se então na necessidade de pagar as contas. Daniel Lee queria jantar em restaurantes. Havia roupa e sapatos para comprar, uma carpete para a sala, algumas viagens para ver o resto do planeta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, o génio dedicou-se à imitação de apenas uma personagem. Actuava nos palcos desmontáveis de bares e de clubes. A aproximação do original era cada vez mais próxima. Os turistas estrangeiros tiravam fotografias. E o dinheiro passou a chegar, todos os meses, certo, suficiente para pagar as virtuosas mãos de um cirurgião plástico que lhe trabalhou o rosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a cara regressou ao seu tamanho normal, após a operação, numa tarde de compras no SoHo, uma criança loira esticou o tecido da t-shirt branca que vestia e entregou-lhe uma caneta. Daniel Lee assinou pela pessoa que não era, mas com quem se parecia. E pela primeira vez, em muito anos, limpo da sua identidade, soube o que era ser importante na vida de estranhos.           &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106660760816588467?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106660760816588467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106660760816588467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106660760816588467' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106615869664536396</id><published>2003-10-14T20:11:00.000+01:00</published><updated>2003-10-14T20:11:36.606+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Tão bonitos que nós somos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mantemos os punhos limpos, as mãos levitando acima dos pratos usados até que um empregado apareça para levar os destroços dos clientes que nos antecederam na mesa. Alguns têm gravatas porque os escritórios mandam. Outros exibem cortes de cabelo certeiros, as cores alinhadas na roupa, sapatos sem um risco de poeira. As nossas bocas articulam as melhores ideias. Não vamos mudar o mundo, sabemos isso, mas decoramos a esplanada com vozes eloquentes e iluminamos os que nos admiram. Viajamos pelo planeta e conversamos em outras línguas. Vimos tantos filmes e lemos tantos livros. Contemplamos as mulheres mais bonitas que passam por nós. Elas olham também. Estamos seguros que estariam muito melhor aqui sentadas. Somos profissionais da felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas num instante aparecem os dentes com nódoas, uns lábios gretados que nos pedem moedas em troca de poesia. Os pedintes invadiram a cidade, pensamos, enquanto procuramos manter a conversa. No entanto, começamos a tremer em cada frase, não conseguindo esconder o desconforto que causa aquela mulher feia, com manchas na roupa e um apelo molhado pelo excesso de saliva. Quer vender uma compilação de poemas em folhas amarrotadas e com impressões digitais de sujidade. Mas ninguém quer ouvir literatura amadora, produzida num passeio, esperando moedas na palma da mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher senta-se à mesa. E aparecem crianças descalças, velhos cegos tocando violinos sem cordas, mulheres mudas com cartazes pendurados diante do peito de ossos, homens com os pés deformados ou sem mãos, drogados cuspindo doenças a cada mentira que inventam para nos pedirem dinheiro. A mulher diz que espera a resposta de uma editora e insiste em declamar poemas onde pessoas morrem de fome. As vozes e o odor dos miseráveis apertam-nos cada vez mais. Eles estão por todo o lado. A regra é virarmos a cara. É fácil levantarmos a mão, sem sequer falar, para que se afastem à procura de um turista com mapas e com a comiseração dos turistas. Por vezes, satisfazemo-nos quando lhes compramos um sumo, um bolo, uma refeição. Somos os homens mais bonitos e mais caridosos. Entregamos roupa que não usamos e os sapatos que se romperam nas solas. Mas sabemos que não vamos mudar o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém compõe o nó da gravata quando eles desaparecem a troco do som das moedas que embatem nas moedas. E as conversas voltam a ser internacionais, sem hesitações, tão contundentes que ninguém ousaria contestar-nos. Sentimos agora que melhorámos a vida dos que existem à nossa volta. Somos funcionários da caridade. Pagamos-lhes para se irem embora, como alguns homens fazem com as putas. Porque não os queremos ver durante muito tempo. E como não acreditamos em manifestos moralistas, como dá demasiado trabalho, como sabemos que não vamos salvar o mundo, continuamos a existir apenas entre os que podem ser como nós. A sério que não podemos fazer mais do que aquilo que fazemos.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106615869664536396?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106615869664536396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106615869664536396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106615869664536396' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106606517947881011</id><published>2003-10-13T18:12:00.000+01:00</published><updated>2003-10-13T18:17:20.130+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os idiotas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia vestiu um casaco que lhe dimunuía os ombros e lhe escondia as mãos. A camisa revelava que M. ainda não sabia manobrar o ferro ou que tinha que engomar a roupa sobre a colcha da cama. Mas M. era, finalmente, um adulto, sentado numa sala de aula da universidade. A família despedira-se dias antes. E como presente oferecera-lhe uma mala de pele para guardar os livros. Era tudo tão importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia em que conheci M. deveria ter ficado em casa, como fizera durante toda a semana. Mas enganei-me, as praxes prolongaram-se. E ali estava, rodeado de pós-adolescentes nervosos, esperando que os alunos mais velhos viessem com marcadores e nos pintassem a cara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batendo com o pé no chão, com o ritmo da ansiedade e do receio, M. conversava comigo, explicando a importância do ritual de integração, contando-me como já varrera o chão e como cantara, em cuecas e sem sapatos, em cima de um palco. Chamaram-nos então para a rua e quiseram-me atar um cordel nas calças. Eu disse que estava doente e que não podia ficar ali. Sempre me custou obedecer a ordens de pessoas que desconhecem o valor – e o perigo – da autoridade. E não gosto de ser integrado à força. A universidade não tem que ser o mesmo para todos. Eu – e imagino que outros estudantes – queria ir às aulas e regressar a casa. Ninguém é obrigado a fazer novos amigos ou representar uma cultura – a estudantil – na qual não encontra qualquer identificação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia algo de cómico no prazer que os alunos mais velhos adquiriam quando humilhavam os caloiros. Eles tinham a graça dos tristes. Eu fui-me embora, rindo dessa pobre satisfação, embora compreendesse o desejo de M. que não conhecia ninguém na cidade e que vivia sozinho num quarto. M. esperava que o processo de humilhação resultasse em amigos, em noites de festa, em alguém a quem pedir apontamentos. Porque M. pensava que não tinha alternativa. E porque esses eram dias importantes, eram – acreditava ele – momentos decisivos para o seu sucesso académico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As praxes, e já nem menciono os casos excessivos, apenas as brincadeiras imbecis, servem para agradar uns quantos frustrados. São um caso – lugar comum – de dar poder a quem não sabe o que é poder. Nunca reconheci autoridade a pessoas que me queriam de joelhos apenas porque tinham mais um ano de estudos. A designação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Veteranos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão absurda que me fez rir, sem qualquer vergonha, no dia em que cheguei para me inscrever, em Julho, e uns quantos inúteis – que deveriam estar na praia, em vez de emboscarem estudantes na secretaria – se apressaram a ameaçar-me com canetas e com um tribunal de caloiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As praxes são tão infantis que não podem ser levadas a sério. Se os alunos mais velhos estão preocupados com a integração dos que acabam de chegar – esse é o argumento que utilizam – então organizem jantares, reuniões, festas, sessões de perguntas e respostas. E não se satisfaçam com o poder mesquinho de mandar em alguém que esperou muito tempo para estar ali. É que para muita gente, um curso superior ainda é um salto na vida. E tal como M., que vestiu o melhor casaco e que regressava a casa dos pais resplandecendo o brilhantismo de ser um estudante universitário, há muitos alunos que acreditam que uma licenciatura é muito mais um fim – arranjar um emprego, ser doutor, subir na estrutura social – do que um meio para aprender, uma ferramenta para melhorar o chão que pisam, os outros, eles próprios. É que uma licenciatura não é uma condecoração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É normal que a entrada na universidade seja um momento importante e que os estudantes acreditem que vai determinar o resto das suas vidas. Mas depois as pessoas crescem e compreendem que podem abandonar um curso a meio, viajar, estudar outra coisa qualquer. E que uma licenciatura não muda, dramaticamente, quem somos. O argumento tem ainda mais valor em Portugal onde - salvo algumas excepções – os cursos universitários são fracos, serôdios, e muito mais dogmáticos que estimulantes. Já para não falar das condições em que os alunos aprendem, nos edifícios podres, nos manuais datados, na falta de equipamento. Entenda-se, portanto, que as licenciaturas estão muito, mesmo muito, sobrevalorizadas. É por isso que não compreendo o orgulho dos idiotas que, por terem um cartão universitário, se julgam mais que aqueles que acabam de sair do liceu. Não há qualquer razão palpável para a vaidade com que se passeiam diante dos caloiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de encontrar M. e, desta vez, descobri-lo com as mãos à vista e os ombros preenchendo o tamanho do casaco. Perguntar-lhe-ia o que ganhou em desfilar, durante todo dia, atado a outros estudantes. Ou o que lhe valeu ser obrigado a gozar com os alunos que não tinham – como ele – entrado no ensino público. Se não me respondesse, eu chegar-me-ia à frente. É que, anos depois, a estupidez e a inutilidade parecem-me imutáveis. Esse é um problema de algumas tradições, prolongam-se por demasiado tempo, opõem-se ao progresso, existem apenas por existirem, mesmo que não nos levem a lado algum. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106606517947881011?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106606517947881011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106606517947881011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106606517947881011' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106574063075240108</id><published>2003-10-10T00:03:00.000+01:00</published><updated>2003-10-10T00:03:50.850+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Agora que estás finalmente nos meus braços, regresso ao dia em que nasceste &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querido Manuel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo-te e uma veia pulsa-me no pescoço, amarrando-me a garganta. Quando o telefone tocou estava longe de casa, o teu avô anunciou que havias chegado e os pulmões falharam-me, as cordas vocais mantiveram-se imóveis, não conseguia controlar o queixo nem o batimento cardíaco, rápido, alastrando por todos o vasos sanguíneos, apertando-me tanto que talvez tenha pensado em chorar. Estava longe de casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia vais visitar esta cidade e vou explicar-te cada bairro, o legado que cada rua largou na minha vida, a velocidade das pessoas no passeio, alheias à felicidade que me ofereces. Um dia vou sentar-me contigo na jardim de casa e vamos escutar o estalar dos pinheiros que me acordavam durante a noite, vou falar-te de como o teu pai atravessava a atmosfera para defender um remate à baliza, conversaremos sobre a dedicação do teu avô, com um lápis na mão, uma máquina fotográfica, sempre pronto a guardar-te numa imagem que anuncie ao planeta o teu esplendor. E visitaremos a tua avó, cortando fatias de pão com a certeza das mães, rodando uma colher no teu leite com chocolate, derramando ternura da ponta dos dedos. Um dia vou correr contigo, prometo, na muralha que se prolonga pela praia, um dia regresso para me sentar à mesa mesmo ao teu lado, encarando os meus irmãos, voltando ao jogos, às palmadas, aos puxões de orelhas. Um dia vais perceber que há coisas tão físicas que a distância ou o tempo são incapazes de destruir. Um dia vou buscar-te a casa da tua mãe. Ela vai abraçar-me porque cheguei de longe, depois verificará o rigor do teu penteado e apertará todos os botões do teu casaco porque, onde quer que estejas, terás para sempre os braços da tua mãe em redor do peito. Nesse dia, sentados numa mesa sobre o rio, vou contar-te tudo sobre esta cidade e sobre muitas cidades. Depois, mostro-te os bilhetes de avião e um guia de viagem. Um dia vou estar contigo muitos dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaste sem me dar tempo, queria escrever-te antes porque não tenho outro forma de mostrar a importância do teu nascimento. Sei que seria muito mais inábil no quarto de hospital, com um presente nas mãos, um ramo de flores, um sorriso de parabéns incapaz de confessar que durante a noite tive de impedir o choro por saber-te longe, que limpei rapidamente o nariz aos lençóis e que abri os olhos para a luz da janela para que ninguém me descobrisse. Nós, vais aprender isso, somos assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi escrever-te porque preciso de contar-te muitas coisas, porque é a única forma de encurtar a distância e experimentar o mesmo susto de alegria que conheci ao agarrar o teu irmão pela primeira vez. Um dia – muito mais importante que esta carta – prometo que te agarrarei a mão: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Manuel’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na outra mão apertarei os dedos do teu irmão:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;‘Francisco’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não precisarei de escrever, de telefonar, de magoar-me neste egoísmo de viver à volta do mundo, suspeitando que a minha casa são todos aqueles em que penso quando a amplitude do quarto me diminui e acordo a pensar que os pinheiros estão lá fora, que o teu pai vai mostrar-me como se salta do telhado, que a tua mãe, os teus tios, os teus avós, se movimentam entre a sala e a cozinha, como se eu nunca tivesse abandonado a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje,  a escrita – um par de sapatos que me ajuda a correr pela vida – parece-me tão pequena diante da tua chegada. Não fui capaz de estruturar as ideias, de inventar metáforas, eu que passo horas a verificar a localização das vírgulas e o ritmo de cada frase. Hoje, nada disso me importa, o mundo apagou-se à minha volta, as infinitas luzes da cidade deixaram de existir, não vejo carros, nem pessoas, nem telefones, nem ambições. E apenas sorrio de volta às mulheres bonitas porque quero falar-lhes de ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo-te para me julgar junto à tua cama, observando-te o sono, indiferente aos barulhos do hospital e aos comentários das outras visitas. Tenho o teu irmão ao meu colo, vamos viajar juntos, comer bolos com açúcar, andar de bicleta durante dias seguidos. E falo-vos ao ouvido de tudo aquilo que havemos de fazer juntos, confesso-vos, muito baixinho – não digam a ninguém – que são aquilo que possuo de mais importante na minha vida. Por isso, não cresçam depressa e esperem por mim no jardim de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nova Iorque, 12 de Maio, 2003&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106574063075240108?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106574063075240108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106574063075240108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106574063075240108' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106565603328830559</id><published>2003-10-09T00:33:00.000+01:00</published><updated>2003-10-10T00:00:29.523+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Não sou obrigado a gostar de todos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou fingir que me interessas. Canso-me mesmo antes de saber a tua vida. Não quero conhecer casa onde vives, o carro que guias, ou o teu filho mais velho, o médico, aquele que se passeava de fato durante os anos de universidade e que, tal como tu, julga que uma licenciatura é o equivalente a um título aristocrático, ou uma súbita oferta de inteligência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto os aviões desaparecem nas janelas da sala de espera, quase que roçamos os braços nas cadeiras. Posso mesmo ouvir-te respirar. Até falamos a mesma língua. Mas a tua estupidez incomoda-me. O que tens para me dizer não me interessa. E nunca estarias disposto a deixar-me falar. Apesar de agarrarmos passaportes com a mesma nacionalidade, garanto-te, não seremos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sei que aquela é a tua mulher, reparo como a gordura dos tornozelos transborda o contorno dos sapatos e encontro-lhe os dedos ásperos, procurando cuspo na língua, para depois alcançarem os cantos das páginas de uma revista. Dizes-me que ela é uma mulher doente, que passou a vida a lavar paredes, que gastou o corpo para educar os filhos. Falas-me de como lhe deste uma televisão que ocupa toda a sala e em todo o conforto, comida, e oportunidades, que providenciaste à tua família. Repetes a descrição dos objectos adquiridos e o valor que pagaste por cada um deles. E enquanto relatas tudo isto, mastigas pão que se entranha entre as gengivas e os dentes postiços. A tua vida são coisas e alimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo encontrar admiração quando me contas como saíste de Portugal para viver numa cave de Newark. Não me interessam os anos em que visitavas, em Agosto, uma aldeia onde os criminosos construíam prédios coloridos e as autoridades locais enriqueciam. Não consigo tolerar como destróis a gramática e como combinas a sintaxe de línguas diferentes sem qualquer imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas conversas sobre dinheiro, quase nunca sobre pessoas. Agrada-te como enganaste, durante muito tempo, o Estado e os homens que cobram impostos. Falas-me de todas as propriedades de que poderias ser dono. Mas, dizes, houve sempre alguém a querer roubar-te. Não aprendeste nada quando saíste de Portugal. Vives em Newark como se habitasses um buraco na terra. Não consegues ver além. No entanto, julgas-te mais esperto que qualquer estranho. E a insatisfação dos outros é o teu maior prazer. Não trazes nada de novo. És medíocre, e, ao fim e ao cabo, inconsequente. Se deixasses de respirar, poucos se dariam conta. Eu sei que toda a vida humana deve ter um valor. Sem preço. É por isso que – para não começar a acreditar na inutilidade de gente como tu – me levanto e caminho para longe, como se não quisesse apanhar um avião para a mesma cidade onde vais aterrar. Por vezes, gostava de ser de outro país, melhor, de outro planeta.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106565603328830559?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106565603328830559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106565603328830559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106565603328830559' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106555808359953534</id><published>2003-10-07T21:21:00.000+01:00</published><updated>2003-10-07T21:21:23.473+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Para ler e deitar fora&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda estou aqui. Corri os fechos das malas, pousei o passaporte na mesa, guardei no bolso algum dinheiro para o táxi. Resta-me esperar. E, no entanto, nada disto me parece dramático, não encontro apertos no estômago ou um estremecimento no interior dos nervos. Há apenas uma serenidade que se estendeu a todas as ruas. Esta manhã caminhei pela cidade e não havia esquinas nostálgicas, apenas um dia de Outono, e o sol resplandecendo nos semáforos e nas montras das lojas. Vejo-me sentado e, mais uma vez, ocorre-me a imagem de um lutador, as mãos penduradas entre as pernas, a cabeça baixa, esperando o momento de começar. Mas não existe medo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou escrever sobre a cidade. Qualquer um sabe que há sempre coisas que falham quando nos esforçamos por entorná-las para as palavras. Há instantes que são apenas para experimentar, a sós, sem mostrar a ninguém. E o que guardo hoje, o que tenho comigo, não é para ser revelado. Foi em Nova Iorque que aprendi que viver é muito mais importante que escrever. E nem tudo o que nos acontece é susceptível de ser literatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não falarei dos meus amigos nem utilizarei as imagens cinematográficas da cidade. Respiro fundo e espero que me chamem. É como se ouvisse o rumor de uma audiência lá fora. Esperam-me. Tenho que ir. Apanho os óculos escuros que me escondem os olhos. Levanto-me e caminho para a porta. Quando o táxi atravessar a ponte, garanto-vos que não olharei pelo vidro traseiro à procura da cidade. Nestas ocasiões, não sou homem de olhar para trás. Nunca fui. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106555808359953534?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106555808359953534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106555808359953534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106555808359953534' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106546548988074666</id><published>2003-10-06T19:38:00.000+01:00</published><updated>2003-10-06T19:38:09.620+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;I’m in a New York state of mind&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho três malas em cima da cama. Guardam apenas livros e roupa. Os móveis – quase nenhuns – ficam nesta casa. Os aparelhos eléctricos – ainda menos – serão oferecidos na rua. Não tenho nada, em nenhuma cidade, a não ser as pessoas e os mapas emocionais que desenharam. Os objectos são sobrevalorizados e pesam demasiado quando queremos viajar. Atrasam-nos e adormecem-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei, nestes dias antes da viagem, gastar o corpo para não pensar em mais nada. É por isso que não me despedi, fui largando os amigos a meio de uma conversa, no fim de um jantar, ou quando ainda dançavam numa festa. No entanto, não os abandonei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que viaje amanhã, hoje não é o meu último dia. Mas há quem não entenda que não me vou embora, que não estou a regressar para lado algum, que tudo isto é apenas uma missão profissional e que o regresso será sempre para Nova Iorque. Aprendi que pode haver muitas cidades para visitar, mas apenas algumas para viver. Estou aqui tão bem. Esta cidade é como um adversário que nos abraça sempre no fim do combate. Esta cidade faz de mim um pugilista atento, com os reflexos afiados e o peito ansioso pelo combate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou sair de casa e fazer o mesmo percurso de sempre, sem olhar para cima, sem procurar memórias, sem tentar sentir. Eu sei que não consigo estar quieto e que guardo, no batimento do sangue, junto ao pescoço, a frase de Paul Auster: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dado o tamanho do mundo a última coisa que desejava era jogar pelo seguro”&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Sei que não vou parar, mesmo que esteja aqui, olhando a cidade do terraço, escutando o som das ambulâncias, atravessando as pessoas nos passeios, pronto a desaparecer entre todos, porque eu não existo, eu apenas levito. E podem esperar por mim. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106546548988074666?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106546548988074666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106546548988074666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106546548988074666' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106521482666342430</id><published>2003-10-03T22:00:00.000+01:00</published><updated>2003-10-03T22:11:45.286+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Cartografia íntima de uma ressaca&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se fosses um profissional do álcool e as mãos tremessem pela manhã. No entanto, estavas ontem seguro, diante de um espelho, passando um polegar no queixo para melhorar o sorriso. Um dos teus amigos levantou-se quando passou uma modelo que se preparava para fumar uma cigarrilha:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	“Helena Christiensen. Volto já.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto observavas a ausência de roupa interior de uma mulher que não sabia cruzar as pernas, levantavas a mão para pedir uma bebida, avisavas um outro amigo que lhe sobrava pó branco no arco de uma das narinas. Ele riu-se, passou a palma no nariz e entregou-te um maço de cigarros com uma encomenda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andas assim toda a semana. Acordas e tomas banhos de imersão para depois aliviares as dores de cabeça com um saco de gelo. Dormes quase nada. Passas um produto debaixo dos olhos para esconder os semi-circulos escuros. Mas durante a noite continuas a ser o protagonista. As mulheres admiram-te a eloquência e a forma como as encostas à parede enquanto conversas. Os homens, os teus amigos, respeitam o teu poder, e parece que tocam chapéus invisíveis, levantando-os, para assinalar a tua chegada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem estavas sentado na tampa da retrete de uma casa de banho. Trancaste a porta. Tinhas um copo apertado nos dedos e pensavas se querias regressar. No outro lado havia música e pessoas que se acendiam e se apagavam. Afinal, tudo o que já conheces. Sentiste-te cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje acordaste depois do telefone tocar muitas vezes. Nunca atendeste. Estás na cama, incapaz de procurar comida apesar da fome. Encontras-te fraco e imaginas a cidade que visitaste, ainda este mês, mais a norte, onde experimentaste as manhãs e onde avançaste nos corredores de um supermercado com uma mulher a quem gostavas de fazer cócegas. Havia uma universidade, casas sem uma nódoa nas paredes, famílias nos jardins, e um silêncio que não conhecias há alguns anos. No caminho de regresso ao aeroporto,  viste como as ruas estavam vazias porque as crianças estavam nas salas de aula e os pais trabalhavam, esperando ir buscá-las mais tarde, prontos para lhes dar banho e as sentar à mesa. A mulher a quem não fugiste na cama, deixando – nunca deixas – que enrolasse o corpo todo no teu corpo, tremeu os lábios mas não chorou. Quando lhe seguravas as mãos pensaste no que aconteceria se ficasses. Mas depois havia uma frase de um escritor – Chuck Palahniuk -  que estava colada no céu da tua boca:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Fuck me for saying this but I don’t want any peace until the day I die”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como não tinhas a certeza, agarraste na mala e seguiste caminho, procurando o bilhete de avião no bolso do casaco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, que estás sozinho, na cama, e que o próprio corpo te magoa, percebes que existe outra vida além da cidade onde vives e que talvez consigas sair daqui para outro lugar. Um dia, a mulher que não chorou, talvez esteja à tua espera no aeroporto, para levar-te depois ao quarto tão branco e garantir-te que podes ficar, procurando espaço nos armários para a tua bagagem. Mas, por agora, escolhes uma nova lâmina de barbear e abres as portas do roupeiro, escorrendo uma mão nas camisas. Mais logo, o teu pescoço vai cheirar a perfume e quando entrares num táxi não te vais lembrar de nada disto. Até que voltes a acordar amanhã.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106521482666342430?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106521482666342430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106521482666342430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106521482666342430' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106512265857047873</id><published>2003-10-02T20:24:00.000+01:00</published><updated>2003-10-02T20:39:04.706+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Guantanamera Guajira Guantanamera, por Robert Davis, Soldado de Infantaria&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui ninguém lhe conhece o nome mas todos lhe chamam Sinbad. No dia em que rapou a barba, um dos oficiais admirou-lhe o rosto magro, adolescente, afagou-lhe as bochechas com o carinho violento que apenas os homens demonstram e disse, para que todos escutassem:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;‘Pareces um boneco animado, daqueles que o meu filho vê na televisão”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hoje foi o dia em que Sinbad viu o mar. Nas terras sem água do Afeganistão dizem-me que nem sequer existem rios. O comando general decidiu abrir uma espaço na vedação e autorizar os prisioneiros mais novos, os que estudam, os que começam a falar a nossa língua, a ver o oceano. Olho agora para eles e nem sequer penso em enfiar-lhes uma bala no céu da boca. Porque quando as pessoas vivem juntas, observam-se, conhecem os movimentos dos outros quando lavam a cara ou descascam uma maçã. E, mesmo que tenham matado, eles voltam a ser apenas miúdos. Mas, às vezes, penso naqueles que derreteram depois dos atentados, nos prédios a arder e nos telefonemas debaixo de uma secretária, engasgando-se no fumo, procurando as teclas. É nessas alturas que não reconheço aos prisioneiros nenhuma inocência ou qualquer juventude. Deveria agarrar na minha arma e, numa rajada, explodir-lhes com os órgãos de terrorista.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Recebi uma carta da minha mãe a contar-me que o Richie caiu de um tanque de combate, em andamento, e que não pode mover as pernas. O Richie foi meu colega de escola e era conhecido pela resistência ao álcool e pela coragem de saltar para o lago, de cabeça, do ponto mais elevado de uma ravina. Depois fez uma tatuagem e alistou-se nas Forças Especiais. Imaginei-me muitas vezes no deserto do Iraque, ao lado do Richie, a matar os inimigos. Mas agora tenho medo de vê-lo assim, com os pulmões ajudados por uma máquina, a comer soro, esperando que lhe mudem o saco de urina.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinbad escreve cartas para a família mas não tenho a certeza se alguma vez lhe responderam. Sempre que converso com o meu pai, ao telefone, ele explica-me que os prisioneiros deveriam receber assistência jurídica e que, mesmo durante uma guerra, há regras. Eu digo-lhe que apenas os vigio e que não sei nada sobre tortura. O meu pai está revoltado porque visitou Paris, em trabalho – o meu pai é representante de uma empresa de brinquedos – e em todas as reuniões havia sempre alguém a atacar-nos. O meu pai explicou-lhes que nem sequer tinha votado. O meu pai estudou na universidade e combateu na guerra do Vietnam mas nunca quis matar ninguém. Mas os olhos saudáveis e um batimento cardíaco de trinta e quatro pulsações por minuto resultaram num destacamento para o Grupo de Atiradores Especiais. Porque disparava de muito longe, o meu pai nunca via a cara dos homens que recebiam as balas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu quero regressar a casa e conduzir o meu carro nas ruas da cidade, comer carne, não fazer nada, ficar sentado, com a mão dentro das cuecas, num sofá, ou então jogar às cartas. Quero ter comida no frigorífico. Canso-me deste trabalho e do calor que nos enterra as boinas mais fundo na cabeça e que nos faz escorregar os dedos na coronha da arma. Começo a desinteressar-me do castigo que estes prisioneiros merecem. Quando o nosso desconforto cresce, a miséria dos outros começa a ter menos importância. É por isso que não quero saber de Sinbad ou das mulheres do seu país, apedrejadas, que nunca estudaram ou conheceram um médico. Não me importa salvar o mundo, nem escutar o meu pai quando discursa para a família, afirmando que a melhor maneira de ensinar os assassinos é julgá-los num tribunal, e jamais utilizando tácticas terroristas. O meu pai diz-me que temos que provar que somos pessoas melhores.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hoje mesmo vou entregar um pedido de transferência. Quero estar mais perto de casa, distante de todos os que me podem magoar. Não posso ir para a guerra. Não quero viver com criminosos e metralhadoras ao ombro. Enganei-me. Há homens que não podem lutar. Eu tenho medo. Eu tenho mesmo nojo.” &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106512265857047873?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106512265857047873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106512265857047873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_10_01_archive.html#106512265857047873' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106490292616086730</id><published>2003-09-30T07:22:00.000+01:00</published><updated>2003-10-01T15:34:25.183+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;West Side Highway, 4:13 am/ 4:21 am&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro fica a trabalhar. As portas estão abertas e as colunas emitem a música que começa a propagar-se por toda a rua. Entramos na loja. O cigarro de erva, entre o polegar e o indicador de Pete, continua aceso. O empregado de bigode, com a pele escura, admira-nos pelos ecrãs. As câmaras não nos abandonam. Somos perigosos. Para este homem, tão pequeno, que fala a minha língua com sotaque, nós somos a decadência que poderá contaminar-lhe os filhos, os valores e o negócio. Este homem detesta os nossos cabelos loiros, a independência financeira da minha mãe, o dinheiro que o meu pai gasta nas sessões de massagem. Vejo as raparigas, nossas amigas, sem cor, num dos ecrãs. Retiram do frigorífico caixas de cerveja. Pete abre chocolates e morde-os apenas uma vez. Depois volta a colocá-los na prateleira. Passa-me o cigarro de erva e, ao mesmo tempo que olha para o homem atrás do balcão, começa a mijar na bancada de fruta. As raparigas correm para o carro. Mesmo contaminadas pelo álcool serão sempre muito mais bonitas do que as filhas do empregado da loja. Usam perfumes, passam cremes na cara, em redor dos olhos, eliminam todos os pêlos abaixo da linha das sobrancelhas. É no momento em que Jane cai, partindo algumas garrafas de cerveja, iniciando um riso descontrolado, que me imagino abraçado ao seu corpo, debaixo do lençóis, esperando o sono. Vou beijá-la na boca esta noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a janela do carro aberta, Pete passa junto do empregado que tem uma pistola numa mão e um telefone na outra. Cospe-lhe na cara e apaga os faróis para que não se descubra a matrícula. As balas são disparadas para o céu e rimo-nos, encostando a cabeça aos joelhos. Entramos na auto-estrada e Jane, mesmo ao meu lado, no banco traseiro, diz qualquer coisa sobre a beleza do rio, e da costa, e dos prédios. Depois abre os lábios e entorna metade de uma garrafa de cerveja na boca. Encostadas a Jane, viajam outras raparigas. Pete conduz um dos carros da família, e ao lado, com a cabeça a bater no vidro, está mais alguém. Pete fecha os olhos e tira as mãos do volante, tem outro cigarro de erva nos lábios e agarra nos cabelos de uma das raparigas. Com os dedos, pressiona-lhe os maxilares e, quando consegue abrir-lhe a boca, passa-lhe o fumo usado para os pulmões. Um pneu bate na berma, o volante movimenta-se, estamos a apontar para o rio. O nosso condutor continua de olhos fechados, um táxi buzina, até que Pete, controlando o carro, move o dedo grande devagar, deixando os outros dedos imóveis, a mão como se flutuasse, fora da janela, a apontar para o planeta.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ordeno a Pete que aumente a velocidade e abro a minha janela. Espreito sobre banco para lhe ver a perna empurrando o pedal. Procuro o ponteiro, cada vez mais rápido, a rodar sobre os números. Quando chegarmos a casa da Jane, vamos sentar-nos no sofás, deixar cair os sapatos no chão, entrelaçar as pernas, partilhar garrafas. Vamos rir-nos até que nos doam os músculos da cara e desenvolver ideias geniais. Vamos ainda atirar objectos de vidro pela janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No carro, a esta velocidade, ou apenas fechados na casa de Jane, nada mais me poderá interessar. Tudo o resto é tédio. A destruição é única resposta para uma ordem que não procuro. Não quero ser obrigado a ter piedade do empregado da loja e da pobreza dos seus filhos deformados e com roupas sujas. Não quero ver o meu pai, pela manhã, apresentando um fato escuro, sem qualquer linha na lapela, ou sequer assistir a programas de televisão que elogiam os medíocres. A vida de todas essas pessoas é inútil. E apenas o dinheiro que a minha mãe me providencia, todos os meses, poderá ser um investimento seguro. Eu sou inteligente, corajoso, bonito, musculado. E serei assim para sempre. Muitos se lembrarão de mim. Mas ninguém recordará os que nem sabem comer à mesa, os que dormem na rua, os que decidem envelhecer.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A língua de Jane entra nos meus lábios. Fecho os olhos e escuto os carros, no outro lado da estrada, sempre que atravessam a nossa velocidade. Beijamo-nos e começo a ficar enjoado. Imagino os postes de iluminação pública a rodarem à minha volta. Mas é Jane quem se afasta. Observo-a com uma mão cobrindo a boca, procurando a janela. Por entre os dedos saem-lhe fios de líquido branco que me sujam as calças. Agarro-lhe nos cabelos porque Jane não consegue segurar o pescoço. Procuro vomitar também, mas levanto a cabeça e escuto um estrondo, um objecto com pêlo estilhaça o pára-brisas, volto-me para trás, era um animal, o carro embate no pneu de um camião e começa a rodar. A pessoa que viaja no banco da frente cai para cima de Pete, as raparigas gritam, não sinto a pressão do cinto de segurança no peito, um carro apoxima-se, vai bater-nos, choque frontal, a música pára de sair das colunas, escuto metal e vidro, estamos ao contrário, acho que de cabeça para baixo, sinto um cotovelo espetar-se entre as minhas costelas, a língua procura os dentes da frente, não encontro nada, Pete não está dentro do carro, continuamos a deslizar no asfalto, as rodas do camião estão perto da minha cara, mais perto, e &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106490292616086730?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106490292616086730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106490292616086730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106490292616086730' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106479538005070367</id><published>2003-09-29T01:28:00.000+01:00</published><updated>2003-09-29T01:29:39.790+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Manual de engate para homens que não choram, por Joe Vincenzo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo que nunca testemunhasse as vitórias do meu pai, sabia que ele chegava a casa com o mesmo sorriso dos vencedores de um Grande Prémio. O meu pai era um homem que vivia depressa entre os outros homens, mas que ganhava sempre. O meu pai era o que as mulheres queriam. E até poderia ter sido um actor famoso, num cartaz, na rua mais movimentada da cidade, anunciando-se, com um cotovelo no bar, um sorriso, aquele sorriso, puxando um canto da boca para cima como a prometer-lhes o que elas nunca haviam provado.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Houve mulheres que dormiram comigo e que quiseram ser minhas mães, irmãs, ou amigas. Mulheres que me quiseram explicar que eu sou o que sou por causa do meu pai. Mas não. A minha mãe morreu, ou fugiu. No entanto, o meu pai não era homem para contar coisas que magoassem, e não havia sequer fotografias lá em casa. Nunca precisei de uma mãe substituta. Não tenho irmãs, apenas irmãos. E não quero mais família. A psicologia, a interpretação da personalidade, é para os fracos, e se eu gosto de mulheres não é porque a minha mãe nunca existiu, ou porque o meu pai gostava de mulheres, mas apenas porque preciso, porque quero ganhar, e porque penso muito em mulheres, em sexo com mulheres. Não dá dinheiro, mas poderia ser uma profissão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não existem regras ou sequer segredos para vencer. Muitas vezes é apenas improvisação. Mas, tal como um desportista profissional, a prática prepara-nos para o imprevisto. Entramos num bar e olhamos em redor, estudamos a disposição das pessoas, procuramos apenas o que interessa, apagamos a presença dos outros. Mesmo ali, está um grupo de loiras, sotaque estrangeiro, risos para se ouvirem. Estão em pé apesar de haver mesas onde se poderiam sentar. Estas mulheres querem ser vistas. Não estão aqui para enganar ninguém. Mais adiante, vemos duas pós-adolescentes que conversam e que movimentam as mãos para sublinhar a importância do que querem dizer. Encontram-se num espaço que lhes pertence. Sentam-se naquela mesa mas poderiam estar numa biblioteca. Não querem ouvir mais ninguém. Voltamos a olhar para as loiras.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O meu pai nunca nos arranjou uma mãe por empréstimo. Não levava mulheres para casa. Havia um espaço para trabalhar e outro para a família. Sentava-se no sofá da sala, enquanto os filhos brincavam, e sorria, como se as mulheres ainda estivessem de joelhos, agarrando-lhe as pernas, pedindo-lhe que ficasse. Mas o meu pai, mesmo de madrugada, regressava sempre. E antes de se deitar, garantia que os filhos estavam bem protegidos pelos cobertores.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se podem perder oportunidades. Observamos cada mulher que nos interessa. Depois voltamos a olhar para aquelas que nos corresponderam. Então, avançamos. Insisto, não se podem perder oportunidades. Não podemos esperar junto do balcão ou fingir desinteresse. E vamos ser sinceros, uma boa frase para começar uma conversa não surge sempre, nem sequer é resultado de preparação. Se estamos fracos, vazios de palavras, não podemos mostrar fragilidade. Para ostentar confiança, basta fingir que reconhecemos as nossas fraquezas. E mentir. Aproximo-me agora de uma das loiras com sotaque estrangeiro que olhou para mim mais que uma vez: &lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;‘Eu sei que isto vai paracer ridículo, mas acho que nos conhecemos.’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao assumir, sorrindo, que a minha frase não é brilhante, revelo sentido de humor, pareço seguro mas também conhecedor do meu erro, e ela sorri. Agora tenho que falar, mostrar quem sou. Se nos primeiro momentos ela não estiver concentrada em cada palavra que lhe ofereço, peço desculpa e recomeço o trabalho com outra mulher. Da mesma maneira que não se podem perder oportunidades, também não se pode desperdiçar tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “O meu pai parou de foder, aos sessenta e sete anos, por causa de um cancro. Em semanas deixou de ser um homem alto, com cabelo e ombros largos, para ser um velho encolhido, cuspindo sangue, que precisava da ajuda dos filhos para se sentar na retrete. O sorriso do meu pai desapareceu, o meu pai passou a ser aquele que chegava em último lugar numa corrida. Nem sequer podia mijar de pé. E mesmo que as mulheres aparecessem em casa, o amassem, lhe trouxessem sopa, o meu pai nunca voltaria a ser o homem que as agarrava pelas ancas e as lançava para cima de uma cama. O meu pai deixara de providenciar prazer e procurava apenas conforto. Era uma pena vê-lo assim, com mulheres segurando-lhe as mãos pálidas, quando o que queriam era sentir-lhe o tamanho do sexo entre os dedos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou no quarto de hotel da loira com sotaque estrangeiro. Aperto o cinto e  procuro as meias na alcatifa. Ela ergue o corpo, senta-se na cama, e pergunta-me por que me visto. Se começamos a foder por hábito perdemos a novidade da experiência. É como uma erecção incompleta. Se ficasse aqui, partilhando uma cama, acabaria a viver com tardes de compras, choros numa sessão de cinema, sexo calendarizado e filhos com quem gritar sempre que estragam a mobília. Os corpos gastam-se depressa. Em apenas algumas sessões passamos a conhecer os pormenores, os lugares que nos interessam, as frases que nos excitam. A unica solução para o desgaste é outro corpo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Havia muitas mulheres no funeral do meu pai. Eu e os meus irmãos estávamos num lado da cova e elas do outro. Era como se pudesse ver o meu pai em cada uma delas, o que lhes dissera, os quartos de motel, um pente a deslizar no reflexo do espelho, os pés a entrar nos sapatos, e elas a pedirem que ficasse, que pelo menos dormisse na mesma cama. Eu sei que o meu tempo está contado. Que vai haver um dia em que não vou funcionar. Que vai haver uma manhã em que vou cuspir sangue e em que o médico me vai anunciar um prazo de validade. É agora que tenho que viver. Abandono o quarto, arranjo as golas da camisa diante da porta do elevador, alinho o cabelo com os próprios dedos. Entro no elevador. Num canto, entre  algumas pessoas, há uma mulher que me olha. Não há nenhuma frase inédita na minha cabeça. Apenas vontade de actuar. Ela caminha agora pelo corredor. Eu aproximo-me, puxo o canto do lábio para executar um sorriso. E quando entramos na sala do pequeno-almoço, sabemos já que vamos sentar-nos na mesma mesa.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106479538005070367?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106479538005070367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106479538005070367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106479538005070367' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106453235300749757</id><published>2003-09-26T00:25:00.000+01:00</published><updated>2003-09-26T00:25:52.806+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Se é lixo, não interessa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em criança o tempo era muitas vezes organizado pela programação televisiva. Interrompíamos jogos em que, se um fazia de guarda-redes, o outro ocupava-se em marcar penalties. E entrávamos na sala, roupa pegada à pele, para ficarmos tardes inteiras a derreter diante do ecrã. Já na adolescência, recordo a impaciência dos meus irmãos logo que se anunciava uma noite com programas que não lhes interessavam, como se não houvesse mais nada para fazer e o tudo resto fosse monotonia, como se a noite fosse uma divisão da casa, em silêncio, sem o rumor e a electricidade estática de um ecrã. Hoje, depois de alguns anos, perdi o hábito de carregar no botão do controlo remoto assim que entro em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses são o povo – entre os países da União Europeia – que gastam mais tempo a ver televisão. Durante anos agendaram os serões e as visitas ao café consoante a duração de um episódio de uma telenovela. Os jornais, os políticos, a própria televisão – num exercício arrogante, umbiguista e promocional – não param de falar das pessoas televisivas, dos programas, da ausência de qualidade. A televisão é, muitas vezes, o tema nacional, um motivo de interesse entre famílias, o assunto que se discute, pela manhã, no escritório, enquanto se deixa cair moedas na máquina do café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal é talvez o único país novo rico que não deixa de ser pobre. Apesar dos carros que avançam nas estradas, da obsessão com os telemóveis, e da qualidade dos electrodomésticos, continuamos a ser pobres. E não me refiro apenas ao dinheiro, mas aos recursos humanos, à educação, aos interesses. Um país que passa tanto tempo a preocupar-se e a falar sobre televisão é um país atrasado. A televisão é para a maioria dos portugueses um milagre, o único entretenimento, a principal forma para aprender ou compreender o mundo. A televisão é indispensável. É tão fundamental que o Estado financia todos os anos uma empresa cancerígena que come os impostos dos contribuintes. A bem do serviço público. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A histeria com o lixo televisivo é quase uma patologia clínica. Seja na excitação manifestada pelo público sempre que estreia um novo programa, seja no estalinismo cultural e na petulância revelada por todos aqueles que gostariam de  controlar o gosto dos outros. Mas lixo – seja na televisão, na literatura, ou na música – existirá sempre. O que importa são as alternativas. E, se falarmos de televisão, Portugal tem escassas alternativas. A solução não é apenas eliminar esse lixo – porque ele não vai acabar - mas antes providenciar às pessoas alternativas. Dentro e fora do ecrã. Mostrar que há coisas melhores para ver. Ou para fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Estados Unidos serão, provavelmente, os maiores produtores de programas de televisão. Inventam e transmitem muito lixo, por vezes, o pior lixo. Mas na imensidão de canais há sempre outra coisa para escolher. Em vez do espectáculo informativo da CNN, com bandeiras americanas, banda sonora e directos inúteis, posso optar pela BBC, pela News World International – canadiana – e, se soubesse falar chinês, alemão, ou italiano, pelas estações que, em todo mundo, transmitem entretenimento e notícias. Aqui, é verdade, há muito lixo, mas existe também a possibilidade de escolha. Em Nova Iorque – ao contrário do que fazia em Lisboa – não me recordo de conversar, à mesa, com amigos, sobre o participante de um novo reality show ou sobre a absurda notícia de abertura de um telejornal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A televisão – principalmente o lixo televisivo - não é assim tão importante. A televisão não pode ser, como é em Portugal, uma condição absoluta ou sequer necessária para a sobrevivência humana. Há muito mais coisas para fazer, há muito mais para nos preocupar. Um país pode não ser aquilo que parece ser no ecrã, mas será sempre a importância que dá a tudo o que vê na televisão. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106453235300749757?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106453235300749757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106453235300749757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106453235300749757' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106446594916581640</id><published>2003-09-25T05:59:00.000+01:00</published><updated>2003-09-25T05:59:09.333+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Toda a matéria é combustível&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do eficiente trabalho de depilação e de maquilhagem, Bob continua a ser um homem debaixo das calças que lhe apertam o pénis. Mas agrada-lhe que os colegas do escritório lhe chamem Laura, em homenagem à cantora de ópera que morreu, tragicamente, quando forçava uma nota na garganta e uma veia lhe rebentou na cabeça. Bob passa as noites em bares sem luz, deslizando vestidos de noite, cantando ao ouvido de turistas casados que procuram sexo sem pagar. Por isso, demora-se, com sono, na cama, e chega atrasado, quase sempre, ao escritório. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta manhã, é chamado por uma assistente que lhe pergunta pelas flores. Como Bob não cumpriu, resta-lhe arrumar as fotografias, a caneca para o chá, as máscaras que comprara nas férias, num país estrangeiro, e procurar um outro emprego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de despedir Bob e de fechar a porta, a assistente imagina a cara do homem a quem vai telefonar, apertando as unhas contra um pulso. Mesmo que não o conheça, procura estar apaixonada por ele. Os dedos pressionam os botões com números. Numa outra rua, num outro edifício da cidade, o homem aproxima o telefone da cara. Está em cuecas e passa uma escova de dentes nos sapatos que tem calçados. A assistente relata-lhe o atraso das flores e explica que, dentro de minutos, chegar-lhe-á a casa um fato novo, limpo, desenhado por encomenda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem desliga o telefone e escuta a campainha da porta. No lado de lá, encontra-se um mensageiro com um capacete e um porta fatos. Tem o cabide pendurado no dedo indicador. Quase que se ajoelha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	‘Ouvi falar muito de si, estou ansioso pela noite de hoje, boa sorte.’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mensageiro regressa ao escritório, numa motorizada, a grande velocidade, desviando os joelhos dos carros mal estacionados. Apanha mais uma encomenda e avança para os estúdios de televisão. No interior do envelope, que uma jornalista recebe, e que depois abre, já sentada na retrete da casa de banho, estão dados biográficos e uma sinopse do trabalho do criador. A jornalista limpa-se, agarra no telefone portátil e, ainda de cuecas em redor dos joelhos, liga ao homem que insiste em polir os sapatos com uma escova de dentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Não se esqueça, a entrevista, sete da noite, em directo, antes da festa, estamos todos à espera de um grande acontecimento.’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir deste telefonema, e durante toda a tarde, o homem deixa que as pessoas conversem com a caixa de mensagens. O telefone faz-se ouvir, escutam-se pessoas que nem sequer o conhecem, felicitações em diferentes línguas, ofertas de contratos para publicitar produtos de primeira necessidade. O homem sai de casa com a escova de dentes no bolso do casaco. No passeio, recusa a limusina, escolhe o comboio. Já no interior da carruagem, encontra, no reflexo da janela, um resto de barba que não foi eliminado pela lâmina. Num dia tão importante, nenhuma mácula será autorizada. Decide, portanto, sair na estação seguinte, entrar num supermercado, e comprar lâminas e espuma de barbear. Numa casa de pública, desliza a lâmina na pele, e apesar da brevidade da tarefa, faz um corte junto do queixo. Para estancar o sangue, utiliza uma tira de papel higiénico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta a entrar no comboio e, quando chega à estação onde deveria sair, o homem permanece diante das portas automáticas, esperando que se voltem a fechar. No estúdios de televisão aguardam-no, as flores chegaram, e as pessoas que nem sequer lhe conhecem a cara, a voz, o talento, mas que já leram artigos de jornal sobre o mistério do seu trabalho, vestem-se agora com roupas que servirão para impressionar os outros convidados da festa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem tem apenas dezanove anos e está dobrado sobre os próprios pés, passando a escova de dentes nos sapatos. Há um cheiro intenso, que parece escorrer nas paredes que o rodeiam. O homem – afinal um rapaz – levanta-se e sai para a rua, ficando diante do armazém onde deveria realizar-se a festa e onde se encontra o seu trabalho. Todos os empregados estão à sua volta, não conseguem reagir, olham-no com admiração. Os garrafões que continham gasolina estão vazios. Depois há a cabeça de um fósforo que explode. O fogo inicia-se e tudo arde. Esta noite ninguém chegará a testemunhar o seu verdadeiro talento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, Bob, vestido como Laura, abre a boca e leva a mão ao peito diante das imagens em chamas que presencia em directo no ecrã. A jornalista espera, sentada numa cadeira, debaixo das luzes do estúdio, recebendo instruções por um auricular. A assistente masturba-se quando as câmaras dos helicópteros apanham o corpo do rapaz em movimento, caminhando para longe do fogo. O número de espectadores diante de aparelhos de televisão não pára de crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparado para começar tudo de novo, em silêncio, e longe desta cidade, o rapaz avança, em câmara lenta, com um fio de papel higiénico preso no queixo e manchado de sangue. Mas os sapatos brilham, e os braços abrem-se. Depois, o corpo desaparece numa esquina. Não volta a aparecer. Especula-se, agora, em programas de informação, que, antes do incêndio, o rapaz enviou um bilhete para casa dos pais. No papel encontrava-se apenas esta frase:&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;“Sou eu quem decido o que vocês vão ver e nunca o contrário.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Post Scriptum -  Aqui ao lado, na mesma cidade, até poderíamos ser vizinhos.&lt;/em&gt; &lt;a href="http://www.aterrivelverdade.blogspot.com"&gt;A Terrivel Verdade.&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106446594916581640?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106446594916581640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106446594916581640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106446594916581640' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106435189734772289</id><published>2003-09-23T22:18:00.000+01:00</published><updated>2003-09-24T01:07:42.766+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A geração perdida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que cheguei a Nova Iorque, para viver, passei uma semana a fazer câmbios dentro da cabeça, nos corredores de um supermercado, para regressar a casa, sem sacos na mão. Eu já sabia que esta era uma das cidades mais dispendiosas do planeta, por vezes obscena. Mas não conseguia reagir quando encontrava uma caixa de plástico, mínima, com pedaços de ananás, que custava muito mais que o fruto inteiro num mercado de Lisboa. Depois, desisti, esqueci a moeda nacional, comecei a pensar em dólares e a fazer sacrifícios para conseguir pagar a renda. Nova Iorque é a pior cidade do mundo para não ter dinheiro. Há muito para ver, fazer, experimentar. Acontece que eu vim para Nova Iorque sem depender de ninguém, por vontade própria, sem querer ajuda e sem o objectivo de trabalhar para o Estado português.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já os estagiários da missão portuguesa nas Nações Unidas, que estão sob a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e que estão a prestar um serviço ao país, não recebem qualquer salário para trabalharem em Nova Iorque. Diz quem sabe que há muitos países que também não pagam aos estagiários, como se um erro cometido muitas vezes justificasse a falta. Parece que são os países escandinavos que mais cumprem. Não admira que eles estejam entre os mais civilizados. É errado, em qualquer situação, não pagar a alguém pelo trabalho que esse alguém executa. É errado querer fazer diplomacia de cuecas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Nova Iorque, é quase impossível arranjar um quarto – repito, um quarto, não uma casa – por menos de 700 Euros. O passe de metro, para uma semana, é mais caro que o passe mensal em Lisboa. O dinheiro que se gasta para comprar um iogurte, num supermercado de Manhattan, chegaria para levar para casa três iogurtes em Portugal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, um estagiário dependerá sempre da família, das poupanças, nunca de uma bolsa, nem de um investimento do Estado, apesar de trabalhar para o Estado. Se há um rapaz, excelente aluno, brilhante profissional, que tem a má sorte de ter pais que trabalham na função pública, que descontam os impostos na fonte, lá se vai a oportunidade de aprender nas Nações Unidas. O Estado português é estúpido, porque não sabe que – em qualquer negócio – é preciso um investimento para obter resultados, mesmo que seja a longo prazo. Uma vez que o Presidente da República, o Primeiro Ministro, e dois ministros, estão em Nova Iorque, para participarem na Assembleia Geral das Nações Unidas, gostaria de poder perguntar-lhes por que é que os estagiários não recebem dinheiro pelo trabalho que produzem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que a diplomacia é importante. Eu não quero que os governantes do meu país cheguem de bicicleta a um encontro com um chefe de Estado estrangeiro. Não os quero sozinhos, mal vestidos, esquecidos do protocolo. Mas questiono-me sobre a necessidade de uma comitiva de 34 pessoas, hospedada, durante três dias, em dois dos mais caros hotéis de Nova Iorque. E questiono-me se será justo – não, não é demagogia – que o primeiro ministro traga o fotógrafo pessoal, para dormir nos quartos do Four Seasons, onde a diária é de cerca de 500 Euros.  Se estamos em fase de redução de gastos, então é para todos. É uma questão muito simples. Não se pode exigir aos outros aquilo que não cumprimos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema dos nossos políticos é a vontade do imediato, que se manifesta, entre outras coisas, no eleitoralismo. Em Portugal, não existe investigação nas faculdades, as bolsas para estudar no estrangeiro são ridículas – há uns anos, entre 600 estudantes estrangeiros a estudar em Murcia, Espanha, os únicos que não tinham apoios eram os portugueses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o imediatismo começa muito cedo, nos centros de estupidificação e formação de mau carácter que são as juventudes partidárias - eu  passei algumas semanas com eles, sei o que digo. Aos vinte anos, quando deviam pensar em aprender alguma coisa, os rapazes e raparigas já andam a organizar eleições, a negociar lugares, a traírem amizades. Seria interessante que os partidos agarrassem no dinheiro ilegal que recebem das companhias farmacêuticas ou das empresas de construção, e em vez de gastar tudo em autocolantes, apostassem na educação dos seus futuros políticos, os ajudassem a estudar no estrangeiro, ou a estagiar nas Nações Unidas. Mas isso dá muito trabalho, não é para já, não traz estatuto, dinheiro, nem poder, agora, neste momento, que é quando lhes interessa. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106435189734772289?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106435189734772289'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106435189734772289'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106435189734772289' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106426101312999986</id><published>2003-09-22T21:03:00.000+01:00</published><updated>2003-09-23T22:52:01.510+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Quero ser como tu&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja a qualidade dos protagonistas ou a beleza do enredo, mas o cinema costuma ser mais interessante que uma vida normal. É por isso que hoje – após muitos anos a pensar numa carreira de pugilista, rebelde, justiceiro, solitário, ou chefe do crime organizado – pondero ser apenas um homem que envelhece, estrela de Hollywood, perdido em Tóquio, mas que consegue fazer sorrir uma mulher mais nova. Eu quero ser Bill Murray, em Lost in Translation, o segundo filme de Sofia Coppola.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma adolescência a imitar personagens musculadas, intelectuais sedutores, ou polícias que acabam suavizados por mulheres bonitas, escolho ser agora um homem cuja cara no espelho começa a pesar, uma cara que é uma coisa qualquer menos a cara que já foi antes. Sou esse homem que não consegue dormir, longe de casa, e que descobre o silêncio insustentável quando é ignorado pelo ruído das ruas de Tóquio. A minha mulher é uma voz no telefone, também distante, que se preocupa com a escolha da alcatifa para uma das divisões da casa. A minha carreira é filmar anúncios de whisky japonês com pessoas que nem sequer falam a minha língua. E no entanto, enquanto fumo charutos amassados e me embebedo, aparece essa miúda loira, os lábios espessos, os olhos tão tristes. Eu quero estar hoje num elevador, em Tóquio, e ver Scarlett Johansson que me sorri entre japoneses que apenas olham em frente, enquanto eu olho para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Sofia Coppola conseguiu fazer foi um filme onde eu quero estar. Como quero estar deitado, sobre a colcha, vestido, conversando com Scarlett Johansson enquanto o sono nos vai comendo as ideias e demorando as palavras. Quero tocar-lhe no pé magoado e apagar, como apagamos tantas vezes por causa do sono, a meio de uma conversa. O que Sofia Coppola me ofereceu foi um filme que me faz egoísta, que quero apenas para mim, como se fosse a minha vida. Lost in Translation consegue beleza e significado sempre que alguém permanece em silêncio; revela o humor que sempre quisemos mostrar a quem gostamos; é verdadeiro, sincero, e tão bem feito que me esqueci de procurar as costuras do enredo. Cada cena, cada detalhe – assim devem ser os filmes – não são apenas um capricho da realizadora em busca da beleza das imagens, mas um momento decisivo para contar a história que se quer contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou lembrar-me também de uma sala de cinema, em Brooklyn, construída num prédio de habitação, onde os estreitos corredores, e as portas – antes eram quartos, cozinhas, casas de banho – mostram as estrelas de cinema pintadas pela mão de algum artista amador. Há ainda a fotografia de James Dean, as golas do casaco levantadas e o cigarro na boca apontado à desolação da rua onde, com toda a certeza, vai chover. Gostaria de ter entrado no mesmo cinema, e repetir tudo outra vez, pois essa seria a forma mais aproximada de ser eu o protagonista do filme. Nos dias que se seguiram, ainda hoje, quero estar sentado diante de Scarlett Johasson, num restaurante, e ser capaz de a fazer sorrir, saber que sou eu que me esqueço de tudo, longe, em Tóquio, e entregá-la ao quarto de hotel sem ter a certeza se, alguma destas noites, antes de regressar a Los Angeles, vou ter coragem para a beijar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106426101312999986?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106426101312999986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106426101312999986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106426101312999986' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106400259900225130</id><published>2003-09-19T21:16:00.000+01:00</published><updated>2003-09-19T21:16:38.943+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;All the way from China&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que não se esqueça de todas as tradições familiares, Xinyu Ling sabe que o dinheiro é mais universal que qualquer passado. E é por isso que viaja pelo mundo, apenas visitando os pais e os irmãos, nos subúrbios de Nova Iorque, quando se comemora um aniversário.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante as viagens de negócios guarda sempre uma tarde para comprar uma mala. É nessa mala que transporta os produtos de luxo que descobriu em revistas. A casa de Xinyu Ling é uma exposição permanente de objectos caros, exclusivos, e vendidos em diferentes capitais do planeta. As mulheres que lá dormem podem escolher o que quiserem antes de abandonarem o apartamento. Sentado no sofá, Xinyu Ling começa a pensar como poderá substituir aquilo que acabou de oferecer, seguro de que os objectos são a forma mais competente para permanecer na memória dos outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias antes de visitar os pais, começa a programar uma refeição. Os ingredientes, a sequência dos pratos, o vinho, tudo é discutido com especialistas. São contratados cozinheiros e empregados de mesa. Xinyu Ling come sempre sozinho, e depois entra num carro com motorista para jantar com a família. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já diante da comida chinesa, confessa um inesperado desconforto no estômago, empurra as tigelas de porcelana com os dedos e pensa no que irá fazer no dia seguinte. Nestes encontros familiares, Xinyu Ling é um homem que está sempre em outro lugar, um aluno desatento que espera o momento de regressar a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o filho mais novo, nasceu no Estados Unidos e estudou em Harvard. É o único irmão que não serviu à mesa nos restaurantes do pai – um homem com tamanho de criança que fugiu da China num barco e que demorou meses, passando pela América do Sul, até ser lançado ao mar, na costa da Califórnia. Nas fotografias, na casa da família, Xinyu Ling aparece sempre de fato, gravata, as mãos diante do corpo, apresentando a postura de um homem brilhante. O orgulho de uma geração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez, há alguns meses, Xinyu Ling visitou a China e voltou a conversar num idioma que evitava desde criança. Se os pais lhe falavam em cantonês, respondia com um inglês de televisão, atirando-lhes expressões que apanhava em filmes e que repetia vezes sem conta para parecer mais americano. Na China, encontrou-se com homens de negócios, assinou contractos, conseguiu mais dinheiro. A empresa onde trabalha vai conquistar o mercado asiático. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedido do pai, visitou a campa de um primo que foi condenado à morte, acusado de roubar e falsificar documentos. A polícia chinesa assegurou ao tribunal que o rapaz de dezanove anos pretendia fugir para os Estados Unidos e que roubara passaportes a turistas que procuravam casas de ópio. No dia 9 de Janeiro de 1993 foram sentenciados à morte 356 presos. Entre os 62 que foram executados nesse mesmo dia, com um tiro na nuca, numa praça pública, estava o primo de Xinyu Ling.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de caminhar pelo cemitério, sem encontrar a campa, e como ainda não comprara nenhuma mala de viagem, Xinyu Ling apressou-se a entregar um envelope com dinheiro à família. Diante da pobreza que acabara de conhecer, continuava a ser alguém que queria estar num outro lugar. Havia pessoas mais importantes a quem apertar a mão. A lógica da solidariedade, de acordo com Xinyu Ling, funciona através do dinheiro. Quanto mais dinheiro conseguir nos negócios com a China, mais poderá enviar, por correio - nunca por mão própria - aos familiares indigentes. A distância também pode ser felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje, Xinyu Ling nunca mais voltou à China, mas os negócios com o governo chinês garantiram-lhe um prémio monetário no final do ano. Quando lhe perguntei o que mais gostara na visita à China, respondeu-me que não se lembrava. Usou a mesma resposta quando procurei saber o nome do primo que morreu no momento em que uma bala lhe fez explodir o cérebro.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106400259900225130?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106400259900225130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106400259900225130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106400259900225130' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106391521951281983</id><published>2003-09-18T21:00:00.000+01:00</published><updated>2003-09-23T22:54:28.493+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Curta biografia de um desconhecido famoso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;O rapaz chegou à cidade para ser grande. Mas apenas encontrou empregos que lhe custavam cortes nas mãos e a vontade de dormir sempre que abria a porta do apartamento. Continuava a escrever e a preparar personagens diante do espelho da casa de banho. E acreditava que o anonimato e a pobreza seriam períodos inevitáveis no percurso do artista para a fama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o dia enfiava-se dentro da pele de um animal e distribuia panfletos à porta de uma loja de brinquedos. Escolheu este emprego porque mantinha a cara escondida. Mesmo sabendo que seria grande, enorme, a vergonha de ser ninguém obrigava-o a evitar as pessoas altas, bonitas, com dinheiro, ou com sucesso. Trabalhava ainda como ajudante num talho, fez de figurante em filmes pornográficos, foi convidado, por um caçador de corpos, para se mostrar no bar de um hotel de luxo. No contrato verbal, constavam três noites de trabalho por semana, um fato, algumas camisas, e um par de sapatos, tal como a obrigação de sorrir às mulheres mais velhas, a necessidade de levá-las a pagar bebidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ceta noite, enquanto esperava para entrar na casa de banho, viu a mulher que começava a acariciar o tornozelo com a biqueira do sapato. Essa era uma das mensagens que o rapaz aprendera no bar, um sinal fácil, um chamamento que era repetido todas as noites por pessoas diferentes. O rapaz aproximou-se e uma das coxas da mulher apareceu debaixo da saia, atravessou o tecido, procurou acomodar-se nas pernas do rapaz. Era a primeira vez que ele tinha uma erecção, durante o horário de serviço, sem trocar um beijo ou sentir um mamilo a crescer entre os dentes. Nessa noite, não dormiria em casa. No terraço de um prédio, a mulher abriu as pernas e depositou-as sobre os ombros do rapaz. A barba acariciou a pele dos joelhos, subiu até ao umbigo onde o queixo descansou. Antes que o rapaz abrisse a boca, a mulher perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Fazes isto a todas as mulheres que acabas de conhecer?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz colou a boca ao púbis sem pêlos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando a língua lhe tocou pela primeira vez ela assumiu que há mentiras que se podem aceitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a mulher que lhe ensinou que a fidelidade mais longa se consegue através do sexo. Que a intensidade das pessoas que fodem com o corpo todo nunca se esgota, mesmo depois da distância, do tempo, do envelhecimento da pele. Um dia – ela dizia-o sem a arrogância de alguns professores – o rapaz iria entender tudo o que ela lhe começava a mostrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher tinha dinheiro, era importante, era mesmo grande no meio editorial de Nova Iorque. Ele queria ser actor, guionista, realizador. E trabalhava como vendedor de produtos de limpeza ou entalava convites para discotecas nos pára-brisas dos carros. Mesmo que vivesse no apartamento da mulher, continuava a escrever à mão e nunca aceitou que ela lhe pagasse as contas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite em que saíram com amigos, o rapaz não tinha dinheiro para comprar uma bebida. Recusou o cartão de crédito da mulher e quando um copo com gelo e whiskey apareceu na mesa, o rapaz levantou-se e caminhou para casa, desviou-se dos táxis, evitou os autocarros e os comboios. Tinha fome mas não queria tocar em nada que estivesse no frigorífico ou nos armários do apartamento. Deitou-se com raiva, desprezando tudo o que a mulher conseguira, as roupas, os jantares, as viagens, e as noites de álcool. Ele sabia que seria grande, enorme, e que o dinheiro nunca poderia competir com a necessidade de expor o seu génio. Quando a mulher entrou em casa, ele levantou-se e foi para o sofá. Custava-lhe viver com uma mulher de quem não gostava apenas para não pagar renda. Sentiu, pela primeira vez, que também tinha um preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite em que o rapaz vendeu um guião aos estúdios, apareceram algumas pessoas na casa da mulher. No fim da noite, restava apenas um actriz, nova, bêbeda e descalça. O rapaz levantou-se a agarrou na mão da mulher com quem vivia, levou-lhe os dedos aos lábios da actriz, molhou-os na língua e empurrou-os para os mamilos. Depois, começou a despir a actriz, beijou-a. Quando olhou em redor, a mulher já não estava na sala. Mas o rapaz continuou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte a casa não tinha ninguém. O rapaz acordou com o ruído da fechadura. A mulher entrou na sala e disse-lhe que iria viajar, mas que ele poderia ficar no apartamento. O rapaz, sofrendo da carência que vem agarrada à sobriedade, disse-lhe que, afinal, gostava dela. A mulher explicou-lhe que o amor não se pode adiar e que fora isso que ele fizera durante os meses em que estiveram juntos. O amor também precisava de um tempo exacto para acontecer. Tinha um prazo de validade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acabei a minha missão. Amei-te e consegui vender o teu guião. Fiz-te crescer. O meu trabalho contigo acaba agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraram-se anos mais tarde numa praia da Califórnia. O rapaz, grande, enorme, um homem de sucesso, passeava sozinho, com um bloco de notas apertado nos dedos. A mulher, como sempre, como nos filmes que ele escrevera, apareceu com uma criança ao colo e outra pela mão. Estavam ambos com a pele mais gasta e os músculos menos tonificados. Cumprimentaram-se, o homem deixou ficar a mão na cintura depois de beijar a mulher na cara. Como na primeira noite no hotel, sentiu-se a crescer, uma erecção que marcava o tecido dos calções de banho. Mesmo diante das crianças, ele perguntou-lhe se ela queria ir para a cama dele, ficava perto, junto da praia. Ela respondeu que era casada. Antes de se despedir, porém, ela contou-lhe que, por vezes, quando beijava o marido, imaginava o rapaz, pequeno, inseguro, mas certo do seu génio. O mesmo rapaz que, mesmo sem saber, conseguira produzir amor de cada vez que estavam juntos no chão, com o corpo todo. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106391521951281983?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106391521951281983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106391521951281983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106391521951281983' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106374521572539398</id><published>2003-09-16T21:46:00.000+01:00</published><updated>2003-09-16T22:14:09.966+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Barbie says fuck you&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grande diferença entre uma criança saudita e uma criança portuguesa, americana ou espanhola, é que a criança saudita, enquanto cresce, terá sempre menos escolhas a fazer. As proibições que lhe serão impostas reduzir-lhe-ão a capacidade para decidir, pensar ou actuar. Ela está entregue às palavras de um profeta, imaginadas, há muitos séculos, na desolação de um deserto. E será educada com medo, numa sociedade de ódio, onde a imposição de uma moral substitui a liberdade de expressão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa criança nunca poderá brincar com uma Barbie porque a boneca é, de acordo com a polícia dos costumes, uma tentativa de conquista protagonizada pelos inimigos do Islão. Uma boneca que usa saias, solteira, que até pode guiar um carro, é uma aberração para os misóginos islâmicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Autoridade Saudita para a Promoção da Virtude e Prevenção dos Vícios proibiu a venda de Barbies, acusando a “Boneca Judia” de representar a decadência do Ocidente e de corromper as crianças. A mesma Autoridade que elimina cartões para o Dia dos Namorados, discos, fragrâncias, porque qualquer mulher que use perfume é uma puta, sem honra ou moral. Mas a Barbie nunca matou ninguém, enquanto que o governo saudita, por exemplo, mandou arrancar os olhos, num hospital, a um homem que atacou outro com ácido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Ocidente explica que a Arábia Saudita é uma porta de entendimento para o mundo islâmico, mesmo que, nesse país, a sodomia ou a feitiçaria sejam punidas com decapitação. Porque a Arábia Saudita é provavelmente um dos países mais hipócritas do planeta. Corta as mãos e os pés aos ladrões, condena travestis a seis anos de prisão e a duas mil e seiscentas chicotadas. Prende mulheres por andarem, na rua, sem a companhia do marido. No entanto, apresenta-se à comunidade internacional como a ponte de conciliação entre culturas distintas. Talvez seja, mas apenas porque as classes dirigentes sauditas experimentam o que há de mais conveniente em ambos os lados do mundo. Passam férias em Puerto Banús onde se embebedam em discotecas e compram prostitutas – eu vi, eu estive lá. Fazem compras em Nova Iorque, estudam em Bruxelas, compram apartamentos de luxo em Londres, exibem os mesmos comportamentos que a lei islâmica considera viciosos e que são severamente punidos no país onde nasceram.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Arábia Saudita não é, nem poderá ser, uma solução para um conflito de culturas. As autoridades, o rei, e todos os príncipes proxenetas, a viver à custa do petróleo, proíbem na sua terra aquilo que consomem no estrangeiro e no interior dos palácios. Como todos os puritanos, são falsos, utilizando uma tradição – criminosa – e uma prática religiosa – obsoleta -  para conservarem o poder. Deve ser uma condição psicológica complicada, mesmo próxima da esquizofrenia, ter que odiar o Ocidente e os inventores de um estilo de vida que depois se copia às escondidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O acesso de todo um povo às práticas diabólicas da cultura ocidental seria uma ameaça para os príncipes sauditas. A informação, o conhecimento, a indagação, acabariam com o monopólio da verdade e da ditadura religiosa. E essa é outra grande diferença. Os meus filhos, venham eles a ser espanhóis, americanos ou portugueses, podem crescer para contestar aquilo que os inquieta. Podem questionar e criticar, na rua, nos jornais, nas páginas da internet, a amizade diplomática do seu país com a Arábia Saudita. Não serão obrigados a comer no MacDonald’s, a comprar mobília no Ikea, ou a correr com ténis Nike. Podem, até, converter-se ao islamismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que prefiro correr o risco de ter uma filha que seja influenciada pela Barbie, que use maquilhagem, que inicie a vida sexual aos quinze anos. Eu sei que pode parecer cruel, mas prefiro que a minha filha possa escolher entre ser prostituta ou mudar-se para Riad, onde não poderá guiar um carro, ler revistas estrangeiras, ou andar na rua mostrando a beleza de uns ombros despidos.  &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106374521572539398?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106374521572539398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106374521572539398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106374521572539398' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106359755319701576</id><published>2003-09-15T04:45:00.000+01:00</published><updated>2003-09-15T16:04:56.416+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Lição de moral, na voz de Stephen B. Scott, apresentada na rua 14, ao som de “To be young is to be sad, is to be high”, de Ryan Adams&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ontem vesti o casaco e apertei apenas um botão. Roupa acabada de estrear fornece-me sempre alguma confiança. Apanhei um táxi, não acredito em comboios. E gosto de olhar a precisão do meu reflexo na janela, mesmo antes de abrir a porta, enquanto aliso os punhos da camisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estava numa festa na Casa da Escandinávia, Park Avenue, num terraço onde as mulheres loiras seguravam copos enrolados em guardanapos de papel. Enquanto falava comigo, deslizando os dedos na manga do meu casaco, uma actriz do sul dos Estados Unidos explicava-me que apenas estaria na cidade por uns dias e que eu era o homem mais bonito que conhecera em Nova Iorque. Disse-lhe que talvez lhe telefonasse mais tarde. Os meus amigos esperavam por mim. Havia muito mais gente para conhecer. “&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Jantámos com pessoas desconhecidas que falavam com sotaque e que comentavam os preços das casas de férias. Bebemos líquidos coloridos e fumámos cigarros. Mesmo a seguir à sobremesa apareceu o traficante. Estive na casa de banho. Tudo se tornou mais claro e não me apetecia estar no mesmo sítio. No banco traseiro de um táxi uma das mulheres abriu as pernas e colocou os sapatos no vidro que nos separava do motorista. Explicou-me todo o processo de depilação e depois montou-se no meu colo. Mas eu não tinha preservativos e empurrei-lhe o pescoço, com suavidade, para as calças que havia desapertado. Não chegámos a acabar. Ela queria mais droga antes de entrarmos num clube mal iluminado. Alguém fumava erva lá dentro e momentos depois de aspirar o fumo parecia-me que todas as mulheres me queriam beijar. Houve uma feia – sabem que não gosto de mulheres feias – que se demorou diante de mim, movendo-se como se estivesse num palco. Tudo acontecia devagar – perdi a noção de tempo e espaço – quando rodava a cabeça pela pista de dança. Não conseguia ver homens, mas apenas as mulheres sentadas nos sofás, bebendo das garrafas, roçando as mãos nas minhas coxas, quando passavam, para se aproximarem dos meus amigos.”  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um homem de cabelo comprido empurrou um adolescente que me parecia o vocalista de um grupo pop. Os amigos do rapaz célebre apareceram e esmurraram o homem de cabelo comprido. Depois os seguranças limparam a pista de dança. Estávamos todos lá fora, à espera do combate. Mas o homem de cabelos compridos abriu a porta do carro e apareceu com um machado de cozinha. Partiu um semáforo e as janelas de uma loja. Os rapazes do grupo pop correram depressa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fomos comer, não conseguia levar o garfo à boca. Quando molhei a cara, esperando recuperar, não me reconheci no espelho, encontrei a camisa manchada de cerveja e a barba a aparecer debaixo da pele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acabámos na casa de alguém, dispondo as drogas em cima de revistas de moda e capas de discos de vinil. Dançámos. Nunca parei de beber. Junto à casa de banho, a mulher do meu amigo encostava outra mulher à parede. Esperavam a vez de entrar. Ficaram lá dentro. Não as vi sair.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me recordo de quanto dinheiro gastei, mas devia ser suficiente para comprar um sofá que vi numa loja de mobiliário e que já devia estar na minha sala.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queria sexo, estava a amanhecer e era o momento de desespero, o instante em que as mulheres que nunca levaríamos para casa ganham qualidades. Queria sexo mas não conseguia falar. Encostei-me à única pessoa que estava sozinha, sobre um tapete branco, tocando o nariz com o polegar e bebendo vinho por uma palhinha. Apertei-lhe as mamas e procurei o fecho da saia. Beijei-a e estávamos num carrossel, tive que abrir os olhos para segurar os impulsos do estômago. Ela não quis ir para minha casa. Tentei tudo, não queria dormir sozinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passei o dia seguinte no sofá. Os meus estados de vigília eram intermitentes. Vi alguns programas de televisão. Quando anoiteceu saí de casa para comprar comida. Entrei num restaurante, onde os únicos clientes – um par de viciados em heroína – tentavam regatear o preço de uma sopa. Meteram-me nojo, tal como a pele oleosa da empregada. Mesmo sem o meu casaco, mesmo sem tomar banho, ela sorriu-me e ofereceu-me um refrigerante. Eu disse-lhe que não vivíamos no mesmo mundo mas ela não compreendeu a velocidade do meu idioma.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tinha que sair de casa. Não havia ninguém com quem falar. Não havia ninguém para me ver. Vamos recomeçar agora. Já consigo dançar outra vez. Eu conheço aquela empregada. Vou comprar cigarros. Peçam uma garrafa para a mesa. Aqui têm o cartão de crédito. Amanhã não tenho que acordar cedo. Esta noite, levo alguém comigo. Pessoas como nós, nunca podem perder.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106359755319701576?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106359755319701576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106359755319701576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106359755319701576' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106338278747532265</id><published>2003-09-12T17:06:00.000+01:00</published><updated>2003-09-12T21:43:12.836+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Aprender a ser diferente?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Talvez tenha sido com o desespero e com a coragem de Reynaldo Arenas que primeiro compreendi o que custa crescer a amar aquilo que os outros não amam. O escritor cubano sobreviveu – com cicatrizes no lado de dentro da carne – ao regime e às pessoas que o quiseram destruir. Viveu na miséria porque era homossexual. Além do crime de gostar de homens, foi castigado pela insolência de escrever livros. Andou escondido da polícia secreta durante meses, esteve preso, produziu o mesmo livro vezes sem conta porque lhe confiscavam os manuscritos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de conseguir fugir de Cuba, acabou a viver em Nova Iorque. O que  mais o fascinava neste lugar era a liberdade para conhecer estranhos e poder assumir a sexualidade que, em Havana, lhe custara viver num cela onde não cabia um corpo deitado. Mas Reynaldo Arenas sabia que não havia lado algum onde a tolerância fosse um atributo universal. Por isso dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A diferença entre o comunismo e o capitalismo é que num regime comunista levamos um pontapé no cu e calamo-nos. Num regime capitalista levamos um pontapé no cu mas podemos gritar.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque reconhecia que, mesmo em Nova Iorque, haveria sempre alguém que o quisesse magoar por beijar pessoas do mesmo sexo. Com Reynaldo Arenas, talvez demasiado tarde, aprendi tudo isto, recordando sempre a crueldade natural dos homens, mesmo nas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me, por exemplo, que acabávamos de entrar na puberdade e que éramos maus, que batíamos, que desprezávamos os mais inaptos nas aulas de ginástica. Com um novo aluno, aquele que movia as mãos de uma forma estranha e que falava com voz de rapariga, fomos muitas vezes impiedosos, gozámos, rimos, humilhámos uma condição que desconhecíamos. Há alguns meses, em Lisboa, voltei a encontrar esse aluno. Está bem de saúde, estendeu-me a mão, mas talvez não se esqueça do que lhe fizemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei, no entanto, se ele teria preferido frequentar um liceu para homossexuais – como o que abriu esta semana em Nova Iorque. É que esta escola apenas ajuda à segregação. Compreendo que seja difícil estar no meio de alunos estúpidos, como eu fui, mas juntar adolescentes homossexuais numa escola – que talvez nem sequer tenham a sexualidade definida – é virar as costas ao confronto muitas vezes necessário. Pergunto o que acontecerá quando acabarem os anos de liceu, quando trabalharem em empresas, viverem em prédios, frequentarem supermercados, que não sejam exclusivos para homossexuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este liceu acentua o estigma da diferença, quando o que importa é a igualdade. É que as pessoas – heteros, gays, alunos de escola secundária – têm que entender que, apesar de escolhas e estilos de vida às vezes distintos, a homossexualidade não é um perigo para os heterossexuais, nem um motivo de orgulho para os homossexuais. Ninguém tem que julgar, ou se orgulhar, das escolhas que se fazem no momento de levar alguém para a cama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei a Nova Iorque já Reynaldo Arenas havia morrido, mas não o imagino feliz com a inauguração deste liceu, é que apreciava demasiado a sua individualidade para se diluir num grupo. E mesmo sofrendo durante anos aquilo que nem eu, nem os alunos deste liceu conhecem, sempre preferiu a coragem e a perserverança de escrever livros e de entrar numa sala, onde estavam os seus inimigos, de olhos levantados.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106338278747532265?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106338278747532265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106338278747532265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106338278747532265' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106330243595643873</id><published>2003-09-11T18:47:00.000+01:00</published><updated>2003-09-12T09:06:10.023+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O dia de hoje&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembrei, esqueci-me, como me esqueço sempre dos aniversários daqueles que gosto que gostem de mim. Depois descobri que nem sequer me apetecia escrever o que todos escreverão. Uns vão falar do castigo e da justiça divina. Outros escolherão o choro, o luto à distância, recordando os que morreram no momento em que saltaram pelas janelas, comentando o absurdo e a maldade que apenas os homens conseguem. Não me apetece escrever, gostava de ser mais egoísta, sair agora de casa, parar de atacar as teclas com os dedos, deixar tudo a meio, não acabar as palavras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canso-me, porque são anos a viver nesta cidade, meses a assistir a reportagens televisivas, serviços religiosos, e um homem que entornava álcool na camisa, um condutor de ambulâncias que olhou para cima quando tudo começou a arder. Um ano mais tarde, à minha frente, sem me conhecer, o homem apenas iniciou o choro – eu sei o que custa chorar diante de outros homens – quando me explicou que não podia continuar a ter uma profissão onde salvasse pessoas. Descobriu que se esgotara na manhã em que a sobrinha arranhou um joelho e ele apenas conseguiu deslizar o algodão e a água oxigenada na pele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não senti nada, a minha irmã teve que me dizer para abraçar a minha sobrinha, esqueci-me que curar não é apenas um procedimento clínico.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje não me apetece escrever. Hoje queria recuperar os quadros de Malevich, no Guggenheim, para me estar mais próximo da pessoa que rodou comigo, de mão dada, nas galerias do museu, explicando-me a beleza das formas. Hoje queria levar o meu amigo Pedro – há amigos que não se escolhem, que existem desde sempre – a ver as mulheres bonitas com sapatos obscenos no Meat Packing District. Hoje não queria escrever isto, não me apetece ser obrigado a olhar para o coração dos outros. Hoje queria evitar o pulsar do meu próprio sangue. Mas não deixo de pensar na cidade onde desejo viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolho visitar a Trisha no jardim de sua casa, sentada na borda de uma banheira cheia de flores, com pés de ferro, falando de Piacenza e atirando bolas amarelas a um cão que brilha sempre que salta. Depois encontro Rebecca num mercado de Chelsea. Produz a cara de menina que me levou a conhecê-la, numa festa, quando se passeava sozinha pelos corredores, apenas baton, vergonha, e olhos verdes. Passo por Sammy, sentamo-nos a ver o rio, não falamos, ficamos assim. Vejo o corpo de Fernando a imitar uma jogada de Babe Ruth, muitos anos atrás, ou a voz aproximando-se do sotaque de Brooklyn para me contar um episódio sobre criminosos. Ou ainda a menina sem cara, vestida de preto, que vi rodopiar no ringue de Rockefeller Center, dias depois de ter chegado, enquanto se escutava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	“It’s autumn in New York.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a ti, Rachel, que vives agora longe de Nova Iorque, lembro-me de me perguntares – antecipando a minha ausência no próximo Inverno – o que me faria mais falta quando aqui não estivesse. Fiz, com toda a certeza, o mesmo exercício literário de enumeração, escolhi o facilitismo quando mencionei momentos, emoções, pessoas, porque as imagens, apesar de bonitas, ficarão sempre à flor da pele. E fechei o discurso, no balanço de um comboio, dizendo que aquilo que Nova Iorque me dá são possibilidades infinitas. Todos os dias, garanto-te, acontece algo de memorável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rachel, eu disse-te que não queria falar disto, que iria falhar, escolher mal as palavras, esquecer as análises políticas e as previsões sobre a vida do planeta em guerra. E, logo agora, quando queria estar sossegado, aparece um homem à porta a dizer que estão a renovar as escadas, que não posso sair de casa. Mas eu não me importo, queria estar aqui, não acender cigarros, apagar a televisão, ouvir uma ambulância, um alarme, as buzinas dos táxis, não acabar este texto, parar de escrever, saber que vivo em Nova Iorque, ou, de uma vez por todas, ir a algum lado, parar de escrever, já disse, sair para a rua, abrir a janela – não tenho escadas – e descer pelas escadas de incêndio. Mas parar de escrever mesmo, ir até lá fora, perceber que tudo está aqui, telefonar às pessoas para não me esquecer das datas de aniversário, dizer Nova Iorque, parar de &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106330243595643873?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106330243595643873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106330243595643873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106330243595643873' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106323374557891837</id><published>2003-09-10T23:42:00.000+01:00</published><updated>2003-09-11T06:59:45.283+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A leste do paraíso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em episódios onde o acaso funciona, haverá sempre versões distintas para o que aconteceu. O documento de identidade – talvez falso – garante que Alex nasceu em Moscovo, mas pode ter nascido em qualquer outro lugar da União Soviética. Cresceu a anunciar que queria ser soldado, embora se especule que tenha sido expulso do exército por vender material roubado, botas, cintos, fardas e algumas rações de combate. Trabalhou como segurança numa discoteca, logo que a música americana chegou à cidade, no tempo em que o dinheiro dos criminosos não parava de aumentar, mesmo que insistissem em gastá-lo em garrafas de champanhe, em mulheres, ou em sapatos importados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, o zelo de Alex rasgou a sobrancelha de um cliente bêbado e partiu-lhe várias costelas. Escolheu mal a vítima. O homem que chegou às urgências do hospital era protegido de um grupo que traficava armas. Como conhecia o castigo, Alex imitou uma fotografia que havia encontrado numa revista americana. O artigo que leu revelava um dissidente do IRA com uma perna a menos. Na perna inteira, esse homem tinha tatuado uma seta que apontava para o joelho e a frase:&lt;br /&gt;	“Shoot Here.”&lt;br /&gt;Tal como Alex, também o irlandês delator esperou a sentença habitual nestes casos, um tiro na rótula. Por isso, fez a tatuagem a indicar o alvo. Mas no dia da execução os carrascos escolheram a outra perna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alex nunca foi baleado. Os donos da discoteca enviaram-no para Nova Iorque para trabalhar num restaurante, em Brighton Beach, Brooklyn, a zona dos imigrantes russos. Há quem garanta que não foi uma agulha – Alex não consumia drogas – mas antes uma noite de bebedeira e sexo sem segurança. Diagnosticaram-lhe o vírus da imunodeficiência adquirida. No dia em que a máfia russa soube da doença apareceu no restaurante e chamou-o à cave. Nestas situações, há um procedimento  que se repete:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se queres que tomemos conta da tua família e que patrocinemos os medicamentos trabalhas para a nossa organização.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi o primeiro a aceitar. Para a máfia russa trabalham muitas pessoas doentes, desde que possam agarrar numa arma. Dizem que serviu de motorista às prostitutas nas deslocações aos apartamentos de Park Avenue. Outros afirmam que começou logo a matar. Testemunhas asseguram, num jornal, que encontraram Alex, numa esquina, escondendo qualquer coisa num camião do lixo, depois de um tiroteio onde foram executados antigos colaboradores da máfia. Outros dizem que se internou num hospital especializado em doenças infecto-contagiosas, em Pinar del Rio, Cuba. É certo, avançam ainda outros, que Alex esteja carregado de pedras, no fundo lamacento do Hudson River. A única certeza é que as promessas foram cumpridas. Os pais e as irmãs de Alex vivem agora em Moscovo, numa casa com aquecimento, onde há sempre pão fresco e garrafas de vodka com rótulos verdadeiros. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106323374557891837?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106323374557891837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106323374557891837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106323374557891837' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106311310828473412</id><published>2003-09-09T14:11:00.000+01:00</published><updated>2003-09-09T14:11:48.340+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Proibido fumar. Proibido existir.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conheço nenhum episódio em que um homem, equipado de um cigarro, entrasse num centro comercial para iniciar um massacre. Tal como não sei de assaltantes de bancos, violadores, ou traficantes de crianças, que utilizassem cigarros na execução dos seus crimes. É que o tabaco, apesar de perigoso, pode ser evitado, utilizando apenas o bom senso. Um louco, com um cigarro, é apenas um louco, mas com uma pistola pode ser outra coisa qualquer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que me assusto com a obsessão do Estado em eliminar o consumo de cigarros. Eu compreendo que não se fume em lugares onde se trabalha – as pessoas têm que lá estar – mas não aceito a proibição em bares, restaurantes, ou discotecas. Só lá aparece quem quer.  E estou seguro que os restaurantes e bares para não fumadores teriam bastantes clientes. Eu mesmo, nos dias em que não me apetece cheirar os cigarros dos outros, estaria presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da Califórnia e de Nova Iorque, a Irlanda decidiu proibir o fumo em bares, anunciando-se já uma tendência proibicionista na Europa. O argumento da preocupação com a saúde pública é falso e hipócrita – acabem então com os carros a gasolina, com as indústrias poluentes. Não acredito na suposta preocupação do Estado com a saúde dos cidadãos. Por natureza, o Estado sempre esteve mais ocupado em controlar a vida privada de cada um de nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No prefácio para a colectânea de contos de Tenesse Williams, e por causa das escolhas sexuais do dramaturgo e do medo em expô-las naquilo que escrevia, Gora Vidal explica como as classes dominantes sempre gostaram de inventar proibições de forma a castigarem aqueles que não cumprem, criando um sentimento de culpa em todos os infractores, tornando mais fácil a aceitação do seu poder: &lt;br /&gt;“Sexual taboo has always been a favorite with our rulers though, today, drugs seem to be even more promising, as alcohol was in 1919 when old-time religionists prohibited it to all Americans.” &lt;br /&gt;Ainda este fim-de-semana, num casamento ao ar livre, em Long Island, Nova Iorque, encontrei-me entre os fumadores receosos num recanto do jardim. A vergonha de fumar já começou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece haver uma vontade de criar cidade brancas, onde as ruas seriam corredores de hospital, onde todos fariam ginástica de madrugada, comeriam legumes e limitariam o sexo à necessária continuação da espécie. Uma civilização onde ninguém fosse proprietário do seu próprio corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por momentos invoco o brilhantismo de Charlie Parker, Basquiat, Miguel Piñero, homens que se sujavam com drogas mas que encontraram, em Nova Iorque, um abrigo e um espaço de invenção para o seu génio criativo. Na civilização branca eles nunca teriam existido. Eu sei que o tabaco faz mal, eu sei que daqui a alguns anos posso arrepender-me de todos os cigarros que fumei quando me informarem que preciso de um dador de um pulmão. Mas não quero que sejam outros – ainda mais o Estado – a decidir aquilo que eu faço com o meu corpo. Eu não quero acabar com a possibilidade de haver um outro Charlie Parker, mesmo drogado, mesmo decadente, mesmo incurável, a tocar saxofone no meio das minhas noites.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106311310828473412?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106311310828473412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106311310828473412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106311310828473412' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106304489174245065</id><published>2003-09-08T19:14:00.000+01:00</published><updated>2003-09-08T19:14:51.760+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Se um dia voltares a ser feliz&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contam-me que és muito rico e que da tua casa se pode ver o rio e os barcos que chegam a Manhattan. Há modelos quase nuas que desfilam na imensidão da tua sala e que sobem para o terraço para cheirarem cocaína. Certas noites, organizas festas inspiradas nos livros do Marquês de Sade. As sobremesas sãos servidas sobre os corpos dos convidados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, quando as drogas te ajudam, saltas para cima de uma mesa e começas a dançar. Mas nos últimos anos foste apenas um observador oficial, não queres participar, brincas com aqueles que se aproximam de ti por causa do dinheiro, do álcool, da facilidade com depositas o pó branco numa travessa de prata. Sabes que as pessoas desejam tudo o que não seja a normalidade e, nesse instante, quando passam a ser outra coisa qualquer, podes testemunhar a sofreguidão das mulheres que apertam o sexo de desconhecidos entre os lábios, vês os homens que bebem vinho pela garrafa, estudas as jovens universitárias que se beijam na boca diante da audiência que escolheste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que és mesmo muito rico, embora te encontre na rua, caminhando com os ombros encolhidos e uns sapatos sem graxa. Dizem-me que aprecias livros e que tens saudades de uma Europa onde gostarias de ter nascido. Afinal – porque não és estúpido, nunca foste – sabes que há coisas que não podes comprar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto por que insistes em ensaiar uma felicidade que não possuis. Alguém me diz que, como antigamente, ainda se pode morrer de desgosto. Amaste um homem, embora tivesses vergonha de amar um homem. Depois ele fugiu, ou morreu, e nunca mais quiseste ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confessam-me ainda que és proprietário de uma impressionante colecção de obras de arte e que a garrafeira da tua casa conserva vinhos raros. Eu consigo imaginar-te diante de um quadro, próximo de uma garrafa por abrir, sozinho, nas noites em que esperas por visitas. É nessas noites que envelheces mais depressa. É nessas noites que tens que telefonar a alguém para fingir que ainda sentes alguma coisa pelos seres que existem à tua volta. E depois de tudo, quando há copos e beatas e corpos no chão da casa, regressas à tarefa de viver sozinho, mesmo que ainda acredites ser possível sorrir o sorriso dos outros.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106304489174245065?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106304489174245065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106304489174245065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106304489174245065' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106279245303464121</id><published>2003-09-05T21:07:00.000+01:00</published><updated>2003-09-05T21:09:15.340+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;E se morresses agora, Paul Hill?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que sejas fraco e que sofras de um defeito de criação, não deixo de pensar naquilo que experimentarás quando a máquina começar a trabalhar e o líquido descer por um tubo, atravessando a agulha, misturando-se no sangue e imobilizando os pulmões. Matam-te porque mataste, um jogo de consequência que me perturba, mesmo quando te oiço dizer, numa derradeira entrevista:&lt;br /&gt;“Deveria haver mais pessoas a fazer o que eu fiz.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma manhã em que acordaste para cumprir uma missão. Na porta de uma clínica, onde se fazem abortos, na Florida, disparaste para matar. O médico caiu, o guarda-costas também, a mulher do médico sobreviveu, ferida, sofrendo dessa irremediável condição que é a viuvez. &lt;br /&gt;Largaste a arma e ficaste à espera. Não abandonaste a cena do crime, nunca pediste recurso nos tribunais, jamais mostraste remorsos. Querias ter a certeza que entrarias na câmara da morte, querias dizer na televisão:&lt;br /&gt;“Acredito que o Estado, ao executar-me, fará de mim um mártir. Espero que outros sigam os meus passos.”&lt;br /&gt;Antes de tudo isto, chegaste a ser sacerdote presbiterano, tinhas uma família e uma casa. Mas nunca revelaste arrependimento, dizendo apenas:&lt;br /&gt;“É desagradável matar um ser humano.”&lt;br /&gt;Como se falasses das espinhas num pedaço de peixe, ou de uma manhã de chuva no dia em que estreavas um casaco. As autoridades que te mataram receiam agora crimes idênticos. Sempre um castigo a servir de resposta a outro castigo. Porque tu mataste, Paul, aqueles que consideravas assassinos. E agora alguém vai acabar contigo, e virá sempre mais alguém, como se a morte fosse a única solução para a morte. Ficarias muito melhor dentro de uma cela, alimentado a comida de prisão, o resto da tua vida. É que, Paul, não existe em ti nada de grandioso, não construíste nada, não descobriste a cura para nenhuma doença, não me lembro de ajudares uma criança sequer no momento em que deixaste o dedo cair sobre o gatilho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consta que apenas mostraste emoção quando as tuas filhas te visitaram pela última vez. Antes de partires, quero apenas que imagines que uma das tuas filhas está grávida. Poderias ser avô, mas acontece que há uma malformação no feto e ela tem que abortar. &lt;br /&gt;Tens aqui uma arma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, faz o que tens a fazer.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106279245303464121?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106279245303464121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106279245303464121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106279245303464121' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106269833503063779</id><published>2003-09-04T18:58:00.000+01:00</published><updated>2003-09-04T18:58:55.140+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Summer time &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa do calor e da humidade tudo me parece mais mais espesso e, no entanto, vejo as mulheres de vestidos de alças flutuarem sobre os passeios. Gostava que esta cidade apenas existisse no Verão, quando as ventoinhas ajudam o sono e os deveres se derretem dentro de um copo com gelo, quando acontece começarmos a voar e a conhecer outros corpos com a boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas ruas, onde o ar é denso e as pessoas tocam umas nas outras, lembro-me, de repente, de Mohamed Ali, no Zaire, o corpo resplandecente, as mãos sem luvas, bailando sozinho num ringue de treino. Lembro-me do que diziam:&lt;br /&gt;	“Floats like a butterfly.”&lt;br /&gt;As pernas como se não tocassem no chão, uma dança sem adversário de carne, apenas ele, Mohamed Ali, voando com uma graciosidade que encontro agora nas mulheres que deslizam sobre patins, no tecido da roupa que me roça um braço, no lençol que aquelas mãos fazem voar um momento, sobre a cama, antes de repousar no colchão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos degraus do meu prédio, decido que vou viajar na direcção do sul, para fugir ao Inverno, para evitar o peso dos objectos e das pessoas. Eu quero ser Ali, dançando sozinho no ringue, golpeando o ar como se o ar fosse um adversário invisível, cada vez mais leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o céu, observo os velhos sentados nas cadeiras de lona, hispânicos sem dentes que acedem charutos e os encaixam nas bocas amarrotadas. Consigo ver o rio do meu terraço. Consigo ver como a cidade levita. Para que tudo seja perfeito, resta-me apenas assobiar Gershwin e pensar em Billie Holyday:&lt;br /&gt;	“Summer time and the living is easy.”&lt;br /&gt; Às vezes, quando nos encontramos sozinhos no ringue, precisamos tanto dos outros, precisamos tanto de ti.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106269833503063779?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106269833503063779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106269833503063779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106269833503063779' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106260960017715331</id><published>2003-09-03T18:20:00.000+01:00</published><updated>2003-09-03T20:38:22.186+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A Invenção do Fogo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este poderia ser um episódio onde alguém remendasse a vida, depois de ficar sem um perna, vítima de um tiro de pistola. Nestes casos de violência, o castigo acontece sempre junto ao bar, com as luzes fracas e sem uma grande audiência. Pouso o copo no balcão e mordo uma pedra de gelo quando me perguntaram:&lt;br /&gt;“Entre uma Beretta 9000, calibre 40, e uma Magnum Desert Eagle, calibre 50, qual gostaria de disparar?”&lt;br /&gt;A questão parece-me absurda, por isso, com a delicadeza que entrego aos desconhecidos, peço para repetirem a pergunta. Os dois amigos, chegados do sul dos Estados Unidos, acreditam que eu sei tudo sobre armas automáticas e que desde pequeno que ando aos tiros para me sentir mais seguro.&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Quando lhes confesso o meu desinteresse, bem como a minha desconfiança junto de pessoas que conversam sobre armas com o mesmo entusiasmo com que alguns discutem modelos de carros, um dos homens explica-me que o filho de três anos já sabe desmontar e montar uma espingarda. Desejo-lhe felicidades, desejo que o filho nunca se mate ou mate alguém. Ele responde:&lt;br /&gt;“O meu filho sabe o que está a fazer, está mais preparado do que um rapaz de dezoito anos. Eu ensinei-o, ele está protegido.”&lt;br /&gt;Olho para o meu copo e penso em explicar-lhe que as crianças não têm sentido de responsabilidade porque disparam pistolas de água e se fingem de mortas, não percebem a morte, acreditam que uma carabina é um brinquedo e nada mais. Penso ensinar-lhe que uma criança de três anos nunca poderia ser julgada, num tribunal, caso trespassasse a carne de alguém depois de apertar o gatilho. Penso que temos polegares oponíveis e que caminhamos na vertical. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso em tudo isto e apenas tenho vontade de agarrar numa Magnum Desert Eagle e encostar-lhe o metal aos dentes, explicando que o cano que lhe magoa a boca tem doze centímetros e que o carregador leva oito balas. Talvez o informe sobre a possibilidade de lhe arrancar uma rótula. Mais tarde, confessarei que foi um acidente, que a arma disparou por azar, que lamento que tenham que lhe amputar uma perna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando acabo de pensar em tudo isto, na violência dos meus dedos contra a coronha imaginária, entendo por que os homens, mesmo os que caminham direitos, mesmo os que evitam pistolas, nunca deveriam acreditar nas possibilidades de uma arma.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106260960017715331?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106260960017715331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106260960017715331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106260960017715331' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106253215790754440</id><published>2003-09-02T20:49:00.000+01:00</published><updated>2003-09-02T20:49:17.780+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;As mulheres com sapatos altos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um amigo que está de visita e que me convida para jantar. Diz-me que traz os cartões de crédito e as notas. O dinheiro é o melhor veículo de divertimento nesta cidade. É que algumas mulheres apenas de despem depois de acordado um preço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos no bar Scores como se estivéssemos num hotel de luxo. Os empregados apresentam laços e os cinzeiros aparecem nas mesas numa cidade onde já não se pode fumar. Pergunto a uma das empregadas com sandálias e saia curta como é que ainda se pode beber, ver mulheres quase nuas, e puxar de um cigarro.&lt;br /&gt;	“Temos licenças.”&lt;br /&gt;Volto a repetir junto do meu amigo que o dinheiro é um dos melhores veículos para o divertimento nesta cidade. Ao nosso lado, uma banda rap é a prova material daquilo que acabei de dizer. Os músicos de chapéu de basebol e correntes de ouro controlam as mulheres mais bonitas e as garrafas de champanhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens casados oferecem às mulheres legítimas outras mulheres, bailarinas profissionais que se despem e que dançam, pressionando as mãos contra as coxas de quem paga. Eu e o meu amigo abusamos dos cigarros, levamos o copo à boca num constrangimento quase infantil e continuamos a dizer que não sempre que alguma delas nos propõe uma dança a pagar. Comento que este é o maior contra-senso da nossa sexualidade. Passamos a noite a dizer que não a mulheres a quem queremos dizer que sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fixo-me nos sapatos de saltos e no efeito que causam nos homens. Os sapatos valem mais que a maquilhagem, que a destreza de ancas, ou que um vestido. Uma mulher que sabe dançar com estes sapatos é uma virtuosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos com algumas das bailarinas e compreendo agora que nenhum destes homens se poderá julgar melhor do que as mulheres que dançam sem roupa. É que o nosso facilitismo é primário e de graça. Elas, ao menos, estão a trabalhar. O meu amigo pergunta-me:&lt;br /&gt;	‘Casavas com alguma destas mulheres?’&lt;br /&gt;	‘Posso escolher?’&lt;br /&gt;	‘Sim’&lt;br /&gt;‘Aquela loira, vestido até aos pés, sandálias que sobem pelas pernas, mamas verdadeiras.’&lt;br /&gt;Entrámos num táxi sozinhos, com o álcool a prometer que voltaríamos no dia seguinte. De manhã, apenas comentámos, pormenorizadamente, a beleza das bailarinas que mais nos inquietaram. À luz do dia, sem a urgência do sexo, já não descobríamos em nós qualquer romantismo.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106253215790754440?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106253215790754440'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106253215790754440'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106253215790754440' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106243626019144917</id><published>2003-09-01T18:11:00.000+01:00</published><updated>2003-09-01T18:11:12.536+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O grande equívoco&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até uma certa idade – aquela em que começamos a viajar sozinhos e a pensar pela própria cabeça – sempre acreditei que os escritores eram criaturas que sofriam de uma permanente azia da alma, fumando cigarros, num quarto triste, numa cidade nostálgica, num “país de água”, como escreveu Al Berto. E se pensei tudo isto, foi apenas porque nasci nesse país aquário, onde os peixes acham que o mundo é apenas aquilo que se reflecte nas paredes de vidro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim, e para quase todos os portugueses, o país era um lugar de escritores, um espaço nebuloso, cheio de miradouros, onde os celestiais seres da escrita mostravam ao planeta a densidade, a beleza, e o talento de uma nação de criadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que Portugal não é, nem nunca foi, um país de escritores. E esse é um grande equívoco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se entrarmos numa grande livraria em Nova Iorque e numa outra, com as mesmas dimensões, em Lisboa, vamos perceber as diferenças. Olhamos para as estantes e contamos o número de grandes escritores, de diferentes línguas, no século passado. Não vale a pena sequer avançar nomes, tal como seria absurdo tentar comparar a dimensão – em população e riqueza – destes dois países. Mas essa é a questão principal, se não temos tamanho, ou obras primas suficientes, então não vale a pena termos ilusões que somos um país de escritores, porque essa mentira só serve para prolongar a nossa condição autista. Há que desfazer o engano, para depois crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo agora o que disse António Lobo Antunes quando uma delegação de quarenta escritores portugueses visitou um importante salão do livro:&lt;br /&gt;	“Nem a França tem quarenta escritores.”&lt;br /&gt;O número exacto de escritores não sei, mas acredito que, se não somos um país de escritores, seremos ainda menos um país de romancistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prova é que, desde a revolução, em 1974, não nasceram tantos romancistas como seria de esperar. As obras que estavam guardadas na gaveta, esperando a liberdade de expressão, quase não chegaram a aparecer. São escassos os romancistas portugueses que sabem escrever um romance, ou que conseguem contar uma história com personagens que crescem nas páginas, com conflitos, com um desenlace final. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sofremos do provincianismo doente de um regime que durou demasiado tempo, ou talvez sejamos um país com uma literatura quase exclusivamente rural – já Cardoso Pires o dizia -, mas aquilo a que muita gente chama romances, em Portugal, é outra coisa qualquer, como prosa poética, pensamentos, impressões, ou exercícios de masturbação intelectual. Publicam-se alguns livros que são tudo menos romances. E esse é outro equívoco dentro do equívoco. É algo de desonesto para os leitores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema não é se a literatura tem que ser leve ou pesada, densa, ou superficial, mas como é produzida. Não me incomodo que se escrevam livros sobre homens com fios de ouro e mulheres platinadas que passam férias nos condomínios de luxo no sul de Portugal – leiam “Super Cannes”, de J.G Ballard. Escreva-se tudo isso. No entanto, escreva-se com o profissionalismo que se deve exigir aos romancistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também não se gastem capítulos a falar sobre as árvores, a morte, a separação, o vento a assobiar nas janelas e no largo da vila, só porque as imagens parecem bonitas quando transformadas em metáforas espessas que fecham o escritor sobre si próprio. É que escrever bem – outra vez uma referência às palavras de Lobo Antunes – não é a mesma coisa que escrever uma obra de arte. Nem tudo o que acontece na nossa vida – por mais doloroso ou belo – é susceptível de se tornar num livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A culpa é, também, dos editores, que não se sentam ao lado dos escritores para dizer o que está mal, para modificar, para sugerir. O trabalho de um artista não é intocável e só tem a ganhar com a opinião de alguém que perceba do ofício. Mas escrever um livro, em Portugal, ainda parece algo de fantástico, como se o escritor fosse um ser divino, levitando acima dos leitores, e a cultura – que palavra hedionda – continua a ser algo de mastigação difícil que apenas alguns julgam ter direito a comer. Eu nunca me esquecerei do que ouvi da boca do escritor Bret Easton Ellis: &lt;br /&gt;“Os médicos fazem muito mais falta do que os escritores.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu livro de ensaios, The Adding Machine, William S. Burroughs afirma que a seriedade é um dos atributos mais importantes no trabalho de um romancista. Não se deve escrever um livro por capricho, estatuto, ou em cima do joelho. Eu não acredito, nem quero, que todos os escritores sejam candidatos ao Nobel ou à eternidade, mas apenas que escrevam romances com seriedade, que me surpreendam, onde se entenda o trabalho, mesmo que o tema nem sempre nos apaixone. Só então deixaremos de sobreviver num país de água e seremos capazes de ver além do nosso próprio reflexo no vidro do aquário, e muito além do equívoco que ainda continuamos a ser.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106243626019144917?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106243626019144917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106243626019144917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106243626019144917' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106234382488445829</id><published>2003-08-31T16:30:00.000+01:00</published><updated>2003-08-31T20:48:12.133+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Nameless Brenda&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de ti devido a uma cerimónia de entrega de prémios. Lembro-me de ti muitas vezes, mas esta noite procuro-te entre as pessoas que brilham jóias no tapete vermelho e entre as limusines que aterram quase sem fazer barulho. Talvez apareças executando o mesmo andar com que procuraste roubar-me às palavras de um livro. A carruagem arrancou e, sentada à minha frente, falaste, contando-me sobre o país onde nasceras, que eras actriz, modelo, linda – claro que és linda, nunca precisarias de dizê-lo – e que um dia serias uma celebridade adorada pelos homens descrentes, como eu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que, meses depois, comecei finalmente a acreditar, volto a procurar-te  entre todas as mulheres que alongam as pernas a cada passo. Talvez chegues com o mesmo vestido da fotografia que me mostraste:&lt;br /&gt;	“Sou actriz, entrei numa curta metragem, mas estou sem casa.”&lt;br /&gt;E só então reparei que eras bonita, primeiro na fotografia, depois diante de mim, sem o vestido, os pés nuns chinelos sujos, quase sem sola, a roupa manchada, uma mochila onde devias trazer tudo aquilo que era teu:&lt;br /&gt;“Tenho as coisas na casa de um amigo. Só preciso de arranjar um emprego.”&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;Mas claro que me mentias, que não tinhas onde dormir, que guardavas o tal vestido negro da fotografia, dobrado, muito bem dobrado, dentro da mochila, porque – isto é verdade, eu sei que é verdade – havia noites em que administravas o que sobrava de maquilhagem na cara e entravas no bar do Hotel Plaza para conseguir dinheiro:&lt;br /&gt;“Ontem estive com um médico. Não dormimos juntos, ele só me queria ver nua.”&lt;br /&gt;Voltavas a mentir, mas eu não me importava, observando agora a beleza que estava debaixo das unhas onde o verniz estalara, o rosto magro, os ossos dos ombros cheios de fome, vincando-se contra a roupa:&lt;br /&gt;	“Pagas-me um café?”&lt;br /&gt;E eu paguei-te uma refeição, ficámos sentados, tu mastigando muito depressa, eu admirando as tuas mentiras. Depois foste para uma casa inventada, foste para um passeio, ou para o bar de algum hotel, e eu, sem fé no teu talento, deixei que fosses, observando as costas da tua mão limpando o que sobrava de molho no limite dos lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste momento, tenho a certeza que não és mitómana. Sabes, talvez estivesse enganado quando acreditei que -  como tantos outros milhões – nunca serias aquilo que aprendeste ao longo da vida diante da televisão, nos jornais, nas entrevistas que os teus ídolos concediam debaixo de holofotes. Não podes ser apenas mais uma rapariga deslumbrada com as possibilidades das luzes das câmaras fotográficas. E não, não estás à entrada de um edifício de escritórios, durante a noite, coberta por caixas, tentando dormir. Nem sequer de joelhos, sem roupa, no chão de um quarto de hotel, com um homem que te empurra a cabeça ao ritmo que melhor o satisfaz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estás aqui, entre estas pessoas que brilham para sobreviver, é só uma questão de procurar melhor. E se fingires que não me conheces, porque hoje és uma pessoa importante, eu juro que não me importo. Só não te quero triste, manchada de baton, compilando os destroços da própria roupa, para depois arrastares os chinelos sujos assim que abandonas esse quarto de hotel.   &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106234382488445829?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106234382488445829'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106234382488445829'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106234382488445829' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106218300213057994</id><published>2003-08-29T19:50:00.000+01:00</published><updated>2003-08-29T19:57:45.553+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os Dez Mandamentos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o repórter televisivo não saiba, mas as crianças – porque acreditam em fadas, no Pai Natal e em amigos imaginários – não serão os melhores entrevistados quando se trata de religião. E é por isso que elimino do ecrã o rapaz loiro que se prepara para responder à pergunta:&lt;br /&gt;	“Estás triste?”&lt;br /&gt;Não me interessa saber se a criança se lamenta de dores espirituais porque um juiz decidiu que um tribunal, no Alabama, não era o melhor lugar de exibição para uma tábua de mármore, com várias toneladas, onde se anunciam os Dez Mandamentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como não me impressiona o mau gosto da obra de arte. E não sofreria uma trombose se a tábua apresentasse ensinamentos de qualquer outra religião. O que me surpreende é a quantidade de gente – milhares – que se deslocaram ao Alabama para contestar a decisão inevitável de um juiz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tribunal é um lugar público, onde não funcionam as leis de qualquer Deus. Nunca ninguém será julgado por desrespeitar o mandamento:&lt;br /&gt;	“Não terás outro Deus além de Mim.”&lt;br /&gt;O tribunal serve para garantir liberdades, e uma dessas liberdades consiste em querer acreditar, ou não, em Deus, ou em qualquer Deus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema não é o objecto de mármore, mas o que leva os manifestantes até ao Alabama. Eles querem que as leis da sua religião sejam as leis que controlam toda a humanidade. Para eles, não haveria budistas, ateus, ou pornógrafos. Eles, ao fim e ao cabo, querem ser Deus. Enquanto as religiões acreditarem que vencem por imposição, haverá sempre gente que acabará por morrer e uns quantos ditadores, em versão miniatura, com aspirações a divindade.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106218300213057994?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106218300213057994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106218300213057994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106218300213057994' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106210091707244242</id><published>2003-08-28T21:01:00.000+01:00</published><updated>2003-08-28T21:01:57.106+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;O último assalto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nick é uma boa pessoa. Vejo-o muitas vezes passeando o cão, os dedos segurando os dedos da mulher. Talvez já nem se lembre, mas Nick foi uma das primeiras pessoas que conheci nesta cidade. Jantámos na mesma mesa de um restaurante e, quando descobri que era actor, reagi como um adolescente, perguntando a sua opinão sobre filmes, actores e realizadores. Lembro-me que defendi a beleza e a insolência da criação de David Fincher, Fight Club, e que me debati com a opinião de Nick que me garantia:&lt;br /&gt;	“O filme não traz nada de novo, é um tema explorado.”&lt;br /&gt;Mesmo discordando, eu e Nick poderíamos talvez ser amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre uma outra noite, lembro-me de tudo e, no entanto, Nick continua a ser uma boa pessoa. Encontrei-o encostado a um carro, na rua, enquanto esperava mesa na esplanada de um restaurante. Estava com os amigos, as pernas imóveis, os braços em baixo. Alguém se levantou de uma das mesas na esplanada e disse:&lt;br /&gt;	“Get the fuck out of my car.”&lt;br /&gt;Nick é uma boa pessoa, gosta de delicadeza e de palavras que não magoem:&lt;br /&gt;	“You ask me nicely and I’ll get out of your car.”&lt;br /&gt;Mas o homem continuou os insultos, aproximou-se, puxou-lhe a camisa. Depois, lembro-me de ver tudo muito devagar, como se assistisse à repetição de um combate que já acontecera. Nick afastou-se, as pernas flectidas balançando o peso do corpo, os braços levantados, o direito mais atrás, protegendo o tronco, o braço esquerdo adiante, pronto para iniciar um movimento. Ohava para as pernas de Nick, uma boa pessoa, e via que estava pronto a atacar. A cintura rodou, como se disparasse um braço, primeiro a mão esquerda embatendo na cara do homem, e o braço recolheu para o braço direito avançar, voltando depois à posição inicial ao mesmo tempo que o braço esquerdo executava outro disparo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nick manteve os braços levantados, sendo ainda e apenas um homem que está pronto para combater, como se esperasse a contagem do árbitro a garantir a desclassificação do adversário. Depois viu o homem cair de joelhos, os ombros produzindo um som abafado, ossos aterrando no passeio. E quando os amigos se aproximaram, Nick não celebrou, apenas cobriu a cara com a mãos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nick não era o corpo magoado do personagem Tyler Durden, em Fight Club, nem se encontrava em tronco nu, com os pés descalços, numa cave onde homens combatiam, prontos a magoar, para se sentirem mais vivos. Nick nunca disse:&lt;br /&gt;“How much can you really know about yourself if you’ve never been in a fight?”&lt;br /&gt;E no, entanto, Nick, uma boa pessoa, foi tudo aquilo que odeia ser no momento em que as pernas flectiram e os braços assumiram a posição dos pugilistas profissionais, criando uma beleza talvez repudiável, mas que não deixou de encantar a assistência.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106210091707244242?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106210091707244242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106210091707244242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106210091707244242' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106204685542593398</id><published>2003-08-28T06:00:00.000+01:00</published><updated>2003-08-28T16:57:40.573+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Criminosos Pop&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma marca de roupa americana lançou um modelo de calças dedicado a Madonna. Eu não as vestiria, mas compreendo, porque Madonna, que eu saiba, nunca colectivizou propriedades ou sequer enviou outros cantores para campos de concentração. É apenas uma mulher que vende discos. Não faz mal a ninguém, não obriga a população de um país a ouvir a sua música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que me surpreendo quando vejo, nas mãos da minha amiga Stephanie, um porta-chaves com a imagem de Ho Chi Min. Já tinha reparado na propagação das t-shirts com a cara de Mao Tse Tung ou que recordam a União Soviética:&lt;br /&gt;“CCCP”&lt;br /&gt;Sempre me espantou a leviendade com que as pessoas transformam criminosos em símbolos populares, em motivos para enfeitar roupa, em elementos de decoração nas próprias casas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo a Stephanie, uma mulher inteligente, que não gosto daquele porta-chaves. E não me refiro à cor, nem sequer ao desenho. Ho Chi Min pode ter sido estóico na luta pela libertação do Vietnam. Combateu os franceses, a potência colonial, e mais tarde os Estados Unidos. Mas Ho Chi Min foi também o homem que criou os campos de re-educação, que roubou terras, que matou aqueles que revelavam comportamentos burgueses – ou que disso eram acusados – e que eliminou a voz dos que se opunham ao seu regime. Foi o homem que queria ganhar, preferindo sempre os ideais ao valor da vida humana:&lt;br /&gt;“Podem matar dez dos meus homens por cada um que eu mato dos vossos, mas vocês perderão e eu ganharei.” &lt;br /&gt;A questão é se todo - ou algum - bem que Ho Chi Min fez, poderá alguma vez desculpar o mal que originou. A mesma pergunta fica para os que têm postais de Fidel Castro colados na porta do frigorífico, ou para aqueles que vestem casacos que imitam as fardas alemãs da Segunda Guerra Mundial apenas por uma questão de estilo, sem consciência do que fazem, afogados na ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À minha amiga, judia, americana, apenas perguntei:&lt;br /&gt;	“E se eu fosse jantar com a cara do Hitler estampada na camisa?”&lt;br /&gt;Não acho sequer que seja perigoso – do ponto de vista da propaganda – que se utilize uma t-shirt com a bandeira soviética. Mas revela um desconhecimento, esse sim, perigoso, e uma falta de respeito por todos aqueles que tiveram que viver com Staline, Ho Chi Min, Mao, Hitler, Mussolini, Salazar, ou Fidel Castro. É que Stephanie, mesmo que eu critique, pode escolher o porta-chaves que lhe apetecer, ao contrário das vítimas desses ditadores. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106204685542593398?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106204685542593398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106204685542593398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106204685542593398' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106195836237428160</id><published>2003-08-27T05:26:00.000+01:00</published><updated>2003-08-27T05:26:02.396+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os dois lados do oceano&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última vez que estive em Lisboa uma mulher disse-me que detestava os americanos. Perguntei-lhe se conhecia algum, se já havia estado nos Estados Unidos, se sabia quais eram as diferenças entre um texano e um nova iorquino. Ela respondeu:&lt;br /&gt;	“Não.”&lt;br /&gt;A sua opinião era baseada na opinião dos outros, nos filmes que vira, nos noticiários que comia todos os dias antes de jantar. Para ela, os americanos – quase trezentos milhões – eram todos gordos, amantes das armas de fogos e inimigos dos países indefesos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos Estados Unidos, perguntaram-me algumas vezes porque são os europeus fumadores compulsivos e porque mostram medo quando se trata de participar em conflitos internacionais. O New York Times da semana passada mostrava fotografias de lugares em Paris que imitavam lugares em Nova Iorque. O texto, curto, sem graça, desvalorizava o suposto encanto da capital francesa e emendava a certeza, de Humphrey Bogart, no filme Casablanca, para:&lt;br /&gt;	“We’ll always have New York.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As comparações entre estas culturas – que têm menos diferenças do que imaginamos – é um sofisma inconsequente e aborrecido. É um disfarce para a intolerância e para a insegurança diante de algo estranho ou novo. A verdade é que – vivendo em Nova Iorque – aprendi a reconhecer o que existe de melhor em ambos os continentes. Não se trata de opor realidades, de dizer que isto é melhor que aquilo, mas antes de ter o esclarecimento suficiente para desfrutar a sabedoria, os ensinamentos, ou o estilo de vida de cada país. Apenas uma coisa é certa, gente obtusa e arrogante, quase sem remédio de cura, que não sabe comer à mesa e que vive enganada, existe em todo o mundo. Os estúpidos ou os criminosos são sempre iguais, onde quer que nasçam. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106195836237428160?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106195836237428160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106195836237428160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106195836237428160' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106193021434915788</id><published>2003-08-26T21:36:00.000+01:00</published><updated>2003-08-26T21:36:54.346+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Aquilo que somos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo conta-me, à mesa de uma esplanada, a noite de ontem. Ela era uma rapariga loira com um traço de sangue seco numa das narinas. O sangue repetia-se num dos dedos, infiltrara-se no contorno de uma unha. A boca dela tinha o sabor amargo da cocaína. Estiveram sentados nos degraus de um edifício de escritórios, no SoHo, porque ela queria beber água e contar-lhe a vida. Onde estavam ainda podiam ouvir a música da discoteca de cada vez que o porteiro abria a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo agora o meu amigo cansado, diante de mim, bebendo um refrigerante pela palhinha num restaurante de Union Square:&lt;br /&gt;	“As pessoas gostam muito de falar quando cheiram.”&lt;br /&gt;A rapariga chegara da Europa e os pais divorciaram-se. Uma amiga morrera num acidente de carro, a irmã fez um aborto, o pai é alcoólico. O meu amigo continuava sentado ao lado da rapariga loira, escutando tudo, indeciso entre a comiseração e a vontade de levá-la para a cama:&lt;br /&gt;	“Às vezes deixava de ouvi-la. Toda aquela informação estava fora de lugar. Não &lt;br /&gt;deveria ser partilhada na rua.” 	&lt;br /&gt;O meu amigo decide não fumar depois de beber o refrigerante porque está de ressaca. Continua a contar-me que dormiu pouco porque levou a rapariga loira para casa, experimentando-lhe o sexo ainda no banco de trás do táxi.&lt;br /&gt;	“Ontem era apenas aquilo que lhe queria fazer.”&lt;br /&gt;Esta tarde, depois de comentar as pernas da empregada que nos traz a conta, questiona-se sobre a culpa que deveria sentir. Garante-me que vai telefonar à rapariga loira, que tem que protegê-la em vez de consumi-la, que não podemos ser assim, tão vulneráveis aos instintos:&lt;br /&gt;	“Mas, sabes, ontem era apenas aquilo que lhe queria fazer.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106193021434915788?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106193021434915788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106193021434915788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106193021434915788' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5692311.post-106186859268090779</id><published>2003-08-26T04:29:00.000+01:00</published><updated>2003-08-26T23:54:57.963+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Se fechares os olhos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta manhã é tão boa para a humanidade. Encontro crianças em Central Park e os baloiços não magoam ninguém. Continuo a descobrir os velhos sentados nos degraus dos prédios, fumando cachimbos, ocupados em sintonizar os rádios a pilhas. Ouvem-se menos ambulâncias e os táxis esquecem as buzinas. O ar condicionado melhora a leitura de qualquer jornal. Nesta cidade, há sempre uma mulher bonita que nos responde com um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém me telefona para dizer que leu um texto que escrevi e que não gostou, que há coisas estranhas e desconfortáveis naquela história, que já há desgraças a mais no planeta para as pessoas perderem tempo a lerem as misérias da condição humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligo a televisão e vejo as mesmas imagens, as crianças coxas, os decepados, as dentadas das bombas nos edifícios. Deixo as imagens passarem, acompanhadas por uma música cinematográfica. A dor transformou-se em entretenimento para os que vivem o mundo a partir do sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo uma resposta rápida à pessoa que me telefonou, como se lhe enviasse um telegrama: &lt;br /&gt;                “Se fechares os olhos e apagares todos os aparelhos de comunicação, se &lt;br /&gt;                permaneceres nos parques onde as crianças crescem, esta será sempre uma&lt;br /&gt;                boa manhã para a humanidade. Mas apenas se fechares os olhos.”&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5692311-106186859268090779?l=abramosolhos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106186859268090779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5692311/posts/default/106186859268090779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abramosolhos.blogspot.com/2003_08_01_archive.html#106186859268090779' title=''/><author><name>Blogger</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
